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Por: André | 25 Março 2015

As pesquisas de opinião já haviam dado o roteiro. Faltava apenas que os atores, isto é, os eleitores, confirmassem a trama anunciada no primeiro turno das eleições departamentais na França. O resultado não é tão parecido ao esperado: a ultradireita da Frente Nacional, situada entre 23% e 23,5% dos votos, obteve, no último domingo, o resultado mais importante da sua história nas eleições locais, sem alcançar com isso um sonho de converter-se no maior partido da França. A direita da UMP, por sua vez, liderada pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy, alcançou 30% dos votos, ao passo que o PS, no Governo, com 21%, situou-se bastante acima das previsões eleitorais.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicado no jornal Página/12, 23-03-2015. A tradução é de André Langer.

Incontestavelmente, as três principais forças políticas marcaram pontos. Os dois vencedores mais claros são Sarkozy e a Frente Nacional. A Frente Nacional marcou uma etapa a mais em sua progressão, ao mesmo tempo que o partido do ex-presidente arrebatou dos socialistas vários departamentos e, com isso, iluminou as ambições de Sarkozy para as eleições presidenciais de 2017. Esta foi a primeira prova de fogo eleitoral desde que, no ano passado, Sarkozy retornou à política depois da sua derrota nas eleições presidenciais de 2012. Apesar dos esperados resultados adversos, o socialismo francês não protagonizou um domingo catastrófico. Com estes resultados, o PS parece ter posto um limite ao seu constante ocaso nas urnas. Já não aparece como um partido que vai de derrota em derrota, mas que seus eleitores lhe deram agora um perfil de partido que resiste.

A esquerda radial, aliada com os ecologistas, também levantou voo com porcentagens que a aproximam dos 10%. Se houve uma surpresa foram precisamente os resultados do PS. Analistas e pesquisas auguravam uma surra memorável, como ocorreu nas eleições europeias e municipais. Isso não se confirmou nos resultados com a dimensão esperada. O partido do presidente francês, François Hollande, não pagou nas urnas a impopularidade do mandatário. Mais ainda, caso somarmos as porcentagens de toda a esquerda francesa, esta chega a quase 38% dos votos, um resultado mais que honroso para um arco de partidos no poder, para uma eleição intermediária e em um contexto de crise e desemprego como este que a França está atravessando. Comparados um com o outro, as porcentagens da esquerda e da direita são bastante parecidos. Ambos acertaram em sua dinâmica: a direita, em colocar em marcha um movimento de relegitimidade; os socialistas, em romper a dinâmica da derrota constante.

Ao final da eleição, o primeiro ministro francês, Manuel Valls, fez uma síntese pertinente dos resultados: “Os partidos republicanos mantiveram suas posições. A extrema direita, inclusive se está muito alta, não é o maior partido político da França”, disse Valls. Aí está precisamente a fronteira com a qual se chocou a extrema direita. Seu líder, Marine Le Pen, queria que a Frente Nacional fosse esse “maior partido”. As pesquisas de opinião haviam prognosticado 30% ao movimento de Marine Le Pen. Mesmo que as projeções não tenham se efetivado, isso não tira nenhuma validade a esta consulta na qual a ultradireita francesa não faz senão confirmar seu estatuto de partido arraigado e normalizado em escala nacional. A Frente Nacional é hoje a terceira maior força política do país. Sua visão xenófoba e anti-europeia a levou a jogar nas grandes ligas. A forte implantação da ultradireita tem, além disso, outra consequência: o fim do bipartidarismo esquerda-direita ficou consumado com a instalação da Frente Nacional como terceiro eixo político do país.

A eleição do domingo devia eleger 4.108 conselheiros, que serão decisivos para designar os poderes dos 99 departamentos, uma vez que se realize o segundo turno, no próximo domingo, 29 de março. Estas eleições departamentais também selaram um desafio na história do país. Pela primeira vez, todas as chapas foram mistas, ou seja, formadas por um homem e uma mulher. Apenas dentro de uma semana será possível fazer as contas finais.

O bom resultado do PS e de seus satélites aliados não permite enterrar a esquerda por antecipação. A eleição do próximo domingo traz consigo a eterna briga dos duelos duplos entre a esquerda e a extrema direita e sua consequente consigna de voto. A este respeito, Sarkozy permaneceu fiel à sua linha, a chamada “nem nem”, ou seja, nem “acordo local ou nacional com a extrema-direita”, nem consigna de voto a favor da esquerda. Os eleitores têm condutas curiosas. Depositam sua confiança em um movimento de ultradireita cujo discurso consiste em denunciar a semelhança entre a socialdemocracia e a direita, impugnar a Europa, desprezar os estrangeiros e demonizar o Islã. Ao mesmo tempo, restauram a legitimidade de uma oposição conservadora minada pelas brigas intestinas, os escândalos por corrupção e cujo chefe, Sarkozy, tem meia dúzia de pesadas investigações judiciais que o atormentam há vários anos. A impunidade é, certamente, o valor mais corrente compartilhado pela classe política mundial.

A vitória da direita clássica é ampla. Seus líderes descem de um passado turvo de desavenças e opróbrio popular. Para Sarkozy, as lições foram um presente. Os resultados permitem-lhe aparecer claramente como o chefe de um partido unido, que soube agrupar-se acima das divisões para ganhar uma eleição. O roteiro escrito pelas pesquisas de opinião está ainda cheio de páginas incertas. No dia 29 de março, o filme político estará terminado, mas as tendências deste primeiro turno são claras: uma direita forte, uma ultradireita sólida, mas privada de uma vitória histórica, e uma esquerda que saiu da agonia para entrar na resistência.

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