A reta final do Sínodo sob o sinal do discurso do Papa Francisco sobre sinodalidade e colegialidade: 10 pontos-chave

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20 Outubro 2015

Tem razão Massimo Faggioli, e também outros colegas seus, ao dizer que a terceira e última semana do Sínodo se abriu nessa segunda-feira sob o sinal do discurso do Papa Francisco, no último sábado, por ocasião da comemoração do 50º aniversário da instituição do Sínodo; discurso ao qual, embora com um perfil de autoridade diferente, também deveria ser associado a conferência comemorativa do cardeal Christoph Schönborn.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 19-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por quê? Porque, no fim, se poderia dizer que são dois "momentos" do mesmo espírito e raciocínio, além do mesmo desafio que deve dar uma resposta precisa: como a Igreja deve dialogar com o mundo de hoje e de amanhã, permanecendo fiel ao Evangelho e à "sua via mestra, o homem?";

Estamos certos, depois de ouvir durante o fim de semana diversos Padres sinodais de quatro continentes, de que os trabalhos do Sínodo nessa segunda-feira se abriram com um impulso interior renovado e sólido, sem temores ou armadilhas temidas, sem hesitações e perplexidades. Refiro-me à grande maioria e, portanto, não descarto nenhuma resistência obstinada por parte daqueles que se inscreveram na categoria "não há pior surdo do que quem não quer ouvir".

Eis algumas passagens do discurso do papa que vão animar a alma profunda dos trabalhos sinodais – e das "conclusões" – desta semana tão decisiva.

1 – O Sínodo, herança do Concílio, que sempre pode ser melhorado

"Desde o início do meu ministério como Bispo de Roma, pretendi valorizar o Sínodo, que constitui uma das heranças mais preciosas da última assembleia conciliar [1]. Para o Bem-aventurado Paulo VI, o Sínodo dos Bispos devia repropor a imagem do Concílio Ecumênico e refletir o seu espírito e o seu método [2]. O mesmo pontífice prospectava que o organismo sinodal 'com o passar do tempo poderá ser mais aperfeiçoado' [3]. A ele fazia eco, 20 anos mais tarde, São João Paulo II, quando afirmava que 'talvez esse instrumento poderá ser ainda melhorado. Talvez a responsabilidade colegial pastoral pode se expressar no Sínodo ainda mais plenamente' [4]. Por fim, em 2006, Bento XVI aprovava algumas variações no Ordo Synodi Episcoporum, também à luz das disposições do Código de Direito Canônico e do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, promulgados nesse meio tempo [5]. Devemos continuar nessa estrada. O mundo em que vivemos e que somos chamados a amar e servir também nas suas contradições exige da Igreja a potencialização das sinergias em todos os âmbitos da sua missão. Justamente o caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio."

2 – A nossa resposta ao Senhor

"O que o Senhor nos pede, em certo sentido, já está todo contido na palavra 'sínodo'. Caminhar juntos – Leigos, Pastores, Bispo de Roma – é um conceito fácil de se expressar em palavras, mas não tão fácil de pôr em prática. Depois de reiterar que o Povo de Deus é constituído por todos os batizados chamados a 'formar um lar espiritual e um sacerdócio santo' [6], o Concílio Vaticano II proclama que 'a totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (cfr. Jo. 2, 20.27), não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo, quando este, 'desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis', manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes' [7]. Como o famoso infalível 'in credendo'. Na exortação apostólica Evangelii gaudium, eu sublinhei que 'o povo de Deus é santo em virtude dessa unção que o torna infalível 'in credendo'' [8], acrescentando que 'cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização, e seria inapropriado pensar em um esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do Povo fiel seria apenas receptor das suas ações' [9]. O sensus fidei impede que se separe rigidamente entre Ecclesia docens e Ecclesia discens, já que o Rebanho também possui um 'faro' próprio para discernir as novas estradas que o Senhor descerra à Igreja [10]."

