O catolicismo pode e deve mudar: Francisco ao Congresso da Igreja italiana

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13 Novembro 2015

O Papa Francisco delineou fortemente, mais uma vez, uma visão abrangente do futuro da Igreja Católica, dizendo com força a um encontro emblemático de toda a comunidade da Igreja italiana em Florença que os nossos tempos exigem um catolicismo profundamente misericordioso, que não tenha medo da mudança.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 10-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em um discurso de 49 minutos para um Congresso Nacional decenal da Igreja italiana – que está reunindo cerca de 2.200 pessoas de 220 dioceses nessa histórica cidade renascentista durante cinco dias – Francisco disse que os católicos devem se dar conta: "Não vivemos uma época de mudança, mas uma mudança de época".

"Diante dos males ou dos problemas da Igreja, é inútil buscar soluções em conservadorismos e fundamentalismos, na restauração de condutas e formas superadas, que nem sequer culturalmente têm a capacidade de serem significativas", disse o pontífice durante o seu discurso.

"A doutrina cristã não é um sistema fechado, incapaz de gerar perguntas, dúvidas, interrogações, mas é viva, sabe inquietar, sabe animar", disse o papa. "Ela tem um rosto que não é rígido, tem um corpo que se move e se desenvolve, tem uma carne macia: chama-se Jesus Cristo."

"A reforma da Igreja – e a Igreja é semper reformanda – (…) não se esgota no enésimo plano para mudar as estruturas", continuou. "Ela significa, em vez disso, enxertar-se e enraizar-se em Cristo, deixando-se conduzir pelo Espírito. Então, tudo será possível com genialidade e criatividade."

Francisco falou nessa terça-feira, no segundo dia do encontro da Igreja italiana, que está sendo realizado em Florença até esta sexta-feira. Ele voou de Roma em um helicóptero para uma viagem de um dia, que também o viu visitar a cidade vizinha de Prato.

O encontro é o quinto da Igreja italiana, que reúne bispos e leigos de todo o país para ajudar a definir as metas e a agenda para o trabalho da Igreja nacional para a próxima década.

Os comentários do papa foram marcantes na sua amplitude, ênfase e natureza forte. À medida que o pontífice falava na artisticamente famosa catedral de Florença, ele foi interrompido dezenas de vezes para ser aplaudido.

O tema do encontro italiano é "Em Jesus Cristo, o novo humanismo". Ele começou as suas considerações nessa terça-feira com uma meditação sobre o rosto de Jesus, que está representado na cúpula icônica da catedral de Florença em uma imagem renascentista do juízo final.

"Olhando para o Seu rosto, o que vemos?", perguntou o pontífice. "Acima de tudo, o rosto de um Deus 'esvaziado', de um Deus que assumiu a condição de servo, humilhado e obediente até a morte."

"O rosto de Jesus é semelhante ao de tantos nossos irmãos humilhados, escravizados, esvaziados", disse. "Deus assumiu o rosto deles. E esse rosto nos olha."

"Se não nos abaixarmos, não poderemos ver o Seu rosto", disse Francisco. "Não veremos nada da sua plenitude se não aceitarmos que Deus se esvaziou."

"Por isso, não vamos entender nada do humanismo cristão, e as nossas palavras serão belas, cultas, refinadas, mas não serão palavras de fé", continuou. "Serão palavras que ressoam o vazio."

Delineando três aspectos do humanismo cristão, Francisco pediu que os italianos adotem uma perspectiva de humildade, desinteresse ao louvor pessoal ou ao poder, e de uma vida de bem-aventuranças.

O papa também disse que havia duas tentações específicas que ele queria advertir a Igreja nacional, unindo as lutas dos dias modernos a duas antigas heresias da Igreja: o pelagianismo e o gnosticismo.

Falando sobre o pelagianismo, que defende que os seres humanos podem alcançar a salvação por conta própria, sem a ajuda divina, o pontífice disse que, nos dias de hoje, isso "nos leva a ter confiança nas estruturas, nas organizações, nos planejamentos perfeitos, por serem abstratos".

"Muitas vezes, ele nos leva a assumir um estilo de controle, de dureza, de normatividade", disse Francisco. "A norma dá ao pelagiano a segurança de se sentir superior, de ter uma orientação precisa. Nisso, ele encontra a sua força, não na leveza do sopro do Espírito."

"Que a Igreja italiana se deixe levar pelo Seu sopro poderoso [do Espírito] e, por isso, às vezes, inquietante", disse o papa, depois das suas palavras que a Igreja está sempre em reforma.

