Beguinas, mulheres que conduziam o ministério feminino

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30 Janeiro 2015

"Estas mulheres não faziam votos, ainda que, em muitos aspectos, suas vidas ecoavaram o diaconato feminino que diminuiu durante a Idade Média e pressagiaram a vida religiosa apostólica ativa, como ela se desenvolveu no século XVII", escreve Phyllis Zagano, pesquisador na Hofstra University, em Hempstead, Nova York, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 28-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo o pesquisador, "o ímpeto para realizar os trabalhos diaconais então abandonados da Igreja sobreviveu nos ministérios destas mulheres contemplativas ativas, que frequentemente provocaram a ira dos bispos. A representação do ministério apostólico feminino feita pela autora ao longo dos séculos e países demonstra as formas como as mulheres encontraram para servir".

Eis o artigo.

The Wisdom of the Beguines: The forgotten story of a medieval women’s movement [A Sabedoria das Beguinas: a história esquecida de um movimento feminino medieval]
Laura Swan
Editora BlueBridge

As vocações ministeriais femininas diferiram ao longo dos séculos, mas existiram em todos os tempos e em todo as localidades. A irmã beneditina Laura Swan, ex-superiora do mosteiro de St. Placid Priory, no estado de Washington, acrescenta ao seu prodigioso conjunto de obras esta abrangente investigação sobre a vida de milhares de celibatárias que viveram do lado de fora da clausura como beguinas.

A lista de beguinas famosas é longa. Matilde de Magdeburg, Beatriz de Nazaré, Hadewijch, Marguerite Porete e muitas outras escritoras espirituais e místicas bem-conhecidas preenchem as páginas da obra em questão. A autora vai dos beguinários destas mulheres (em geral, casas com paredes geminadas ou casinhas individuais) aos seus ministérios (incluindo a pregação e orientação espiritual), suas espiritualidades singulares (frequentemente envolvendo eventos místicos) e seus escritos, que deram provas da compaixão destas mulheres para com o sofrimento de Cristo no mundo.

As beguinas viveram vidas de oração e serviço, e onde, quando e como elas viveram estas vidas dependiam, em grande parte, das circunstâncias pessoais e do contexto de cada uma.

Não havia vergonha se uma escolhesse deixar o beguinário para se casar, mas, de modo inverso, o beguinário servia como refúgio para aquelas que, de uma forma ou de outra, poderiam ser forçadas a se casarem. Quando ocorria uma gravidez inesperada, a beguina ia embora para ter a criança, então muitas vezes retornava ao beguinário para criar o filho junto com outras crianças, evitando, assim, as perspectivas de casamento forçado ou uma vida de miséria.

Swan conduz o leitor desde os Países Baixos (Bélgica e Holanda), mais estreitamente associados com as beguinas, até a França (Colette de Corbie), Itália (Frances de Roma), a Espanha (María García) e ao longo da Europa onde mulheres, particularmente entre os séculos XIII e XVI, procuraram uma forma de viver vidas consagradas fora do claustro. Estas mulheres não faziam votos, ainda que, em muitos aspectos, suas vidas ecoavaram o diaconato feminino que diminuiu durante a Idade Média e pressagiaram a vida religiosa apostólica ativa, como ela se desenvolveu no século XVII.

O ímpeto para realizar os trabalhos diaconais então abandonados da Igreja sobreviveu nos ministérios destas mulheres contemplativas ativas, que frequentemente provocaram a ira dos bispos. A representação do ministério apostólico feminino feita pela autora ao longo dos séculos e países demonstra as formas como as mulheres encontraram para servir.

Por exemplo, Marie d’Oignies reuniu uma comunidade para atender os leprosos na Bélgica do século XII. As irmãs alemãs Elizabeth e Sofie seguiram na vita apostolica no século XIII, assim como Ida de Nivelles, até se juntar ao mosteiro cisterciense. Marguerite Porete, queimada na fogueira em Paris no começo do século XIV, sofreu por sua pregação sem permissão da Igreja. María de Toledo, viúva de origem nobre de século XV, visitava os enfermos, providenciava dotes para órfãos, alimentava e abrigava os pobres e pagava as dívidas de prisioneiros.

Embora as evidências que Swan apresenta apontem para beguinas como, em sua maioria, sendo místicas, algumas sendo estigmatizadas, algumas outras sendo escritoras engajadas, há poucas informações preciosas sobre a maior parte destas santas mulheres, as quais, em geral, ganhavam o seu sustento fazendo bordados e que vestiam uma capa distintiva cor castanho-acinzentado, capa feita de tecido que elas mesmas faziam. Em todo caso, os beguinários delas não vingaram.

Devido, em grande parte, à pressão das autoridades eclesiásticas, as beguinas gradualmente viram o seu trabalho de oração e atenção aos necessitados sendo absorvido em conventos e mosteiros, ou, pelo menos, em expressões maiores da vida apostólica. Há evidências de algumas mudando-se para mosteiros cistercienses ou cartusianos, e de outras tornando-se terciárias franciscanas ou dominicanas. Na medida em que a Reforma e a Contrarreforma juntaram forças seculares para erradicar as obras destas mulheres, uma nova e diferente forma de vita apostolica se desenvolveu naquilo que hoje conhecemos como vida religiosa apostólica ativa.

Uma ressalva sobre este livro, resultado de pesquisa intensa, é que ele não está organizado nem cronológica nem territorialmente e, assim, às vezes deixa o leitor à deriva em meio a séculos e nomes de lugares. Mas há tanto a se aprender sobre as beguinas, e tantas coisas que se assemelham com as vidas das mulheres que ministram hoje, que vale o esforço em andar nos caminhos estreitos dos beguinários, em solidariedade a estas mulheres valentes e em gratidão por suas vidas.

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