"A misericórdia não é uma linha reta". Entrevista com o cardeal Blase Cupich

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Por: André | 19 Outubro 2015

“O Santo Padre pediu para que falássemos abertamente e que escutássemos com humildade, e é o que procuro fazer. O Sínodo está funcionando, caminhamos juntos com o Santo Padre”. O novo arcebispo de Chicago, Blase Cupich, nomeado padre sinodal pelo Papa Francisco, respondeu a algumas perguntas dos jornalistas: a carta ao Papa dos 13 cardeais não afetou o desenvolvimento do Sínodo, que “está funcionando”, porque ao se ouvirem reciprocamente os participantes podem mudar seu ponto de vista; os fiéis devem ser ajudados e acompanhados, sem esquecer que devemos tratá-los como cristãos “adultos”; as Conferências Episcopais devem ter certa autonomia, mas sem cair no risco de criar “Igrejas nacionais”; com respeito à comunhão aos divorciados recasados, devemos encontrar um caminho de misericórdia, que não é “uma linha reta”.

A entrevista é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 16-10-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Um bispo estadunidense, dom Charles Chaput, chamou a atenção para o perigo de que o Sínodo pudesse mudar a doutrina, e mais de um padre sinodal criticou o Instrumentum laboris. Concorda?

É importante destacar que o documento base não caiu do céu; é o resultado do primeiro Sínodo e das consultas aos bispos. É, de certa maneira, um resumo das discussões anteriores. Mas é um documento de trabalho, não um documento final, e, se não há coisas para serem modificadas ou redefinidas, funciona perfeitamente.

Que efeito teve a carta do Papa aos 13 cardeais que pediram explicações sobre o método sinodal em relação aos trabalhos do Sínodo?

Não vi nenhuma carta. Li os artigos sobre a carta. As preocupações que nela foram expostas não são as minhas. O Santo Padre falou sobre estas preocupações, na terça-feira de manhã, e creio que as pessoas ficaram bastante satisfeitas com sua resposta. Creio que não teve nenhum impacto sobre o Sínodo.

Sente uma tensão entre a resposta às expectativas dos fiéis que buscam ensinamentos morais fortes e claros e a resposta aos fiéis que procuram um acompanhamento pastoral maior e mais compreensivo?

Ouço isso há 40 anos... Um arcebispo emérito que conheci disse que queria que escrevessem sobre sua sepultura: “Procurei tratá-los como adultos”. Penso que o que quis dizer é que devemos ter uma resposta católica adulta ao viver a vida cristã. Creio que seja isto que o Santo Padre nos está pedindo. Podemos ajudar as pessoas a tomar decisões importantes sobre a maneira como viver sua vida cristã. Este momento demonstra que há uma necessidade mais forte deste tipo de catequese. Mas uma catequese não pode consistir apenas em repassar doutrinas fixas às pessoas, mas em ajudá-las, acompanhá-las e mostrar-lhes os caminhos que a Igreja identificou na tomada de decisões.

Em que ponto está a discussão sobre os divorciados recasados no Sínodo?

As pessoas explicaram suas posições. Eu insistiria em que a Igreja considera as coisas caso a caso. Quero ler um documento da Comissão de Teologia Internacional de 2009: “Na moral, a pura dedução por silogismo não é adequada. Quanto mais o moralista enfrenta situações concretas, mais deverá recorrer à sabedoria da experiência, uma experiência que integra as contribuições das outras ciências e cresce no contato com as mulheres e os homens empenhados na ação”. Parece-me que não podemos nos referir à doutrina como se fossem silogismos dos quais tiramos conclusões.

Devemos integrar as circunstâncias das pessoas, caso a caso em suas vidas. Creio que a maior contribuição que os bispos podem dar às famílias é falar e agir como as famílias agem e falam. Eu sou filho de uma mãe que gerou nove filhos. Àqueles que perguntavam: “Você tem preferência por algum dos nove filhos?”, ela respondia: “Apenas se tem necessidade”. Esta é a forma como uma mãe fala, como uma família fala; nós devemos falar assim.

A Associação Voice of Family disse que no Sínodo há um enfrentamento entre a Igreja e a anti-Igreja. Qual é a sua opinião?

