Bolonha e o ciclone episcopal do "padre" Zuppi

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06 Maio 2016

"Se não respeitarem os pactos", diz sorrindo, placidamente, como se propusesse um passeio ao mar, "eu vou ocupar a prefeitura". E, no escritório da Cúria, todos entendem que Dom Matteo Zuppi realmente poderia fazer isso, talvez sem nem mesmo tirar os paramentos episcopais com que acaba de celebrar a missa das 17 horas na catedral.

A reportagem é de Michele Smargiassi, publicada no jornal La Repubblica, 05-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Foi um dia difícil, essa terça-feira: ocupantes despejados, famílias com crianças e idosos nas ruas, manifestação, agressões da polícia, golpes de cassetetes, feridos, alguns subiram aos telhados e não queriam descer.

Há muito tempo, em Bolonha, a luta por moradia se tornou um confronto de rua. Mas, nessa terça-feira, eles se refugiaram em uma igreja e pediram que fosse ele que conduzisse as negociações com a prefeitura para reaver um teto. Não o prefeito: mas Dom Matteo, o bispo que está colocando a cidade de cabeça para baixo.

O bispo da "ternura", certamente, tinha se apresentado assim, há cinco meses, à sua nova diocese. Ele corria o risco do clichê do bispo simpático e um pouco excêntrico. O prefeito Merola lhe presenteara, para as boas-vindas, uma biografia de Springsteen com dedicação imprudente: "Que o Boss esteja contigo". Talvez muitos subestimaram que, quando ele estava à frente da Comunidade de Santo Egídio, Dom Matteo, com aquele sorriso um pouco escancarado, soube pacificar um país inteiro, Moçambique.

Sim, a ternura de Zuppi tem as costas blindadas, e ele já a está usando para derrubar os "muros" de uma cidade "com muitos corações fechados, agressivos, e muita indiferença para com a solidariedade". Talvez ele não quisesse vir para aquela que, há 40 anos, um antecessor seu, o cardeal Lercaro, apelidou de "diocese doente": até um ano atrás, ele brincava sobre os boatos da sua nomeação, "é mais fácil que o Bologna ganhe o campeonato... ".

Em meados de dezembro, eis que ele adentrou uma cidade festiva, a pé, duas horas para percorrer os 100 metros entre as Duas Torres e São Petrônio, entre apertos de mão e piadas, "Dom Matteo, posso ir te encontrar?", "Apareça lá. Se eu estiver, eu abro".

Mas não é "lá" onde ele mora, entre as galerias luminosas da Via Altabella, que até o Papa Wojtyla invejou a Biffi: como Bergoglio, Zuppi escolheu se instalar na modesta Casa do Clero da Via Barberia, longe das basílicas. E trouxe consigo, de Roma, a bicicleta.

Entre os novos bispos do Papa Francisco, Zuppi é seguramente o que partiu mais forte na corrida bergogliana: Igreja de rua, portas abertas e batalha pelos últimos, os "invisíveis". Desocupados, refugiados, sem teto. Em uma cidade onde o prefeito, denunciado por excessiva tolerância em relação às ocupações habitacionais, parecia ter dado um passo atrás deixando que a Procuradoria e a Prefeitura agissem, o novo bispo foi se encontrar com os invasores para dizer que "ninguém leva embora a casa de ninguém. Há tantas casas vazias, e tantos sem casa".

A reviravolta é linguística: aos 243 pensionistas da empresa Saeco que lhe colocaram no pescoço um lenço vermelho, ele desejou "bom trabalho e boa luta", como um Di Vittorio. Sobre os refugiados, ele fala como "reis magos que atravessam lugares hostis", e, no lava-pés de Páscoa, ele proferiu a sua tríade: "servir, acolher, dar lugar".

Mas não se trata apenas de palavras. Por exemplo, havia a velha história da FAAC, multinacional dos portões automáticos que, por herança, é uma propriedade da Cúria bolonhesa, dom precioso, mas incômodo, acusações de "Igreja patroa" etc. Pois bem, o bispo cortou o nó górdio, transformando o problema em recurso: uma grande parte dos lucros, cinco milhões de euros, irá para os desocupados, e não sob a forma de esmola: a partir do acordo entre o Confindustria e os sindicatos, nascerá um fundo estável para a requalificação, incentivos para a recontratação e o microcrédito, um projeto estudado especialmente pelo economista católico Stefano Zamagni.

Bolonha o olha com espanto. "Grande personalidade, grande...", diz entusiasmado Francesco Guccini em seu retorno de uma viagem feita juntos, de trem, para Auschwitz. "Um padre das ruas e do altar", para o teólogo Vito Mancuso, "capaz de sintetizar a dimensão popular horizontal e a verticalidade da liturgia".

A antiga capital das Legações pontifícias tinha se acostumado a ser, há 40 anos, o fulcro do catolicismo conservador italiano, sob as pastorais contundentes do teólogo Giacomo Biffi e do moralista Carlo Caffara. Zuppi, em vez disso, não poupa ataques aos "cristãos de laboratório", talvez "julgadores", mas confortáveis na sua "elegante resignação". A Bolonha católica de obediência prodiana respira: com Zuppi, volta a ser pronunciável nas salas diocesanas o nome de Giuseppe Dossetti e também o do grande incômodo Dom Luigi Bettazzi: "desbolonhado" há meio século para Ivrea por esquerdismo, ele voltará a ser cidadão (honorário) de Bolonha.

Outra parte da cidade, em vez disso, morde o freio: os políticos da direita lhe mandam dizer que não se faz assim, que "não se se deve escutar apenas aqueles que gritam" e que, "se dissermos que ocupar é justo, então tudo fica difícil".

Um ministro bolonhês, Gianluca Galletti, considerou como excessiva a luz verde do novo bispo àquela mesquita que Bolonha, há uma década, mantém bloqueada.

Em relação à nova Igreja de Bergoglio, naturalmente, Dom Matteo também tem cautela. Muito avançado no campo social, prudente no ético-moral. Sobre as uniões civis, "é necessário um compromisso", poucas palavras sobre os gays, e, sobre as bênçãos na escola, não se discute.

Mas, também por isso, devemos ficar de olho nele, esse bispo que diz "não ter estudado para ser bispo", que se veste como sacerdote, porque "eu ainda tropeço na batina", que pede para ser chamado de "padre", que cita Lucio Dalla nas homilias: a revolução Bergoglio tem aqui, na cidade vermelho-papalina, o seu laboratório mais avançado.

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