Argentina. Os três peronismos e a mudança de paradigma

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Por: Jonas | 04 Março 2016

“O cenário atual [na Argentina], filho da derrota eleitoral, mas também continuação de tensões preexistentes, mostra o movimento peronista como um arquipélago no qual sobressaem três grandes ilhas. Não se trata de uma ideia fragmentada, mas da postulação de elementos congênitos (ideológicos e filosóficos) que reforçam, em momentos adversos, as diferenças”, analisa Mariano Massaro, cofundador do Grupo Rodolfo Walsh (Frente para a Vitória) e colunista do jornal Tiempo Argentino, em artigo publicado por Rebelión, 02-03-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Por sua composição de movimento, o peronismo oferece o traço de diversos setores em sua dinâmica interna. Isto não representa uma novidade, mas, pelo contrário, um elemento ontológico que o acompanhou ao longo da maior parte de sua história.

O fato maldito do país burguês sempre assinalou uma ala de direita e outra mais reclinada à esquerda. Nos dias atuais, o eixo que rege seu reajustamento é, indubitavelmente, a liderança ou não de Cristina Fernández de Kirchner (CFK). Acompanhá-lo, enfrentá-lo, ou ser conscientes de sua necessidade parecem ser as chaves da nova disputa pelo Partido Justicialista (PJ), que se prepara para eleger autoridades.

O cenário atual, filho da derrota eleitoral, mas também continuação de tensões preexistentes, mostra o movimento peronista como um arquipélago no qual sobressaem três grandes ilhas. Não se trata de uma ideia fragmentada, mas da postulação de elementos congênitos (ideológicos e filosóficos) que reforçam, em momentos adversos, as diferenças.

Os três peronismos inundam a arena política nacional a partir de diversos prismas. Por um lado, um peronismo explícito de direita (colaboracionista) com Sergio Massa à cabeça, e os governadores de Salta, Juan Manuel Urtubey, e o de Córdoba, José Manuel De la Sota, apoiados pelo quarto mosqueteiro, o deputado Diego Bossio. Trata-se de uma ortodoxia que estimula um programa político liberal, em constante articulação com a restauração neoliberal. Falam o mesmo idioma de ‘Mudemos’. Esta Frente Renovadora e seus satélites souberam tecer alianças com setores sindicais de peso (CGT), retardando uma resposta madura do movimento operário frente ao selvagem ajuste que vivemos.

Flutuando ao meio, apresentou-se outra vertente com centralidade nos governadores e em boa parte dos intendentes, não todos. Nas entranhas deste armado federal, a figura de Daniel Scioli se movimenta com conforto, como também a do ex-intendente de La Matanza e atual presidente do PJ da província de Buenos Aires, Espinoza. Este ator político se movimenta ao ritmo de um pragmatismo vertiginoso; conciliador por natureza, mas consciente da necessidade de não romper com o kirchnerismo por razões tão profundas como a extraordinária placa de despedida de CFK. A partir da correlação de força que possuem, poder de fogo no Senado e bloco próprio de deputados, seu jogo está em pressionar, encurralar, tanto os que estão na situação, como a figura de CFK. Por um lado, para garantir recursos econômicos para seus territórios e, por outro, para desgastar e impor um de seus homens como herdeiro do peronismo, sem kirchnerismo. A ala de direita e a federal dividem agenda, apesar de utilizar táticas dissimilares. As divisões entre deputados e o realinhamento de senadores devem ser lidos nesta dinâmica, apontando que são apenas alguns dos movimentos do tabuleiro que estão por vir.

Gostaria de me deter um momento para desautorizar o argumento da governabilidade trazida por estes espaços, pela boca de quem preside o bloco de senadores da Frente para a Vitória, Miguel Ángel Pichetto e reproduzida durante o Congresso Nacional do Partido, realizado no [estádio] ‘Obras Sanitarias’. A governabilidade é o resultado exclusivo da racionalidade política das ações de governo. A oposição deve exercer as ações conducentes à realização dos interesses que representa: a própria existência de partidos políticos dá conta da feroz briga de interesses contrapostos. Nesta ordem de idas, também não se deve camuflar o discurso da responsabilidade institucional, através da governabilidade, para ocultar a negociação de recursos. A obrigação de uma oposição séria é construir uma alternativa política sólida, esclarecida de que a mera “rosca” [discussão] mata a política.

O terceiro em discórdia, representa uma subjetividade política disruptiva, heterogênea, popular e democrática; um peronismo de centro-esquerda e esquerda moderada, que prefigura o ponto norteador da identidade kirchnerista. Com a inquestionável condução de Cristina Fernández de Kirchner, emerge daí a condução de um instrumento de superação e de frente, como o da Frente para a Vitória. Esta linha histórica do peronismo nacional e popular também reforça suas fileiras com nomes como Axel Kicillof, Jorge Capitanich, Jorge Ferraresi e Patricio Mussi.

