Situação econômica e combate à pedofilia no Vaticano: ''Estou empolgado''. Entrevista com Sean O'Malley

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18 Fevereiro 2015

O cardeal de Boston, Sean P. O'Malley, disse nessa segunda-feira que a negação entre alguns de seus colegas cardeais de todo o mundo sobre a gravidade dos escândalos de abuso sexual de crianças da Igreja, se não está completamente morta, ao menos foi levada para um submundo – em parte por causa do forte exemplo do Papa Francisco.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 16-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O fato de o Santo Padre ter se disposto a escrever uma carta a todas as Conferências Episcopais exortando-as a se encontrarem com as vítimas é extremamente importante", disse O'Malley em uma entrevista exclusiva com o Crux.

"Há uma grande preocupação (entre os cardeais) e uma conscientização de que a Igreja deve fazer alguma coisa, mas muitas pessoas não sabem o que fazer", disse. "Elas estão abertas para ouvir."

Ao mesmo tempo, ele reconheceu que permanece uma enorme lacuna na resposta da Igreja, especialmente na responsabilização dos bispos que deixaram a bola cair ao implementarem as políticas de "tolerância zero", e que a inércia da Igreja até hoje feriu a sua credibilidade.

Nessa frente, O'Malley disse que espera ter um "produto bastante finalizado" em termos de um novo sistema de responsabilização, incluindo um tribunal localizado dentro da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, para apresentar ao papa em dois meses.

Sobre outros assuntos, O'Malley disse ao Crux:

- Uma proposta do conselho do papa dos nove cardeais-assessores, um órgão do qual O'Malley faz parte, de criar dois superdepartamentos no Vaticano, um para a justiça e a paz e outro para a família e os leigos, não é apenas uma hipótese, mas "a forma como as coisas estão andando".

- Um leigo pode não ser capaz de atuar como alta autoridade dos novos escritórios, mas os cardeais pediram esclarecimentos sobre como os leigos, e especialmente as mulheres, podem deter outras posições de liderança na Cúria, a principal burocracia administrativa do Vaticano.

- O'Malley não se surpreendeu com um recente relatório aos cardeais de que o Vaticano tem 1,5 bilhão de dólares em bens anteriormente não declarados, porque os sistemas de contabilidade do Vaticano até recentemente "deixavam espaço para muita corrupção".

- Ele disse que a elevação, por parte do papa, no sábado, de cardeais de uma variedade incrivelmente global de lugares, incluindo os primeiros cardeais de Mianmar, Cabo Verde e Tonga, foi "realmente encorajadora".

O'Malley falou com o Crux em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, dirigida pelos jesuítas, durante uma apresentação sobre o Centro para a Proteção da Criança da universidade, resultado de uma cúpula vaticana de 2012 sobre o esforço para combater o abuso sexual infantil.

Eis a entrevista.

A comissão de cardeais G9, da qual o senhor é membro, fez uma apresentação na quinta-feira para todos os cardeais sobre onde está a reforma da Cúria Romana. Qual é o seu sentimento sobre a forma como os cardeais responderam a isso?

Eu acho que um muitos deles ficaram surpresos, porque eu acho que muitos deles não sabiam o quanto tinha acontecido, nem mesmo quantas peças móveis existem. No geral, eu acho que houve uma reação muito positiva.

Do lado de fora, a manchete era a ideia de criar dois novos superdepartamentos, um para a justiça e a paz e outro para a família e leigos. Do lado de dentro, são esses também os pilares?

Não. Os cardeais tinham muito a dizer sobre essas coisas, mas eu acho que os cardeais também ficaram felizes com o que tem sido feito na área das finanças e da transparência e a tentativa de unir as coisas... Também precisamos tomar decisões muito importantes sobre o que foi dito sobre o estudo das comunicações, que é, obviamente, uma área importante na vida da Igreja.

Sobre os superdepartamentos, já há agora uma conclusão estabelecida do G9 ou apenas uma hipótese dentre outras?

Eles já fizeram uma apresentação para os chefes de dicastérios e receberam a sua repercussão. Parece-me que esse é o caminho pelo qual vamos ir. Depois de ter apresentado isso a todos os cardeais, as pessoas têm uma chance, mesmo após o consistório, de dar a conhecer as suas ideias. Em geral, no entanto, eu interpretei isso como a forma como as coisas estão indo. Há muitas questões sobre as diferenças entre ser uma Congregação ou um Pontifício Conselho, por exemplo, e que precisam ser resolvidas. Há pessoas em ambos os lados dessa questão.

Durante uma entrevista coletiva, o porta-voz do Vaticano disse que, na sua opinião, os chefes desses dois novos superdepartamentos não poderiam ser leigos, mas teriam que ser cardeais. Essa também é a sua visão?