"Que ela assuma sempre o espírito dos seus grandes exploradores, que nos navios se apaixonaram pela navegação em mar aberto e não se assustaram com as fronteiras e com as tempestades", disse o pontífice aos italianos. "Que seja uma Igreja livre e aberto aos desafios do presente, nunca na defensiva por medo de perder alguma coisa."

Falando sobre o gnosticismo, que difundiu amplamente que as pessoas devem evitar o mundo material em favor do reino espiritual, Francisco identificou tal pensamento, hoje, com aquilo que nos leva a "confiar no raciocínio lógico e claro, que, porém, perde a ternura da carne do irmão".

"A diferença entre a transcendência cristã e qualquer forma de espiritualismo gnóstico está no mistério da encarnação", disse o pontífice. "Não pôr em prática, não conduzir a Palavra à realidade significa construir sobre a areia, permanecer na ideia pura e degenerar em intimismos que não dão fruto, que tornam estéril o seu dinamismo."

Francisco, depois, pediu que os italianos, "povo e pastores juntos", e voltassem para a imagem de Jesus na catedral de Florença e imaginassem o que Ele poderia dizer a eles como sinal de como eles deveriam seguir em frente no seu trabalho nacional.

Citando duas vezes o Evangelho de Mateus, o pontífice disse que eles poderiam imaginar Jesus dizendo ou: "Eu estava com sede, e vocês me deram de beber", ou "Eu estava com sede e vocês não me deram nada para beber".

"As bem-aventuranças e as palavras que acabamos de ler sobre o juízo universal nos ajudam a viver a vida cristã em nível de santidade", exortou o papa. "São poucas palavras, simples, mas práticas. (…) Que o Senhor nos dê a graça de entender essa sua mensagem!"

Explicando as bem-aventuranças no início do discurso, Francisco disse que nessas oito bênçãos contadas por Jesus no Sermão da Montanha, "o Senhor nos indica o caminho".

"Percorrendo-o, nós, seres humanos, podemos chegar à felicidade mais autenticamente humana e divina", disse o papa. "Jesus fala da felicidade que experimentamos apenas quando somos pobres no espírito".

"Na parte mais humilde da nossa gente, há muito dessa bem-aventurança", disse o pontífice. "É a de quem conhece a riqueza da solidariedade, do compartilhar mesmo o pouco que se possui; a riqueza do sacrifício cotidiano de um trabalho, às vezes duro e mal pago, mas realizado por amor pelas pessoas queridas."

"Se a Igreja não assume os sentimentos de Jesus, ela se desorienta, perde o sentido", disse Francisco. "As bem-aventuranças, enfim, são o espelho para nos olhar, que nos permite saber se estamos caminhando no caminho certo: é um espelho que não mente."

Depois, falando diretamente para os prelados presentes na catedral, Francisco disse sem rodeios: "Aos bispos, peço que sejam pastores, Nada mais: pastores. Que essa seja a glória de vocês: 'Sou pastor'. Serão as pessoas, o rebanho de vocês, que vão sustentá-los".

O pontífice disse: "Que nada nem ninguém tire de vocês a alegria de serem sustentados pelo seu povo".

"Como pastores, sejam pregadores não de complexas doutrinas, mas anunciadores de Cristo, morto e ressuscitado por nós", disse. "Apontem para o essencial, o querigma."

Francisco também falou sobre o ensino da Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres – que defende que os católicos devem levar em consideração o impacto que todas as escolhas terão sobre os mais pobres – declarando com força: "O Senhor derramou o Seu sangue não por alguns, nem por poucos, nem por muitos, mas por todos!".

O papa também falou longamente sobre o papel do diálogo na sociedade, dizendo que não é simplesmente uma negociação, mas a busca do bem de todas as pessoas.

Encerrando o discurso, Francisco disse: "Pode-se dizer que hoje não vivemos uma época de mudança, mas sim uma mudança de época".

"As situações que vivemos hoje, portanto, põem novos desafios que, para nós, às vezes, são difíceis de compreender", disse o pontífice. "Este nosso tempo requer que vivamos os problemas como desafios, e não como obstáculos: o Senhor está ativo e em ação no mundo."

"Vocês, portanto, saiam pelas ruas e vão às encruzilhadas: todos aqueles que encontrarem, chamem-nos, sem excluir ninguém", exortou. "Onde quer que vocês estejam, nunca construam muros nem fronteiras, mas praças e hospitais de campanha."

"Eu gosto de uma Igreja italiana inquieta, cada vez mais próxima dos abandonados, dos esquecidos, do imperfeito", disse Francisco. "Desejo uma Igreja alegre com o rosto de mãe, que compreende, acompanha, acaricia."

"Sonhem também vocês com essa Igreja, creiam nela, inovem com liberdade", exortou o papa.

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