O preço de um abraço

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16 Fevereiro 2016

Quem está pagando o preço do abraço entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill?

A pergunta não pareça absurda nem muito menos provocadora. Certos gestos têm sempre um preço, e os protagonistas são os primeiros a sabê-lo. De certo, um preço o estão pagando os católicos ucranianos de rito oriental, aqueles que os ortodoxos chamam depreciativamente de “uniatas”, palavra que exprime todo o desprezo para quem é visto como um traidor, um “cavalo de Troia” do catolicismo no campo ortodoxo.

O comentário é de Aldo Maria Valli, publicado no seu blog, 14-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Golpeados quase até a morte pelo estalinismo, que procurou aniquilá-los, estes cristãos de rito bizantino porém fiéis ao Papa de Roma tem erguido a cabeça com o fim da União Soviética. Saídos literalmente das catacumbas, voltaram a viver em liberdade e finalmente puderam chorar abertamente os seus inumeráveis mártires, mas eis que Francisco, com o abraço a Kirill e a declaração comum, lhes faz entender reterem um anacronismo histórico, um experimento que já não será mais repetido, porque não é com estas uniões, explica, que se pode progredir no terreno ecumênico.

“Hoje é claro – se lê na declaração – que o método do uniatismo do passado, entendido como união de uma comunidade à outra, destacando-a da sua Igreja, não é um modo que permite restabelecer a unidade”. Consta de fato para os “uniatas” que o encontro entre o Papa de Roma e o Patriarca de Moscou representa um duro golpe e alguns deles falam abertamente de traição.

Outro preço o estão pagando os ucranianos agredidos por Moscou e por sua política expansionista. Na declaração comum, firmada pelo Papa e pelo Patriarca não há uma só palavra para eles. Quando se deplora o recurso à violência se faz isso em sentido genérico, sem distinção entre agredidos e agressores, como se as responsabilidades fossem as mesmas.

Também antes da declaração comum, Francisco havia estigmatizado as violências entre irmãos cristãos na Ucrânia, sem fazer nenhuma distinção. Claro que o intento era de não provocar a sensibilidade de Moscou, entendida seja como o Kremlin, seja como o patriarcado ortodoxo.

“A incapacidade de encontrar qualquer tipo de referência na declaração conjunta à agressão estrangeira na Ucrânia é um grande erro”, comenta o Serviço de informações religiosas da Ucrânia. O fato é que não se trata de “erro”, mas de escolha. Um preço o estão pagando, em certo sentido, todos aqueles que se opõem a Putin, porque o elo entre o patriarcado de Moscou e o Kremlin não é um mistério e de cero não há decisão tomada por Kirill que não tenha sido avaliada com atenção, e autenticada por Vladimir Valdmirovic e, portanto, se o Papa abraça Kirill, é um pouco como se, por interposta pessoa, abraçasse e abençoasse também Putin.

Um preço o está pagando o Patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I. Até agora o único verdadeiro interlocutor do Papa em campo ortodoxo, era ele, este homem que sempre acreditou no diálogo ecumênico e que deixou nada de intentado para reatar as relações com a Igreja de Roma. Mas Bartolomeu, para falta de sorte sua, é um pastor sem grei, um general sem exército.

Os cristãos, na Turquia, desapareceram e os poucos sobre os quais governa Bartolomeu se encontram quase todos no exterior, esparsos pelo mundo. Primeiro por honra entre os patriarcas ortodoxos, Bartolomeu não o é de fato em sentido real e concreto.

Quando se olha para os números e a geopolítica, infinitamente mais poderosa do que ele é Kirill. Um preço, enfim, o estão pagando, em vária medida, os opositores de Castro e do castrismo (desde aqueles que estão no cárcere até todos os outros), que viram Raul elevado ao nível de “facilitador” do abraço entre o Papa e o patriarca de Moscou e assistiram incrédulos ao seu encontro em terra cubana, num cenário de socialismo real (o triste aeroporto de Havana), entre dois chefes religiosos que na ocasião se comportaram como chefes de governo, sem os seus povos, sem nenhum símbolo religioso, sob a regia de um ditador ateu, já cabeça de ponte da União Soviética.

Ora, nós sabemos que o realismo é um traço distintivo de Francisco. Por isso, não há porque espantar-se com esta realpolitik nos confrontos de Kirill. Francisco queria o abraço, ele o queria fortemente e o obteve. O queria para abater um muro que resistia há muito tempo, para abrir uma fresta lá onde, em precedência, tinha havido somente portas fechadas. O queria porque está convicto que da relação direta e pessoa, do olhar-se nos olhos possam brotar mais frutos do que de todas as conferências e congressos teológicos possíveis e imagináveis. Cônscio dos preços a pagar, e de fazer pagar a outros, não obstante o quis, porque convicto que as vantagens, imediatas de futuras, sejam superiores aos custos.

Da mesma forma, o abraço foi querido por Kirill. Menos livre que Francisco (o Patriarca não goza da mesma autonomia e capacidade decisional do Papa de Roma), e às voltas com correntes contrárias um tanto aguerridas, no final, contudo decidiu pelo grande passo, porque entendeu que deixar-se condicionar pelas lutas internas à ortodoxia equivale à paralisia e porque viu em Francisco o interlocutor certo para abrir uma página nova, ainda toda a escrever, mas em todo caso necessária no momento no qual também a grande Igreja ortodoxa russa faz as contas com a profunda secularização da sociedade, a fuga dos fiéis, a crise das vocações.

Num quadro tão dramático, ainda tem sentido proceder como separados ou até mesmo como inimigos? Não é mais racional começar a unir as forças, pelo menos em relação a alguns problemas? E, não o é ainda mais diante das perseguições sofridas pelos cristãos, católicos e ortodoxos, em algumas áreas do mundo?

Entrementes, não o esqueçamos, os ortodoxos estão na véspera de um grande encontro que foi preparado por cinquenta anos e no qual se mensurarão um ao outro. O encontro é para junho, em Creta (outra ilha, como Cuba). Um sínodo do gênero não se realizava há mil e trezentos anos. Um dos grandes temas será a conduta com os católicos e, se até agora os anti-ecumênicos podiam dar-se força pensando no muro de Moscou, agora têm as armas um pouco desgastadas.

Agora que, após o humilde e isolado Bartolomeu, também o potente Cirilo abraçou Francisco, continuar na linha dura será muito mais difícil. E é seguro que Bergoglio quis o abraço, aproveitando a ocasião cubana, também pensando no encontro cretense. São dois os filões que se impõem após os primeiros três dias da viagem papal na América.

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