O horror de Paris e as vítimas de todo o mundo. Entrevista com Jon Sobrino

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27 Novembro 2015

Começou com uma nota de profunda dor, em memória das vítimas dos ataques em Paris, o seminário sobre "Uma Igreja pobre a serviço dos pobres", que foi realizado no dia 14 de novembro, na Pontifícia Universidade Urbaniana, de Roma, por ocasião do 50º aniversário do Pacto das Catacumbas, o documento assinado poucos dias antes do fim do Concílio por cerca de 40 bispos comprometidos em dar vida a uma Igreja dos pobres.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada na revista Adista, n. 41, 28-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E o teólogo da liberação e jesuíta salvadorenho Jon Sobrino, abrindo a sua palestra sobre "O significado do Pacto das Catacumbas para a Igreja de hoje", lembrou, junto com as vítimas do massacre de Paris, as de todos os massacres, de hoje e de ontem, começando pelos inocentes e indefesos agricultores dos massacres de Sumpul e de Mozote, ocorridos em El Salvador durante os anos do conflito armado interno.

No fim do seu discurso, o teólogo – que, no dia anterior ao seminário, tinha se encontrado com o Papa Francisco durante a missa matinal em Santa Marta – aceitou responder às perguntas de alguns jornalistas (Adista, Radio Vaticana e Vida Nueva).

Eis a entrevista.

Depois dos acontecimentos de Paris, com os olhos ainda cheios daquele horror, não se pode deixar de ter a sensação de que, um pouco por todos os lados, do terrorismo às mudanças climáticas, todos os problemas estão vindo à tona. Chegou o momento de o Ocidente pagar pelos seus erros?

Ellacuría denunciava as culpas daquela que ele chamava de "civilização da riqueza", considerando-a responsável pela grave doença de que o mundo sofre. E não há dúvida de que ela está presente principalmente na Europa, antes e depois do nascimento da União Europeia, e nos Estados Unidos. Eu acredito que, no seu conjunto, esses países não assumiram a sua responsabilidade, que vai além do que dizem os seus políticos e os seus chefes do governo. E eu acho que essa proximidade com a África, o fato de que a África está chegando aqui, é bom para a Europa. Porque pode ajudá-la a compreender o que significa ser humano.

O desejo é de que o horror de Paris nos faça pensar em nós mesmos não só como vítimas. Somos todos nós, muitas vezes, que criamos um mundo injusto. Mas, uma vez que o horror foi cometido, o que pretendemos dizer? Protestar? Pegar um fuzil e matar todos os islâmicos? Ou, em pequenos passos, podemos buscar outro caminho, nós, cristãos, que queremos ser como Jesus, e os islâmicos que buscam o bem? E, ao menos, não devemos perder o senso da dor alheia, devemos fazer com que as coisas nos doam, além de nos levar ao protesto e à indignação, porque a indignação não é necessariamente dor. Que haja indignação, que haja dor e que haja vontade de caminhar na história fazendo justiça e amando com ternura.

Qual é o caminho que a Igreja é chamada a percorrer hoje?

É preciso identificar os marcos do nosso caminho. Eu escolhi aqueles representados por João XXIII, pelo Pacto das Catacumbas, por Medellín e por Puebla, onde se afirmou que os pobres, pelo mero fato de serem pobres, são defendidos e amados por Deus. A opção pelos pobres não significa apenas amar os pobres, mas também defendê-los de quem lhes faz mal, defendê-los de quem os empobrece. E defender quem está embaixo significa historicamente sempre correr riscos. Quem os defende deve estar abertos, preparado e disposto para enfrentar perigos.

O Pe. Arrupe, em 1975, falou, nesse sentido, de uma luta crucial, pela fé e pela justiça. Eu não sei se as nossas Igrejas, universidades, faculdades de teologia pensam realmente assim, se realmente acreditam na necessidade de participar dessa luta crucial. E também se disse que isso não pode acontecer sem pagar um preço. Sinto-me orgulhoso por algumas coisas feitas por nós, jesuítas, começando pela honestidade em relação à realidade. É preciso pagar um preço, e a Companhia de Jesus sabe muito bem disso: a partir das palavras pronunciadas pelo Pe. Arrupe em 1975, foram assassinados mais ou menos 60 jesuítas, todos fundamentalmente culpados por defender, de algum modo, a justiça.

