Francisco e os valdenses: um encontro sóbrio e fraterno. Artigo de Fulvio Ferrario

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25 Junho 2015

As palavras papais aos valdenses podem ser entendidas em um sentido simples: ele sabe falar em nome de uma Igreja que vem de uma história contraditória, repleta de frutos da graça de Deus, mas também de pecado; o que, em formas diversas, vale para todos. A comunhão dos santos também é comunhão de pecadores.

A opinião é do teólogo italiano Fulvio Ferrario, professor de teologia sistemática da Faculdade Valdense de Teologia de Roma. O artigo foi publicado no sítio Riforma.it, 23-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não era fácil. Uma realidade absolutamente marginal e largamente desconhecida da opinião pública, como a União das Igrejas Metodistas e Valdenses, posta ao lado, por uma horinha, no palco da informação global, do personagem mais popular do mundo.

Ao contrário, realizou-se o que havia anunciado o moderador da Mesa Valdense, Eugenio Bernardini: um encontro entre cristãos sóbrio e fraterno. Bastou isso (mas, na realidade, de fato, não é pouco) para relativizar a obsessão midiática e as suas consequências, diretas e indiretas, pondo no centro aquilo que importa.

Um encontro entre cristãos: isto é, em um clima de oração, cantada pelos dois coros e por todos os presentes (uma pena apenas o estranho mal-entendido no último hino) e recitada (Pai Nosso). A oração, também e precisamente, pode facilmente se tornar, muitas vezes sob os refletores, formal e coreográfica, mas, neste caso, a simplicidade ajudou. A oração foi o espaço de expressão da assembleia.

Um encontro sóbrio. Sabe-se que Francisco tem um talento para a sobriedade. Paradoxalmente, ou talvez não, a sua naturalidade é muitas vezes saudada com suspiros de emoção e fogos de artifício de superlativos por parte dos seus barulhentos cantores, mas isso não a impede de ser cheia de frescor e cativante.

Quanto aos protestantes, eles gostam de apresentar a sobriedade como uma especialidade da casa e, às vezes, ao menos um pouco, também é verdade.

Eu sugeriria que também se lesse nessa perspectiva da sobriedade o adjetivo "histórico", utilizado repetidamente, antes e durante o encontro, para caracterizá-lo. Certamente, ele é justificado, visto que se trata de um "primeiro" absoluto; se, depois, assistiu-se a uma "reviravolta" ecumênica, ou mesmo só o sinal de uma decidida aceleração, só o futuro poderá dizer.

Um encontro fraterno. O moderador expressou tal fraternidade em três pontos. Acima de tudo, o fato de que a visita papal supera um passado obscuro; portanto, a ênfase daquilo que une, incluindo o desdém e o compromisso com aquilo que acontece "de Lampedusa a Ventimiglia"; e, depois, a menção de dois nós teológicos, mas antes ainda espirituais: a ausência de hospitalidade eucarística e a conhecida distinção romana entre "Igrejas" (as católica e ortodoxa) e "comunidades eclesiais" (as da Reforma).

O papa retomou com extrema prudência o primeiro elemento, mencionando um belo gesto simbólico ocorrido no Pinerolo como ocasião para "antecipar, em certos aspectos" (expressão repetida, para enfatizá-la) a futura comunhão); o segundo não foi tocado no discurso do pontífice, que, no entanto, também evitou a expressão "comunidades eclesiais".

Permanecem também diferenças "antropológicas e éticas": a visão do ser humano, subentendida à ética, parece-me, com efeito, um tema desafiador e urgente, não só no plano teológico em sentido técnico, mas também no plano espiritual. Encontro "fraterno", portanto, não significa "reticente", mas exatamente o contrário.

Os cristãos se chamam tradicionalmente, entre si, "irmãos", e com esse título, altíssimo, mas não habitual em quem se dirige ao papa, dirigiram-se a Francisco o pastor Paolo Ribet, o moderador, a presidente, Alessandra Trotta, e o presidente do Consistório de Turim, Sergio Velluto.

Eu não sei como a opinião pública percebeu o uso desse nome (existem verdadeiras escolas de pensamento sobre o uso dos títulos no âmbito ecumênico), mas, na circunstância, ele ressoou na sua matriz bíblica, o que o tornou também natural e afetuoso.

O clima fraterno e sororal beneficiou-se de uma certa coralidade da parte evangélica: o destaque foi o discurso do moderador, como é óbvio, mas me parece que todos aqueles que tomaram a palavra deram uma contribuição não formal.

Os primeiros comentários se concentram no pedido de perdão formulado pelo pontífice, em nome da sua Igreja, pelos comportamentos "não cristãos, até mesmo não humanos" do passado. Trata-se de um tema complexo, já muito discutido depois das declarações análogas de João Paulo II. É possível pedir perdão "no lugar" dos verdadeiros culpados e perdoar "no lugar" das vítimas?

Mas eu acredito que as palavras papais podem ser entendidas em um sentido mais simples: ele sabe falar em nome de uma Igreja que vem de uma história contraditória, repleta de frutos da graça de Deus, mas também de pecado; o que, em formas diversas, vale para todos. A comunhão dos santos também é comunhão de pecadores.

Alguém, entre os evangélicos, temiam perigosos desvios, homologações ou afins, dos quais (naturalmente, permito-me dizer) eu não acredito que houve rastro. É verdade, ao contrário, que um evento desse tipo foi possível graças ao empenho de gerações de católicos e protestantes que acreditaram no diálogo ecumênico e que, por outro lado, se trata ainda de um passo inicial. Por enquanto, poderia bastar esta constatação, formulada no próprio espírito do encontro: sóbrio e fraterno.

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