"Agora é justo combater. A guerra é justa quando necessária." Entrevista com Julia Kristeva

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19 Novembro 2015

Bisogno di credere: un punto di vista laico (Ed. Donzelli) é uma obra importante publicada há quase 10 anos por Julia Kristeva, grande personalidade – "escritor, mulher, mãe de família e analista, não me chame de intelectual" – da cultura europeia.

A reportagem é de Stefano Montefiori, publicada no jornal Corriere della Sera, 18-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Agora que a "necessidade de crer" irreprimível em muitos jovens toma o caminho do delírio jihadista, o trabalho de Julia Kristeva continua em primeiro plano. A escritora nascida na Bulgária e francesa há meio século trabalha na "casa dos adolescentes" do Hospital Cochin, de Paris, para ajudar com os meios da cultura e da psicanálise os jovens tentados pelo islamismo fundamentalista.

Eis a entrevista.

Como você descreveria a reação da sociedade francesa nestas horas?

Eu posso falar daquilo que eu vejo, que eu escuto dos meus pacientes e dos meus sentimentos. Pela primeira vez desde que estou neste país, e passaram-se mais de 50 anos, as pessoas creem na unidade nacional. Não a dos políticos, mas a do povo.

Os políticos estão divididos?

Parece-me que está acontecendo o contrário em relação aos dias do Charlie Hebdo. Na época, a classe política era compacta, mas os cidadãos em dificuldade e alguns muçulmanos hesitavam diante da questão das caricaturas do profeta. Hoje, os políticos continuam brigando, mas as pessoas parecem mais compactas, até mesmo os muçulmanos se sentem atacados no seu ser francês e reagem. Pela primeira vez, ouvi dignitários muçulmanos condenarem certos imãs que talvez não preguem a jihad, mas, mesmo assim, criticam o modo de vida ocidental, a alegria de amar, de cantar, de beber. Acho que é um bom sinal.

O que você pensa da afirmação de Hollande e do governo? A França está realmente em guerra?

Sim, a guerra chegou à França e é justo combatê-la. Eu não quero permanecer nas reflexões habituais da minha família política, a esquerda. A guerra não é uma coisa de norte-americanos, é preciso fazê-la quando é necessário, assumir a responsabilidade da maior firmeza e até ir além, pedir contas a Estados como a Arábia Saudita ou o Qatar da riqueza suspeita do Isis. E pedir mais à Europa, cuja impotência é escandalosa.

A sociedade francesa está pronta?

As pessoas se dão conta da situação e estão orgulhosas de serem francesas. Vou lhe contar esta pequena história. Eu aprendi a Marselhesa na Bulgária e chorava quando eu a cantava, porque pensava que nunca me deixariam conhecer esse povo. Depois, eu vim para a França e, em 50 anos, nunca chorei cantando a Marselhesa. Agora, até mesmo na frente da TV, eu canto e choro, e muitas pessoas fazem como eu. É uma reviravolta na opinião pública. Os políticos vão continuar brigando, mas a população está abalada e unida em torno dos símbolos da República. Cada um vai fazer o que puder.

Que tarefa você se deu?

Tentar interpretar, como laica, o fenômeno espiritual, não deixá-lo nas mãos dos loucos que se servem dele para cometer essas atrocidades. Os terroristas se servem do Islã, e é preciso combatê-los nesse campo, sem hesitação e sem medo de ser acusado de islamofobia. Para subtrair o Islã da instrumentalização do terrorismo, nós, ocidentais, também podemos fazer alguma coisa, por exemplo, mudar a atitude do Iluminismo que se construiu em contraposição à religião e reavaliar o patrimônio espiritual do cristianismo, do judaísmo e do Islã, levá-lo a sério e preparar os nossos jovens para enfrentar a propaganda jihadista.

Se negarmos a "necessidade de crer", a vontade de espiritualidade dos jovens, os deixaremos nas garras dos manipuladores da internet ou das mesquitas radicais. Os jovens precisam de ideais e, quando são frágeis, estão sem trabalho e são discriminados, os seus ideais entram em colapso, o desejo de amor é engolido pela necessidade de vingança, o que Freud chama de pulsão de morte. Precisamos reavaliar o patrimônio religioso, ensiná-lo nas escolas, não para inculcar a religião, mas para interrogá-la, interpretá-la, problematizá-la, deixá-la aos pregadores da morte.

Qual é a sua experiência com os adolescentes?

Eu transferi o meu ensinamento sobre a necessidade de crer para o Hospital Cochin, onde são tratados os adolescentes vítimas de anorexia, de vandalismo, de tendências suicidas, e cada vez mais famílias enviam jovens radicalizados, tentados pelo islamismo integralista. Eles ainda não partiram para a jihad, mas poderiam fazê-lo um dia. É preciso assumi-los enquanto ainda temos tempo.

Esses jovens tentados pelo islamismo radical ainda têm uma história comum?

Cada um é diferente, mas muitas vezes se trata de famílias de imigrantes de primeira ou de segunda geração, em que os pais estão ausentes, o pai geralmente não existe, e a mãe trabalha. Na escola, eles vão muito bem nas matérias científicas e muito mal no francês e, em geral, nas ciências humanas, nas quais é preciso se fazer algumas perguntas sobre si mesmos. Alguns se drogam. Apegam-se a uma ideologia mortífera, mas que lhes promete o paraíso e responde a sua necessidade de espiritualidade, de ideais. O Ocidente das Luzes também precisa se preocupar em responder a essa necessidade. O nosso humanismo deve se refundar. Eu, como psicanalista, tento salvar os jovens do integralismo, antes que seja tarde demais. Os intelectuais midiáticos são os "palhaços" dos políticos. Eu não quero me unir a eles. A guerra, infelizmente, deve ser feita. Mas eu me ocupo com a prevenção.

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