Paris, alvo da espionagem dos Estados Unidos e Alemanha

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Por: Jonas | 07 Maio 2015

“Espionagem entre amigos, isso não se faz”. A célebre frase pronunciada por Angela Merkel quando, em outubro de 2013, os documentos vazados pelo ex-analista da CIA e da NSA, Edward Snowden, revelaram que os Estados Unidos espionavam a Alemanha – até o telefone celular da chanceler alemã – agora se volta contra ela. Segundo o jornal alemão Süddeutsche Zeitung e os canais de televisão NDR e WDR, os serviços secretos alemães, BND (Serviço Federal de Inteligência, Bundesnachrichtendienst), colaboraram abundantemente com a Agência de Segurança norte-americana, a NSA. O jornal escreve que, com a cumplicidade implícita do governo alemão, “os serviços secretos alemães espionaram altos funcionários do ministério francês de Relações Exteriores, do palácio presidencial do Eliseu e da Comissão Europeia”.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 03-05-2015. A tradução é do Cepat.

A espionagem por conta da NSA e conduzida pelo BND foi organizada a partir de uma base situada na cidade alemã de Bad Aibling, na Baviera. Uma fonte citada por Süddeutche Zeitung indica que “o centro dessas atividades é a espionagem política dos vizinhos europeus e das instituições da União Europeia”. Paris, que foi o principal alvo da espionagem, reagiu com discrição. A França apontou que estava em “estreito contato” com Berlim para obter “esclarecimentos”. O certo é que este caso mexe com o estatuto da Alemanha. Em outubro de 2013, o jornal britânico The Guardian descobriu que 35 dirigentes políticos do planeta foram espionados pelos serviços secretos norte-americanos. Até agora, e assim como esses dirigentes, Berlim aparecia como uma vítima da espionagem dos Estados Unidos. Por outro lado, o escândalo vem provar que Merkel não é tal vítima, mas, sim, cúmplice do sistema. Além disso, os componentes desta trama de aliados e ao mesmo tempo espiões mostram até que ponto os Estados se encontram sob a permanente lupa da espionagem estadunidense.

As informações fornecidas pelo jornal Süddeutsche Zeitung e os canais NDR e WDR, de fato, constituem o segundo capítulo que envolve a Alemanha em uma ativa estratégia de espionagem, ao mesmo tempo industrial e política, de seus vizinhos da União e em associação com os Estados Unidos. Se, como comprovam os documentos de Süddeutsche Zeitung, o eixo deste capítulo é político, dez dias atrás, o jornal Bild divulgou outra informação do mesmo estilo, mas com outro alvo: segundo o Bild, sempre em colaboração com a NSA, a Alemanha espionou, a partir de 2005, vários grupos industriais europeus, concretamente EADS (hoje Airbus) e Eurocopter (hoje Airbus Helicopters). Os norte-americanos forneceram a Berlim uma ferramenta informática conhecida como “seletores”. O dispositivo continha os dados telefônicos, os endereços IP dos computadores e endereços de correio eletrônico mediante os quais o BND espionou empresas europeias e dirigentes políticos. O grupo aeronáutico Airbus manifestou sua “inquietação” e indicou que iria apresentar uma querela judicial pela espionagem industrial.

Bild responsabiliza diretamente Merkel. A publicação alimenta que, entre 2008 e 2010, no curso de seu primeiro mandato, a chanceler alemã foi informada do que ocorria, mas que, para não incomodar Washington e atrapalhar com isso a colaboração na luta contra o terrorismo deixou que tudo continuasse igual. Mais ainda, a imprensa alemã apontou que os mesmos membros dos serviços secretos alemães se deram conta, em certo momento, de que os “seletores” fornecidos pela NSA não estavam em conformidade com os termos legais dos acordos de cooperação entre Estados Unidos e Alemanha. No entanto, continuaram com o trabalho. Cabe recordar que em 2002, pouco depois dos atentados do 11 de setembro contra as Torres Gêmeas, Berlim decidiu estabelecer uma estreita colaboração entre seus serviços secretos e os norte-americanos. Em nome da luta contra o terrorismo, o BND e a NSA assinaram então um acordo de cooperação. As vítimas escolhidas nesta fase foram empresas estratégicas da Europa. Um total de 40.000 “seletores” estiveram em pleno funcionamento durante aqueles anos.

Em sua edição do dia 2 de maio, o semanário Der Spiegel completa parte da informação que atanhe a espionagem política. O semanário afirma que os serviços secretos alemães “apagaram” 12.000 pedidos que vinham da NSA para interceptar as comunicações de um grupo consistente de dirigentes europeus. Um sólido manto de discrição cobre, no momento, as reações oficiais nas capitais europeias concernentes, principalmente França e Bruxelas, sede da Comissão Europeia, o órgão diretor da União. Apenas a oposição francesa e membros da ala esquerda exigiram que fosse convocado o embaixador alemão na França. Na Bélgica, o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, disse: “Não sei o que aconteceu. Isto teria que ser solucionado pelas autoridades alemães, inclusive as parlamentares, e depois veremos”.

O impacto é diferente na Alemanha, onde o governo de Merkel é acusado pela oposição de ter mentido quando, no passado 14 de abril, afirmou que não estava a par de nenhuma espionagem econômica montada pelo BND e a NSA. Thomas de Maizière, um homem muito próximo a Merkel, atual ministro de Interior e, nos anos mais intensos de espionagem, ministro da Chancelaria, é hoje a cabeça emergente do escândalo. Maizière teve sob sua responsabilidade na Chancelaria a tutela dos serviços secretos e não pode ignorar o que era tramado entre os serviços de um e outro lado do Atlântico.

Interrogado em meados de abril por uma comissão parlamentar que investiga estes deslizes da curiosidade entre aliados, Thomas de Maizière disse que nenhum departamento sob sua autoridade, nem a NSA, realizou espionagem econômica, industrial ou político em outros países. Sua resposta tem toda a cor da mentira. O jornal sensacionalista Bild publicou um retrato do ministro com um nariz igual ao de Pinóquio. A trama se dirige agora para o mais secreto e isso explica em parte as tímidas reações oficiais: as empresas espionadas pressionaram a Alemanha para que fossem informadas sobre quais as informações foram entregues aos Estados Unidos.

O caso alemão deixa também uma enorme interrogação: quantos “seletores” a NSA espalhou pelo mundo? Não se trata de um mero tema de cumplicidade negativa entre amigos europeus. Os outros Estados do mundo, em especial na América Latina, fariam bem em investigar quais aliados duplos instalaram esses “setores” para espionar empresas, bancos e dirigentes políticos de toda América Latina. Resulta muito cínico corroborar que o Conselho da Europa promoveu a primeira convenção internacional sobre a segurança informática e que é no seio da mesma Europa onde ocorrem as tramas mais desleais.

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