Distribuição de papéis. O Movimento de pinças: A tática escolhida pela restauração neoliberal é dupla, por um lado, a execução de sua agenda estratégica que representa as políticas necessárias para modificar a matriz produtiva do país para um esquema de exportação de matérias-primas, com escasso valor agregado, e uma plataforma de serviços, tomando como referência a Índia, nas palavras da vice-presidente Gabriela Michetti. Liberando as forças do mercado e ocasionando uma transferência sideral de recursos das classes populares para as elites dominantes, assim como realinhando as inserções internacionais para ratificar o papel presente na divisão internacional do trabalho, pode se dizer que esta briga carrega nas costas duzentos anos de história. A outra peça da pinça consiste em atribuir ao peronismo (em sua vertente de direita e pragmática/federal) a infausta tarefa de administrar o conflito social e político, ou seja, conter uma porção significativa da natural resposta a tais políticas. Neste ponto, cabe destacar que a agenda estratégica do bloco dominante requer muito menos tempo que o mandato constitucional de quatro anos, sabendo que o encomendado engenheiro Mauricio Macri atua como o estopim de toda a operação, concederam, em prol de assegurar a continuidade da restauração, o lugar de alternância presidencial ao peronismo genuflexo.

Merece um parágrafo à parte o papel que Guillermo Moreno está desempenhando, como instigador de uma campanha de filiação massiva ao PJ, em todo o país. Esta iniciativa foi uma das ações políticas mais contundentes e precisa a respeito das necessidades da conjuntura política. O ingresso de milhares e milhares de companheiros/as que integram esse novo sujeito político mobilizado, que CFK assinalou como empoderados, adiciona um salto de qualidade na construção política do campo popular, ao mesmo tempo em que condensa uma ação política ofensiva, no acordo defensivo geral. Esta campanha de filiação massiva tem como claro objetivo impedir o desembarque da direita peronista na condução do Partido Justicialista. A realidade indica que o objetivo começou a ser realizado, atento que o escolhido por Mauricio Macri, em Davos, o deputado Sergio Massa, apostou na cabeça do governador de Córdoba a postulação para encabeçar o partido.

Deve ficar claro que não está em jogo apenas a vida institucional do PJ, mas a condição de possibilidade de subsistência da Frente para a Vitória, tendo em conta que a perda do PJ para a direita acarretará, irreversivelmente, a desarticulação da Frente para a Vitória.

Portando, a incomum onda de filiações ao PJ implica algumas responsabilidades que devem ser assumidas. Honestidade intelectual do estado de situação: o resultado não está definido, pode falhar, mas cremos na inteligência desta tática. Compromisso democrático: dar garantias aos milhares de companheiros/as que sua voz será ouvida; os empoderados querem votar. A cristalização de uma lista única, por trás de um candidato de consenso, atenta contra a renovação dos votos no projeto nacional e popular.

A chave interpretativa surge do fato que, após a derrota eleitoral, houve uma mudança de paradigma. A demanda de democratização, de autocrítica, de problematização das organizações do kirchnerismo está na agenda, formando uma peça insubstituível para a reconstrução.

Tendo falhado o plano A, expectativas desmedidas postas no cinturão legislativo (impossibilidade de administrar o quórum) como aríete da resistência, instala-se a necessidade de confluir em uma nova frente política do campo popular, de caráter muito amplo, e daí se apresentar como nova maioria popular. A ideia de uma neotransversalidade margeia o caminho, convidando a todos. Neste contexto, a liderança de CFK é inquestionável e insubstituível. A difícil empresa de sua construção requererá flexibilidade tática; uma nova frente, inicialmente para a unidade de ação, mas apostando em um processo que possa amadurecer para alguma instância de superação.

Celebrando uma incipiente unidade de ação como a protagonizada pelas duas CTA, fato de alto voo, devemos ser conscientes que não alcança. Não condiz com o momento histórico a escolha de priorizar as funções reivindicativas. O marco de alianças táticas deve oscilar como marco de referência, com a figura de CFK de um lado e, a modo de limite, com a censura dos traidores da causa popular. Desta forma, a unidade se torna um objetivo político de onde brotará a nova agenda. Os territórios gestarão suas novas lideranças, a mudança geracional dará a sua contribuição na procura por voltar a apaixonar e redirecionar a maioria instável e circunstancial com a qual a direita chegou à cadeira de Rivadavia. Com o pessimismo da realidade e com o otimismo da vontade esta é a tarefa.

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