Paolo Dall'Oglio, mil dias de silêncio

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28 Abril 2016

"A sua ausência é muito dolorosa, porque Paolo é um homem muito culto, que deu toda a sua vida a serviço do diálogo e da paz, defendeu os direitos humanos nesta região martirizada." O patriarca caldeu Louis Sako recordou dele dessa forma, muito antes que os dias do seu silêncio se tornassem mil. Mas que sentido tem hoje, não tanto para nós, mas para os sírios, lembrar o padre Dall'Oglio?

A reportagem é de Riccardo Cristiano, publicada no jornal La Stampa, 27-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A história desse jesuíta italiano está objetivamente ligada à dos dois bispos, o siro-ortodoxo Mar Gregorios Yohanna Ibrahim e o greco-ortodoxo Boulos Yazigi, sequestrados na Síria no dia 22 de abril de 2013, portanto, ainda antes dele.

E, não por acaso, justamente no último domingo, o Papa Francisco voltou a pedir a sua libertação. Três sequestros dramáticos, assim como são dramáticos os dos muitíssimos sírios sequestrados ou engolidos pela escuridão síria, há anos. Talvez seja esse o motivo pelo qual vale a pena, para os sírios, recordar o pastor que se fez um deles até o fim.

Poucos dias antes daquele 29 de julho de 2013, o Pe. Paolo, embora sabendo que o recente decreto de expulsão fazia dele um observado especial, não pôde se isentar da urgência de permanecer fiel à sua missão de ficar ao lado dos sírios. Uma escolha feita com naturalidade e consciência, tanto que, naqueles dias, ele escreveu a alguns amigos na forma de inciso: "Se puderem, lembrem-se de mim nas suas orações". Sabe-se lá o que eles entenderam: ele, ao contrário, tinha entendido tudo. Não tanto o risco para si, que ele levava em consideração, mas para todos os sírios que ainda buscavam um modelo de vida democrática na cidadezinha de Raqqa para onde ele foi e que, dali a pouco, caiu nas mãos do ISIS, abrindo um novo cenário assustador. Muitos ficaram surpresos com isso; não ele, acredito.

A Igreja em saída, a inclusividade e o governo de baixo

Ele entrou pela Turquia, onde, contou Michel Weiss no Daily Beast, ele se encontrava regularmente com uma refugiada síria, cristã de rito ortodoxo, Hind Aboud Kabauat: "Ele sempre me dizia: 'Hind, não podemos ficar sentados em casa fazendo as nossas lições. Devemos ir ao encontro das pessoas. Porque esse é o significado da liberdade e da democracia, 'das pessoas para as pessoas'. Foi exatamente isso que Jesus quis e o que Jesus fazia. Ele não ficou sentado na sua casa".

Com ela, ele costumava falar de Igreja em saída e, tendo chegado à fronteira turco-síria, em Gazantiep, concedeu a um jovem jornalista sírio, Rami Jarrah, uma entrevista que reapareceu apenas recentemente na web. Lá dentro, talvez, estava o coração dessa visão em saída: "Caros amigos sírios – lia-se na entrevista –, se cada um de nós fecha a mente e crê que as coisas acontecerão como deseja, vai ficar desapontado: agindo assim, as coisas aconteceriam como o diabo quer, nós todos perderíamos o país, e cada um perderia o outro. Caros, pensemos, em vez disso, no que fazer para pôr o país na estrada da compreensão, da convivência, da fraternidade, da democracia madura".

Ele começava a partir daí, a partir do esforço de pôr fim às derivas tirânicas compreendendo que elas são facilitados pelo medo do outro e, portanto, convidando a escolher um método racional e a descobrir, assim, em toda comunidade, não mais um perigo, mas um enriquecimento recíproco: "A unidade nacional que tivemos tinha caído de cima, como no Estado napoleônico. Isso é passado, que não funciona mais: agora, queremos uma unidade que parta de baixo, da vontade dos cidadãos e, portanto, preanunciadora de boas relações com todos os nossos vizinhos: os turcomanos trarão relações privilegiadas com a Turquia, os curdos e os drusos com os seus irmãos da região, os xiitas nos trarão relações privilegiadas com os xiitas do Sul do Líbano, do Iraque e do Irã. Por que não? Cada um de nós tem a sua filiação, eu sou católico e pertenço a Roma, qual é o problema disso? E se o outro é cristão ortodoxa, terá e levará adiante relações privilegiadas com Istambul, com a Grécia e com a Rússia".