O caminho, em suma, já está traçado: dizer a verdade, repeti-la, insistir em dizê-la, publicá-la. Dizer uma verdade que, além de ser tal, seja a favor do pobre. Comunicar o fato de que estamos defendendo o pobre, com a consciência de que, se o fizermos, correremos riscos. Quando nos encontramos diante do horror, quando está em ação uma perseguição, é preciso, é claro, denunciá-la, mas também dizer o que Dom Romero afirmava: "Eu me alegro, irmãos, que a Igreja é perseguida... Seria muito triste se, na nossa Igreja, não houvesse sacerdotes assassinados". Porque, quando há perseguição, isso significa que algo de bom está acontecendo na Igreja. Isso ajuda a humanizar um pouquinho o planeta. Em grande parte, o ar que respiramos está contaminado, e esse caminho ajuda a purificá-lo, a caminhar mais humanamente junto com o outro.

O que significou a beatificação de Dom Romero?

Diante de um grupo de cerca de 500 salvadorenhos, acompanhados pelo arcebispo de San Salvador, o papa declarou que o martírio de Dom Romero não se limitou ao momento da sua morte, porque o arcebispo foi perseguido antes e também depois do seu assassinato, "difamado, caluniado e manchado" também "pelos seus irmãos no sacerdócio e no episcopado", que continuaram a matá-lo mesmo depois, com aquela arma mais poderosa e mortal que é a palavra.

Nesse contexto, qual é o significado da canonização? Não se trata de uma reabilitação: reabilitar significa restituir a alguém algo que lhe foi tirado. Mas a Dom Romero não interessa tal reabilitação, e eu não acho que a beatificação tenha sido isso: foi muito mais do que isso. A meu ver, para o papa, foi um modo de animar as pessoas do mundo e, naturalmente, de El Salvador para a misericórdia. Dom Romero foi absolutamente misericordioso. O fato de o papa afirmar que Dom Romero é uma pessoa boa é um fato que dá muito ânimo, e eu acredito que isso aconteceu em El Salvador.

Depois, em relação ao modo como ocorreu a beatificação, do ponto de vista do culto, da missa, das palavras proferidas, dos convidados, da Cúria, não foi nada de especial. Mas as pessoas festejaram e aplaudiram mesmo assim, sem se interrogar se as palavras do culto eram justas ou não. Eu acho que o papa propôs isso com a beatificação de Dom Romero, mas, mais profundamente, acho que a intenção é a dar reconhecimento a um continente de mártires. Assim, agora se fala de uma canonização de Angelelli na Argentina, de Rutilio Grande em El Salvador... Em suma, é a ideia de que não é possível deixar os mártires morrerem também de silêncio. A América Latina é um continente que passou por um grande horror: ditaduras, oligarquias, esquadrões da morte, exércitos criminosos. Nessa situação, muitas pessoas da Igreja, vários sacerdotes e alguns bispos foram ao encontro do martírio. Eu acho que o papa, reconhecendo essa realidade, quer impulsionar para que se volte a um modelo da Igreja mais semelhante a Jesus.

Como foi o seu encontro com o papa?

Quando o jesuíta Martin Maier me perguntou se eu queria ir a uma missa do papa, eu logo disse que sim. Por temperamento, não sou muito adepto a essas coisas, mas este papa é um bom papa, e ter a oportunidade de encontrá-lo é um motivo de alegria. No fim da missa, Martin e eu ficamos no fim da fila. Depois, quando nos aproximamos, eu lhe disse: "Eu venho de El Salvador, sou jesuíta, companheiro dos jesuítas da UCA que foram assassinados". E ele me disse: "Sobrino!". E ficamos falando por algum tempo, simplesmente. No fim, ele me abraçou e me disse: "Escreva, escreva".

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