Acho que sim. A questão é se a segunda pessoa [no departamento] seria capaz de ser uma pessoa leiga, incluindo uma mulher.

A posição tradicional tem sido a de que as autoridades que tomam as decisão nesses departamentos devem ser clérigos, porque eles exercem uma autoridade delegada em nome do papa. O senhor está dizendo que isso está sob avaliação?

É algo para o qual os cardeais pediram mais estudo e esclarecimento. Estamos ansiosos para que os leigos tenham posições de liderança na Cúria. Eu não diria que é uma questão estabelecida, é uma questão em aberto. Estamos ansiosos para que mulheres e leigos assumam essas posições. Seria muito útil. Essa é uma razão pela qual eu sou a favor de manter os Pontifícios Conselhos, porque eu penso que haveria mais chances de colocar pessoas leigas e mulheres nesses papéis. Você sabe, historicamente, tivemos situações em que abadessas praticamente lideravam dioceses! Isso precisa ser estudado.

Dentro dos limites impostos pela teologia e pelo direito católicos, o senhor quer ver o laicato detendo tantas posições de liderança quanto possível?

Exatamente.

Quando o senhor ouviu o relatório do cardeal George Pell de que a sua Secretaria para a Economia descobriu 1,5 bilhão de dólares em bens que o Vaticano não sabia que tinha, qual foi sua reação?

Eu não fiquei surpreso. Alguém se referiu à forma como as finanças eram feitas antes chamando-a de artigianale [artesanal]. Lembro-me de ir a uma reunião, uma vez, em Buenos Aires para um encontro de um dos Pontifícios Conselhos, e, no fim, fomos para uma sala, e havia uma jovem senhora lá com uma caixa de charutos cheia de dinheiro, perguntando: "Quanto você gastou?". Eu disse: "Eu vou lá pegar os recibos". E ela disse: "Não, diga apenas mais ou menos". Quer dizer, essa é a forma como as coisas eram feitas. Obviamente, isso deixou espaço para muita corrupção, se as pessoas não eram honestas.

Quando o senhor ouviu os relatórios financeiros na semana passada, sentiu-se como se estivesse ouvindo a verdade sobre qual é realmente a situação?

Sim. Tive reuniões com [Joseph F. X.] Zahra [o principal membro leigo do novo conselho das finanças do Vaticano] e outros, e tenho grande confiança neles. Acho que essas são as pessoas que realmente querem ajudar a Igreja. Eles são voluntários e não têm um interesse pessoal nessa questão. Estão fazendo isso por amor a Deus e por amor à Igreja. O fato de que todo esse dinheiro existe, deve ser comparado com o déficit no fundo de pensão, de modo que isso é realmente uma espécie de lavagem.

A outra questão é que o Santo Padre realmente está cansado com o desperdício, de modo que devemos ter a certeza de que os nossos recursos estão sendo usados para a missão da Igreja e para os pobres. Como eu disse, quando eu era um bispo missionário [nas Ilhas Virgens], eu tinha um orçamento anual de 30 mil dólares, e tenho certeza de que existem bispos em outras partes da Igreja que têm ainda menos. Ao mesmo tempo, em outros lugares, estamos desperdiçando uma incrível quantidade de dinheiro. A primeira tarefa de Pell e da sua equipe é descobrir quais são realmente os recursos e, depois, certificar-se de que não os estamos desperdiçando.

O senhor se acha que Pell e essa equipa alcançaram um grande avanço nesse primeiro sentido, ao menos entregando um relatório credível sobre como estão as coisas?

Estou empolgado. Qualquer pessoa que costumava estar no antigo Conselho de 15 cardeais para os assuntos econômicos sabe o nível de frustração que costumávamos sentir, especialmente os norte-americanos, embora não apenas eles, devo dizer. Nessas comissões, agora, eles colocaram especialistas leigos, pessoas de extraordinária capacidade e muito credenciadas, e pessoas de prestígio que não vão assinar relatórios desonestos. Há muita coisa em jogo para elas.

Um elemento nesse relatório é a potencial subvalorização do patrimônio imobiliário do Vaticano. O senhor concorda que obter uma honesta avaliação de mercado é importante?

É claro, sim, isso é fundamental. Mais uma vez, estamos na cultura deste país [a Itália], e as formas como as coisas são feitas aqui é a forma como as coisas são feitas no Vaticano. A verdade é que o sistema de tributação aqui às vezes encoraja as pessoas a subestimar os seus bens, e assim por diante. Pell nos disse que, quando ele pediu que as pessoas no Vaticano pedissem recibos para as despesas, a resposta foi: "Claro, podemos pedir recibos, mas tudo vai custar mais caro!".

É justo dizer que se o Vaticano produzisse uma ata financeira conjunta, isso seria útil para a Igreja em todos os níveis?