A democracia, em contextos feridos e complexos, é alcançada com a inclusividade; parece essa a verdadeira mensagem do jesuíta convencido da urgência de um governo de baixo. Uma ideia "cândida"? Mas qual é a alternativa para o "candor"?

Não por acaso, a entrevista continua assim: "Devemos colocar todas essas filiações em um quadro de compreensão humana caracterizada pela religiosidade. Alguns de nós dizem que 'a religião é de Deus, e a pátria é de todos'. Alguns não gostam dessa frase de Fares al-Khoury [pai da independência síria]. Eles pensam que a pátria não pode pertencer a todos, se não deixarmos Deus do lado de fora da porta. Eu não rejeito esse ditado que agrada a tantos sírios, cristãos e muçulmanos, mas quero um país plural e harmonioso, onde reine a religiosidade, isto é, onde as pessoas se amam por serem seres humanos, criaturas de Deus, portanto, com direitos, dignidade e o merecido respeito. Religiosidade significa olhar-se assim como Deus olha para as suas criaturas. Eu volto, assim, ao otimismo e à vontade de construir a Síria como a desejamos: parlamentar, presidencial, federal, unida como antes ou com mais autonomias regionais... nós a construiremos como quisermos!". Direitos e dignidade, isto é, comum "cidadania".

O ponto crucial: a cidadania

Tendo chegado em Raqqa, houve o "costumeiro" banho de multidão, retomado por muitos. Naquela ocasião, ele explicitou os seus objetivos: "Vim impulsionado pela tristeza com o sequestro do meu amigo Ahmad al-Hajj Saleh, que me reservou uma acolhida abraâmica em Tall Abiad quando passei por lá em fevereiro. [...] Vim para pedir aos sírios, para lembrar aos sírios, para pedir a mim mesmo: em suma, pessoal, façamos alguma coisa para pacificar novamente e levar adiante o objetivo certo, o de obter a liberdade para todos os sírios. E mantê-la!".

Talvez ele foi jantar com a sua querida amiga, a muçulmana Suad Nufal, e talvez saíram juntos, já que ela costumava ir, depois do jantar, para a frente da sede local do ISIS: colocava-se lá, vestindo calças escuras, para afirmar os seus direitos de ser humano.

Hind, Rami, Suad: são alguns rostos da Síria do Pe. Paolo, o jesuíta que tem como bússola a cidadania, seguindo a Carta a Diogneto: "Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular".

Fala a irmã, Francesca

O sequestro por parte dos milicianos do ISIS, nunca reivindicado, deu origem a uma confusão de ilações, que agravaram a dor. A irmã, Francesca Dall'Oglio, afirma: "Esses 1.000 dias de incerteza e de angústia pelo destino de Paolo, com um terrível fluxo de notícias contrastantes, são muito duros para todos nós. Também são dias acompanhados pela certeza de que, para Paolo, coerentemente com o 'chamado' recebido, aquele era o lugar onde ele devia estar: ao lado do povo sírio tão martirizado e por ele tanto amado, pastor pelas suas ovelhas. Voltam à minha mente todas as estradas que ele tinha tentado percorrer para favorecer uma sensibilidade sobre o desastre que estava ocorrendo na Síria e sobre aquilo que ainda era possível fazer. Quem sabe, talvez aquelas estradas entrevistas então, no seu fundamento para o diálogo, possam ser a chave de leitura para... olhar além. Hoje, sinto que a sua linguagem era profética, sempre acompanhada pela confiança no Senhor, apesar das dificuldades e da dor do contexto. Para nós, alguns momentos foram intensos e cheios de esperança, sentimos o nível de sensibilidade e compromisso com Paolo, como naquele domingo de julho em que o Papa Francisco pediu a sua libertação, falando dele como 'estimado religioso'. E, no mesmo período, lembro a acolhida que nos foi oferecida pelo presidente [italiano] Mattarella, que nos reiterou o compromisso das instituições italianas para fazer todo o possível pela sua libertação. Naquela ocasião, assim como agora, colocamos novamente, com estima e confiança, no presidente Mattarella, a nossa esperança".

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