3 – Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta

"(...) na consciência de que escutar 'é mais do que ouvir' [12]. É uma escuta recíproca em que cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio episcopal, Bispo de Roma: um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, o 'Espírito da verdade' (Jo 14, 17), para conhecer o que Ele 'diz às Igrejas' (Ap 2, 7). O Sínodo dos Bispos é o ponto de convergência desse dinamismo de escuta conduzido em todos os níveis da vida da Igreja. O caminho sinodal inicia escutando o Povo, que 'também participa da função profética de Cristo' [13], segundo um princípio caro à Igreja do primeiro milênio: 'Quod omnes tangit ab omnibus tractari debet'. O caminho do Sínodo prossegue escutando os Pastores. Através dos Padres sinodais, os Bispos agem como verdadeiros guardiões, intérpretes e testemunhas da fé de toda a Igreja, que devem saber distinguir atentamente dos fluxos muitas vezes mutáveis da opinião pública. Na véspera do Sínodo do ano passado eu afirmava: 'Do Espírito Santo, para os Padres sinodais, pedimos, acima de tudo, o dom da escuta: escuta de Deus, até sentir com Ele o grito do Povo; escuta do Povo, até respirar nele a vontade a que Deus nos chama' [14]. Por fim, o caminho sinodal culmina na escuta do Bispo de Roma, chamado a se pronunciar como 'Pastor e Doutor de todos os cristãos' [15]: não a partir das suas convicções pessoais, mas como supremo testemunho da fides totius Ecclesiae, 'garantia da obediência e da conformidade da Igreja à vontade de Deus, ao Evangelho de Cristo e à Tradição da Igreja' [16]."

4 – Pedro, garantia de unidade e de liberdade

"O fato de que o Sínodo age sempre cum Petro et sub Petro – portanto, não só cum Petro, mas também sub Petro – não é uma limitação da liberdade, mas uma garantia da unidade. De fato, o papa é, por vontade do Senhor, 'o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade tanto dos Bispos quanto da multidão dos Fiéis' [17]. A isso se liga ao conceito de 'ierarchica communio', adotado pelo Concílio Vaticano II: os Bispos estão unidos com o Bispo de Roma pelo vínculo da comunhão episcopal (cum Petro) e, ao mesmo tempo, estão hierarquicamente submetidos a ele como Chefe do Colégio (sub Petro) [18]."

5 – A missão dos Pastores: servir

"A sinodalidade, como dimensão constitutiva da Igreja, nos oferece o marco interpretativo mais adequado para compreender o próprio ministério hierárquico. Se entendermos que, como diz São João Crisóstomo, 'Igreja e Sínodo são sinônimos' [19] – porque a Igreja nada mais é senão o 'caminhar juntos' do Rebanho de Deus pelos caminhos da história ao encontro com Cristo Senhor –, também entenderemos que, no seu interior, ninguém pode ser 'elevado' acima dos outros. Ao contrário, na Igreja, é necessário que alguns 'se abaixem' para se colocar a serviço dos irmãos ao longo do caminho. Jesus constituiu a Igreja, colocando no seu vértice o Colégio Apostólico, no qual o apóstolo Pedro é a 'rocha' (cf. Mt 16, 18), aquele que deve 'confirma' os irmãos na fé (cf. Lc 22, 32). Mas nessa Igreja, como em uma pirâmide invertida, o vértice se encontra abaixo da base. Por isso, aqueles que exercem a autoridade se chamam 'ministros': porque, segundo o significado original da palavra, são os menores entre todos. É servindo o Povo de Deus que cada Bispo torna-se, para a porção do Rebanho a ele confiada, vicarius Christi [20], vigário daquele Jesus que, na Última Ceia, se inclinou para lavar os pés dos apóstolos (cf. Jo 13,1-15). E, em um horizonte semelhante, o próprio Sucessor de Pedro nada mais é senão o servus servorum Dei [21]. Não nos esqueçamos nunca disso! Para os discípulos de Jesus, ontem, hoje e sempre, a única autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz, segundo as palavras do Mestre: 'Vós sabeis que os governantes das nações dominam sobre elas, e os chefes as oprimem'."