Não concordo. Ouvir-nos uns aos outros é um grande benefício. Talvez não cheguemos a soluções claras como aquelas que os meios de comunicação gostariam de ver, mas está havendo uma transformação real. As pessoas conversam entre si, se escutam e os pontos de vista mudam. Meu ponto de vista mudou. Um dos participantes disse que se sentia como um dos Reis Magos, porque voltará mudado, e creio que isto vale para todos. Se for assim, o Sínodo será um grande sucesso apenas por este motivo.

Qual é o papel e a contribuição dos bispos africanos neste Sínodo?

Eles vêm com sua experiência, têm o valor das famílias extensas, um sistema que, por exemplo, nos Estados Unidos foi corroído pela mobilidade das pessoas. Eles nos recordam a importância deste tipo de família extensa. Minha proposta é que a Igreja seja substituta das famílias extensas, a família para as famílias.

Você fala do papel da consciência para os casais divorciados recasados. Isto vale também para os homossexuais?

Penso que as pessoas homossexuais são seres humanos e têm seu conhecimento. Meu papel de pastor é ajudá-los a discernir qual é o papel de Deus, tendo em conta o ensinamento moral da Igreja e, ao mesmo tempo, ajudá-los mediante um período de discernimento para compreender o que Deus os chama a cumprir. Creio que isto se aplica a todos. Devemos evitar classificar um grupo como se não fizesse parte da família humana. Seria um grande erro.

O que você pensa do caminho penitencial identificado pelo Cardeal Walter Kasper, como condição para o acesso de alguns casais recasados à comunhão?

Eu dei o livro do cardeal Kasper, O Evangelho da Família, a todos os meus padres. O que ele disse sobre os divorciados recasados, no final dos outros capítulos, o raciocínio deve ser lido como um todo. Acho que devemos encontrar uma maneira em que as pessoas são apenas acompanhadas, integradas e reconciliadas, mas ao mesmo tempo outros bispos sugeriram e ofereceram um outro tipo de caminho penitencial, penso no bispo Gonzalez, de Puerto Rico, nos bispos alemães, e outros.

Consultei as várias propostas, mas acho que não podemos ignorar que existem muitas pessoas que se sentem encurraladas e devemos encontrar uma maneira de ir ao seu encontro. Acho que o Motu proprio do Papa poderia ser, por exemplo, uma excelente contribuição. Cristo recebe as pessoas e é por este motivo que a conversão acontece; o mesmo vale para a economia da salvação, e esta é minha experiência pastoral. Eu conheço um padre, um rapaz de 20 anos havia cometido suicídio, e sua mãe pediu à Igreja uma bênção. Ela estava, obviamente, muito chateada, e o padre disse: não, hoje recebe a comunhão. Ela começou a chorar. Em seguida, começou um processo de reconciliação. Aquele padre tocou seu coração com misericórdia e graça. Acho que é isso que o Santo Padre está dizendo. Não é uma linha reta.

O que acha da hipótese de dar maior liberdade doutrinal às Conferências Episcopais nacionais?

Como bispo, gostaria de estar seguro de que o que faço está em conformidade com a Igreja universal e não apenas está bem para o meu país, embora haja exigências particulares na minha diocese. Não creio que queiramos criar Igrejas nacionais. Mas temos leis particulares para as Igrejas nacionais, como as normas para a proteção dos menores ou para os balanços diocesanos anuais. Mas quando se trata de outras questões, creio que devemos evitar criar políticas com base nacional em temas muito sensíveis, mas em conformidade com a Igreja universal, e com uma respeitosa autonomia dos bispos.

O que mais o surpreendeu no Sínodo?

Diria que o Papa. Ver como escuta muito atentamente, mistura-se conosco durante os intervalos para o café. Parece muito alegre, muito em paz. Se pensarmos em todos os temores ou em todas as tensões de que se fala, podemos pensar que este Papa não tem medo do mundo. O cardeal George dizia àqueles que lhe perguntavam coisas sobre o Papa: “É um homem verdadeiramente livre”. É um homem que ama a Igreja, é livre para deixar que as pessoas digam o que pensam e acredita no poder do Espírito Santo na Igreja.

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