Definitivamente, e também para a sociedade, particularmente para a sociedade italiana. Isso teria um impacto real aqui.

Como os cardeais reagiram à apresentação que o senhor fez sobre os esforços para combater o abuso sexual clerical?

Foi muito interessante. Eram as 17h, então eu deliberadamente fiz uma apresentação muito bem-humorada para manter as pessoas acordadas, e isso funcionou. Um cardeal francês, no dia seguinte, no café da manhã, me disse: "Eu tive uma conversão durante a sua fala". Eu perguntei o que ele queria dizer, e ele disse que passou a entender como isso é importante e quanto dano foi feito para as vítimas. Eu fiquei muito comovido com isso. Um cardeal da Nicarágua veio e disse: "Eu quero que o senhor fale para as Conferências Episcopais da América Central". Acho que houve muita boa vontade.

Houve alguma discussão entre os cardeais depois da sua apresentação?

Houve, mas eles não entraram em detalhes sobre questões como a responsabilização [dos bispos], mesmo que eu tenha martelado sobre essas coisas. Acho que eles tomaram a apresentação como um conjunto.

Se o senhor tivesse feito essa apresentação ao Colégio dos Cardeais há uma década, provavelmente teria havido um debate sobre se as reformas que o senhor está propondo são mesmo uma boa ideia. Essa negação foi embora?

Eu diria que há uma grande preocupação e a conscientização de que a Igreja tem que fazer algo, mas muitas pessoas não sabem o que fazer. Elas estão abertas para ouvir.

Isso é qualitativamente diferente da reação que o senhor receberia há não muito tempo, não? Em outras palavras, a negação foi levada para o submundo?

Sim, certamente. O fato de o Santo Padre ter se disposto a escrever uma carta para todas as Conferências Episcopais exortando-as a se encontrarem com as vítimas é extremamente importante.

Qual é o desafio fundamental agora?

Acima de tudo, é ir ao encontro de bons procedimentos com os quais as pessoas se comprometam. Muitas coisas que foram enviadas, eu entendo, são muito fracas.

O senhor se refere às diretrizes das Conferências Episcopais de todo o mundo?

Sim, exatamente. Essa é uma parte do problema. Precisamos trabalhar sobre essas diretrizes e fazem com que as pessoas se comprometam com elas. A nossa comissão vai fazer algo disso, particularmente com alguns dos países em desenvolvimento que realmente não fizeram nada, porque têm muito poucos recursos. Vamos nos oferecer para ajudá-los. Depois que colocarmos as políticas no seu devido lugar, precisamos de um programa de educação e treinamento massivo. Também precisaremos de algum tipo de mecanismo para avaliar a conformidade. Precisamos que isso seja instalado centralmente na Igreja e também precisamos de um procedimento de responsabilização, sobre o que fazer quando um superior ou um bispo deixa a bola cair ou negligencia a implementação dessas coisas.

Quando terão um sistema de responsabilização?

Estamos trabalhando nisso. Exatamente agora, os bispos devem responder perante o papa, o que significa, na prática, que a Congregação para os Bispos deve lidar com isso, mas eles não têm nenhum mecanismo para isso. As coisas ficam se arrastando. Se houvesse procedimentos e tribunais definidos que lidassem com esses problemas, seria diferente. Acima de tudo, o bispo poderia defender a si mesmo. Então, se teria uma decisão, e todo mundo poderia não concordar com ela, mas ficaria claro que a Igreja lidou com isso, olhou a situação e tomou uma decisão. É nisso que estamos trabalhando. O nosso próximo encontro com o Santo Padre será em dois meses, e eu espero ter um produto bastante finalizado para mostrar para ele naquele momento. O trabalho da comissão é fazer recomendações de melhores práticas, procedimentos e políticas para enfrentar esses vários problemas. Um dos problemas com o qual estamos mais preocupados é a responsabilização, porque, exatamente agora, realmente não existe nada.

Quem vai implementar essas recomendações?

Deveria ser um tribunal que faz isso, provavelmente a Congregação para a Doutrina da Fé.

No que diz respeito ao consistório da semana passada, o senhor é alguém que há muito tempo chama a Igreja a ser mais sensível às experiências dos católicos fora da Europa e dos Estados Unidos. O senhor se sentiu feliz ao ver o Papa Francisco levantando uma safra tão global de novos cardeais?

Foi maravilhoso. Por exemplo, tivemos muitos cabo-verdianos que vieram de Boston, e eu estive com eles ontem. As pessoas de Tonga estavam tão felizes, foi realmente encorajador. Tentei visitar esses cardeais, em particular aqueles que têm grandes comunidades em Boston, como os vietnamitas, os portugueses, os mexicanos, os cabo-verdianos e outros. Quando você vê o impacto que a presença de um cardeal faz nessas partes do mundo, é realmente impressionante.

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