6 – As Igrejas particulares

"O primeiro nível de exercício da sinodalidade se realiza nas Igrejas particulares. Depois de recordar a nobre instituição do Sínodo diocesano, no qual Presbíteros e Leigos são chamados a colaborar com o Bispo pelo bem de toda a comunidade eclesial [22], o Código de Direito Canônico dedica um amplo espaço para aqueles que se costumou chamar de 'organismos de comunhão' da Igreja particular: o Conselho presbiteral, o Colégio dos Consultores, o Capítulo dos Canônicos e o Conselho Pastoral [23]. Só na medida em que esses organismos permaneçam conectados com a 'parte de baixo' e partam das pessoas, dos problemas de cada dia, poderá começar a tomar forma uma Igreja sinodal: tais instrumentos, que às vezes procedem com esforço, deve ser valorizados como ocasião de escuta e de partilha."

7 – Províncias e Regiões Eclesiásticas

"O segundo nível é o das Províncias e das Regiões Eclesiásticas, dos Concílios Particulares e, de modo especial, das Conferências Episcopais [24]. Devemos refletir para realizar ainda mais, através desses organismos, as reivindicações intermediárias da colegialidade, talvez integrando e atualizando alguns aspectos do antigo ordenamento eclesiástico. O desejo do Concílio de que tais organismos pudessem contribuir para aumentar o espírito da colegialidade episcopal ainda não se realizou plenamente. Estamos na metade do caminho, em uma parte do caminho. Em uma Igreja sinodal, como já afirmei, 'não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar 'descentralização'' [25]."

8 – Igreja universal

"O último nível é o da Igreja universal. Aqui, o Sínodo dos Bispos, representando o episcopado católico, torna-se expressão da colegialidade episcopal dentro de uma Igreja totalmente sinodal [26]. Duas palavras diferentes: collegialitas affectiva, que pode se tornar, em algumas circunstâncias, 'efetiva', que reúne os Bispos entre si e com o Papa na solicitude pelo Povo de Deus [27]."

9 – Primado de Pedro e Ecumenismo

"O compromisso para edificar uma Igreja sinodal – missão à qual todos somos chamados, cada um no papel que o Senhor lhe confia – é repleto de implicações ecumênicas. Por essa razão, falando com uma delegação do Patriarcado de Constantinopla, recentemente reiterarei a convicção de que 'o atento exame de como se articulam na vida da Igreja o princípio da sinodalidade e o serviço daquele que preside oferecerá uma contribuição significativa para o progresso das relações entre as nossas Igrejas' [28]. Estou convencido de que, em uma Igreja sinodal, o exercício do primado petrino também poderá receber uma maior luz. O Papa não está, por si só, acima da Igreja; mas dentro dela como Batizado entre os Batizados, e dentro do Colégio episcopal como Bispo entre os Bispos, chamado, ao mesmo tempo – como Sucessor de Pedro – a guiar a Igreja de Roma que preside no amor todas as Igrejas [29]. Enquanto reitero a necessidade e a urgência de pensar em 'uma conversão do papado' [30], de bom grado repito as palavras do meu antecessor, o Papa João Paulo II: 'Como Bispo de Roma, sei bem […] que a comunhão plena e visível de todas as comunidades, nas quais em virtude da fidelidade de Deus habita o seu Espírito, é o desejo ardente de Cristo. Estou convicto de ter a esse propósito uma responsabilidade particular, sobretudo ao constatar a aspiração ecumênica da maior parte das comunidades cristãs e escutando a demanda que me é dirigida de encontrar uma forma de exercício do primado que, embora não renunciando de modo algum ao essencial da sua missão, se abra a uma situação nova' [31]."

