Internet: o ódio que suspende a ética. Artigo de Zygmunt Bauman

Revista ihu on-line

Bioética e o contexto hermenêutico da Biopolítica

Edição: 513

Leia mais

Revolução Pernambucana. Semeadura de um Brasil independente, republicano e tolerante

Edição: 512

Leia mais

Francisco Suárez e a transição da escolástica para a modernidade

Edição: 511

Leia mais

Mais Lidos

  • Mantido o ritmo atual, Brasil levará 200 anos para levar ensino médio a todos os jovens, mostra pesquisa

    LER MAIS
  • Para fiscal, só falta dizer que é preciso ter correntes para definir trabalho escravo

    LER MAIS
  • 'Sobram evidências de que o governo está do lado de quem explora o trabalho escravo e não de quem é explorado'

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

01 Fevereiro 2016

Os sujeitos solitários diante de um celular, da tela de um tablete ou de um computador portátil, que têm apenas outras pessoas "virais" para se defrontar, parecem colocar para dormir a razão e a moral, deixando sem rédeas as emoções que normalmente são controladas.

A opinião é do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em artigo publicado no jornal Avvenire, 28-01-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os problemas gerados pela atual "crise migratória", exacerbados pelo pânico sobre as migrações, pertencem à categoria das questões mais complexas e controversas: neles, de fato, o imperativo categórico e moral se choca com o medo do "grande desconhecido", personalizado pelas massas de estrangeiros que encontramos às nossas portas.

O medo impulsivo estimulado pela visão de pessoas "alheias" que trariam consigo perigos inescrutáveis entra em competição com o impulso moral causado pela visão da miséria humana. Quase em nenhum outro caso poderia ser maior o desafio à tentativa moral de persuadir a vontade a seguir o seu imperativo; e raramente poderia ser mais dilacerante a tarefa da vontade que procura fechar os ouvidos a esse imperativo moral.

Todos nós poderíamos ser alistados em um momento ou outro, ou simultaneamente, nos diversos papéis desse combate: "campo de batalha", "soldado" ou "canhão". E alguns de nós poderiam, por isso, ser tentados pela "grande simplificação" oferecida pela web.

Lá, nesse refúgio, somos salvos da inevitabilidade de nos confrontarmos com o adversário cara a cara. Poderíamos nos deparar com a armadilha da mentira conflitual e que ataca o respeito de si com o simples expediente de fechar os olhos diante da presença do adversário, chegando até a fechar os ouvidos aos seus argumentos.

Esses dois aspectos são facilmente visíveis online, enquanto não o são em nada no mundo real. Previsivelmente, é o que constataram alguns pesquisadores em muitos usuários de internet, tendo-os estudado para explicar quais são as funções da rede na defesa de si mesmo em relação a ver e a ouvir o que acontece no campo de batalha.

Na "zona de segurança" delimitada por essa escolha, são admitidas apenas pessoas que pensam da mesma forma, enquanto aqueles do campo adversário são impedidas de entrar. Basta pouco, em termos de decisão e de coerência, para apertar a tecla "delete" do computador e eliminar a controvérsia e os seus protagonistas da memória digital.

A partir do momento em que pôr em discussão qualquer coisa envolve o risco de sermos desmentidos e, portanto, consideramos mais conveniente evitar o debate, eis que a eliminação da necessidade de discutir a importância e a gravidade dos imperativos morais se apresenta como um alívio: "Tornar-se moralmente cego e surdo agora é o suficiente, obrigado...".

Com essa moralidade tornada cega e surda, não devemos nos admirar que "milhões de norte-americanos – como foi demonstrado em um recente estudo publicado pela National Academy of Science – acreditam que as suas posições são fundamentalmente filantrópicas, enquanto os outros são o mal a ser combatido".

Donald Trump, de longe o mais popular entre os candidatos republicanos para a presidência dos Estados Unidos e que já tem uma longa e crescente história de ódio racial e religioso, graças à típica invectiva "nós contra eles" e à recusa de se dissociar dos discursos repletos de ódio de alguns dos seus partidários, foi identificado como "o candidato perfeito para a nossa época viral" por Emma Roller, colunista do New York Times (29-12-2015).

Por que isso? Como descobriu um psicólogo da Universidade do Havaí, os momentos virais mais recorrentes são aqueles que "vêm diretamente do inconsciente" – enquanto "o ódio, o medo do outro, a raiva" vêm diretamente do fundo pulsional.

Os sujeitos solitários diante de um celular, da tela de um tablete ou de um computador portátil, que têm apenas outras pessoas "virais" para se defrontar, parecem colocar para dormir a razão e a moral, deixando sem rédeas as emoções que normalmente são controladas.

Obviamente, a internet não é a causa do crescente número de internautas moralmente cegos e surdos; mas ela facilita e alimenta de maneira notável esse crescimento.

A primeira reação diante do outro, por isso, tende a ser de vigilância e de suspeita, um momento de ansiedade indefinida, um impulso a buscar uma tábua de salvação, que é causa de mais nervosismo, justamente por ser indefinida. E, durante esse processo, o respeito pelos imperativos morais é suspenso.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - Internet: o ódio que suspende a ética. Artigo de Zygmunt Bauman