Pode a Igreja acolher a comunidade de transgêneros?

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24 Fevereiro 2015

“A única maneira de eu um dia descansar em paz é quando as pessoas transgêneras não forem mais tratadas da maneira como eu fui, quando elas forem tratas como humanos, com sentimentos válidos e com seus direitos respeitados. É preciso ensinar sobre gênero nas escolas, quanto mais cedo melhor. A minha morte tem que significar alguma coisa. A minha morte tem de ser acrescentada ao número de pessoas transgêneras que cometeram suicídio este ano. (...) Consertem a sociedade. Por favor.”

A reportagem é de Jennifer Mertens, mestranda em Teologia na Catholic Theological Union, publicada pelo National Catholic Reporter, 19-02-2015. A tradução de Isaque Gomes Correa.

Esta nota de suicídio apareceu na mídia social Tumblr; fora programada para ser publicada pouco depois que uma adolescente transgênera andaria por uma rodovia interestadual em que seria fatalmente atingida por um caminhão. A adolescente de Cincinnati, cidade do estado de Ohio, cujo nome de nascimento era Joshua Ryan Alcorn, subescreveu a mensagem: “Leelah Alcorn”.

A tragédia ocorreu em minha cidade, uma comunidade cuja dor neste momento reverbera internacionalmente. Desde o dia 28 de dezembro, a hashtag #LeelahAlcorn apareceu nos “trending topics” do Twitter; os resultados do mecanismo de busca do Google incluem uma página no Wikipedia, e o adolescente foi lembrado por Jill Soloway, criador da série televisiva “Transparent”, na noite de premiação do Globo de Ouro de 2015.

Esta resposta pública sublinha uma crescente consciência sobre a comunidade transgênera, em que mais da metade de seus jovens tentou suicídio pelo menos uma vez antes dos 20 anos. Um apoio médico e psicossocial a indivíduos transgêneros vem, lentamente, ganhando força; o Centro Médico Hospitalar Infantil de Cincinnati, em Ohio, por exemplo, surgiu como pioneiro ao estabelecer uma Clínica Transgênera. Em janeiro, o presidente Barack Obama fez história como o primeiro presidente americano a nomear pessoas transgêneras em seu discurso Sobre o Estado da União. Na imprensa, informou-se que o Papa Francisco teria se encontrado pastoralmente com um transgênero espanhol.

Além da identidade de gênero, a morte de Leelah intensificou o debate sobre uma série de outros assuntos relacionados. Tabus atuais em torno do suicídio e saúde mental estão sendo mais estudados. O dolorido suicídio público também alimentou o diálogo sobre como as plataformas de mídias sociais modelam e podem, até mesmo, dissolver fronteiras aparentes entre a vida pública e privada.

Em particular, a história de Leelah coloca alguns desafios pastorais, teológicos e morais significativos à comunidade cristã. A nota de suicídio da adolescente, criada num ambiente fundamentalista cristão, relata uma experiência do cristianismo em que a variação de gênero era comunicada como sendo “egoísta e errada”. Este exemplo exacerbou um isolamento social e um desespero do qual Leelah concluiu: “A vida que eu teria vivido não vale a pena ser vivida”.

Em entrevista ao canal CNN, a mãe de Leelah, Carla, disse: “Religiosamente, nós não apoiamos isto. Mas dissemos a ele que o amávamos incondicionalmente. Nós o amávamos de qualquer jeito. Eu amava o meu filho”. O uso de pronomes masculinos aqui fez surgir respostas intensas e, até mesmo, vitriólicas. A declaração também sublinhou uma tensão familiar entre “amor”, “apoio” e “fé”. Como o amor por uma pessoa transgênera se relaciona com o apoio a um processo de transição de gênero? De que forma uma profissão de fé cristã deve participar nesta relação?

Ainda que algumas comunidades lutem para integrar uma compreensão mais completa da identidade de gênero, elas revelam-se, muitas vezes, agindo dentro de um quadro linguístico vivenciado repentinamente como inadequado. Leelah (Josh) deixou as pessoas tropeçando em nomes e pronomes, fragmentos que, de repente, caíram num mar de mistério. O que significa vivenciar-se como homem ou mulher? Como expressamos – ou deveríamos expressar – uma identidade de gênero? Como podemos nos definir, até mesmo dar nomes a nós mesmos? Pronomes minúsculos porém gritantes sobressaem-se em nossos discursos, expondo grandes verdades de nossos corações, comunidades e religião.

Os católicos devem se envolver em questões como estas com um coração corajoso e receptivo. Tal envolvimento exige um compromisso com o diálogo, um compromisso que vem do diálogo do próprio Deus com a humanidade, como exemplificado na Encarnação.

Este diálogo se manifesta de várias maneiras. Certamente, ele envolve lançar a mão às pessoas transgêneras, escutá-las, compreendê-las. A dignidade de se nomear como um companheiro no diálogo deve também ser respeitada, e espero ter feito isto nesta coluna ao respeitar a autoidentificação do adolescente como Leelah.

O diálogo com a comunidade médica é igualmente fundamental. Com provas científicas apontando para uma variação de gênero como sendo um fenômeno biológico, questões teológicas complexas inevitavelmente vêm à tona. De que forma estas perspectivas médicas emergentes estão participando da moralidade católica? Como uma visão científica sobre a variação de gênero deveria influenciar a compreensão contemporânea da tradição católica de direito natural?

A Igreja deve também dialogar com as famílias, paróquias e escolas católicas buscando saber como amar e acompanhar os jovens transgênicos. Na medida em que os indivíduos transgêneros continuam sem ter um trabalho específico em nossas comunidades católicas, um compromisso crescente em desenvolvermos recursos pastorais adequados torna-se desesperadamente necessário.

Um primeiro passo construtivo pode ser dado com a Igreja se colocando solidária, publicamente, com o sofrimento das pessoas transgêneras. Esta solidariedade incorpora o autêntico testemunho evangélico que vai ao alcance dos membros marginalizados de nossa comunidade humana. Uma abertura inicial para a afirmação desta solidariedade foi sinalizada pela arquidiocese local da cidade em que morava Leelah. Ao responder a um pedido de comentário para esta coluna, a arquidiocese afirmou:

“A Arquidiocese de Cincinnati une-se à dor da família Alcorn na perda de seu ente querido. Como católicos, reconhecemos que todas as pessoas – especialmente os mais vulneráveis em nossa sociedade – devem ser tratadas com respeito, compaixão e sensibilidade. É trágico que não seja assim. Oramos ente falecido, pela família Alcorn e pela comunidade inteira que ficou ferida por esta tragédia. Que o Senhor Jesus Cristo, a suprema fonte de paz, alegria e plenitude da vida, acolha esta pessoa que partiu no reino celestial e conforte aqueles que pranteiam.”

Além disso, Dan Andriacco, porta-voz arquidiocesano e diretor de comunicação, disse que, durante a revisão anual das políticas sobre discriminação e bullying das escolas católicas, o “transgênero” será considerado como um acréscimo.

No momento em que a Igreja Católica constrói uma relação de diálogo com as pessoas transgêneras, faz-se importante lembrar que o amor perfeito encontra-se somente em Deus. À medida que buscamos imitar este amor em nossos diálogos uns com os outros, que possamos humildemente começar pedindo: “Ensina-me, amigo, como amá-lo”.

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