10 – Igreja sinodal e família das Nações

"O nosso olhar se alarga também para a humanidade. Uma Igreja sinodal é como um estandarte elevado entre as nações (cf. Is 11, 12) em um mundo que – embora invocando participação, solidariedade e transparência na administração da coisa pública – entrega muitas vezes o destino de populações inteiras nas mãos ávidas de restritos grupos de poder. Como Igreja que 'caminha junto' com os homens, partícipe das dificuldades da história, cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço da autoridade também poderão ajudar a sociedade civil a se edificar na justiça e na fraternidade, gerando um mundo mais belo e mais digno do homem para as gerações que virão depois de nós. [32]"

Notas:

[1] Cfr. FRANCISCO, Carta ao Secretário Geral do Sínodo dos Bispos, Exmo. Card. Lorenzo Baldisseri, por ocasião da elevação à dignidade episcopal do Subsecretário, Rev.mo Mons. Fabio Fabene, 1º de abril de 2014.

[2] Cfr. BEM-AVENTURADO PAULO VI, Discurso para o início dos trabalhos da I Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 30 de setembro de 1967.

[3] BEM-AVENTURADO PAOLO VI, Motu proprio Apostolica sollicitudo,15 de setembro de 1965, Proêmio.

[4] SÃO JOÃO PAULO II, Homilia na conclusão da VI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 29 de outubro 1983.

[5] Cfr. AAS 98 (2006), 755-779.

[6] CONCILIO ECUMENICO VATICANO II, Const. dogm. Lumen gentium (21 de novembro de 1964), 10.

[7] Ibid., 12.

[8] FRANCISCO, Exort. ap. Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 119.

[9] Ibid., 120.

[10] Cfr. FRANCISCO, Discurso por ocasião do Encontro com os Bispos responsáveis pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (C.E.L.A.M) por ocasião da Reunião geral de Coordinação, Rio de Janeiro, 28 de julho de 2013; ID., Discurso por ocasião do Encontro com o Clero, pessoas de vida consagrada e membros de conselhos pastorais, Assis, 4 de outubro de 2013.

[11] Cfr. CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 1.

[12] Ibid., 170.

[13] CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 12.

[14] FRANCISCO, Discurso por ocasião da Vigília de oração em preparação ao Sínodo sobre a família, 4 de outubro de 2014.

[15] CONC. ECUM. VAT. I, const. dogm. Pastor Aeternus, 18 de julho de 1870, cap. IV: Denz. 3074. Cfr. também CODEX IURIS CANONICI, cân. 749, § 1.

[16] FRANCISCO, Discurso para a Conclusão da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, 18 de outubro de 2014.

[17] CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 23. Cfr. também CONC. ECUM. VAT. I, Const. dogm. Pastor Aeternus, Prólogo: Denz. 3051.

[18] Cfr. CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 22; Decr. Christus Dominus, 28 de outubro de 1965, 4.

[19] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, Explicatio in Ps. 149: PG 55, 493.

[20] Cfr. CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 27.

[21] Cfr. FRANCISCO, Discurso para a Conclusão da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, 18 de outubro de 2014.

[22] Cfr. CODEX IURIS CANONICI, cân. 460-468.

[23] Cfr. ibid., cân. 495-514.

[24] Cfr. ibid., cân. 431-459.

[25] FRANCESCO, Exort. ap. Evangelii gaudium, 16. Cfr ibid, 32.

[26] Cfr. CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Christus Dominus, 5; CODEX IURIS CANONICI, cân. 342-348.

[27] Cfr. SÃO JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinod. Pastores gregis, 16 de outubro de 2003, 8.

[28] FRANCISCO, Discurso à Delegação Ecumênica do Patriarcado de Constantinopla, 27 de junho de 2015.

[29] Cfr. SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA, Epistula ad Romanos, Proemio: PG 5, 686.

[30] FRANCISCO, Exort. ap. Evangelii gaudium, 32.

[31] SÃO JOÃO PAULO II, Carta enc. Ut unum sint, 25 de maio de 1995, 95.

[32] Cfr. FRANCISCO, Exort. ap. Evangelii gaudium, 186-192; Carta enc. Laudato si', 24 de maio de 2015, 156-162.

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