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20 Agosto 2014

A estratégia tradicional do Vaticano, baseada nos apelos à negociação e ao diálogo, parece superada.

A reportagem é de Stéphanie Le Bars, publicada no jornal Le Monde, 16-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Período difícil para a diplomacia vaticana. Mísseis norte-coreanos saudaram, na quinta-feira, 14 de agosto, a chegada do Papa Francisco na Coreia do Sul, que, nas primeiras horas de uma histórica visita de cinco dias, falou em favor da reconciliação entre os dois lados da península.

Uma decepção que se soma ao balanço muito negativo dos múltiplos apelos à paz no Oriente Médio lançados pelo Vaticano nos últimos meses.

Foi o observador da Santa Sé junto às Nações Unidas, Dom Silvano Tomasi, que reconheceu por primeiro o fracasso da tradicional estratégia vaticana, baseada nos apelos à negociação e ao diálogo para resolver os conflitos nas várias partes do mundo.

No dia 9 de agosto, em uma declaração de tom nada habitual, o diplomata admitiu que a ação militar no Iraque era "provavelmente necessária" para conter o avanço das tropas do Estado Islâmico (IS) e pôr fim ao êxodo de uma amplitude inédita a que os jihadistas têm forçado os cristãos da região.

Na quarta-feira, em uma carta ao secretário-geral da ONU, o próprio Papa Francisco pediu que a comunidade internacional "fizesse de tudo" para cessar tais violências que são, a seu ver, "uma ofensa contra Deus e contra a humanidade".

Provavelmente, não querendo aparecer como o promotor de uma nova "cruzada", o papa, prudente, não fez referência aos bombardeios norte-americanos, confiando-se ao "direito internacional". Mas a ideia de "guerra justa", teorizada na doutrina da Igreja, no entanto, parece ter se imposto entre as autoridades religiosas, e, nos últimos dias, os bispos das diversas denominações cristãs fizeram apelos por uma intervenção militar, rompendo com as suas posições habituais.

Na França, o porta-voz da Conferência Episcopal expressou a opinião de que o uso da força era, "no caso específico, absolutamente fundamentado, desde que os bombardeios fossem usados em proporções que devem permanecer éticas". A Conferência Episcopal Europeia também sublinhou a necessidade de "pôr fim a essa tragédia com todos os meios possíveis e legítimos".

Os bispos iraquianos pediram que os ocidentais, ainda mais explicitamente, "limpem" a região dos islamistas. Há exatamente um ano, alguns meses depois da sua eleição, o Papa Francisco havia oficializado o retorno evidente do Vaticano ao cenário internacional, comprometendo-se fortemente contra uma intervenção militar contra o regime sírio de Bashar Al-Assad.

Dia Mundial de Oração, carta aos líderes do G20 e individualmente a Vladimir Putin, que sediava a cúpula de São Petersburgo... Francisco tinha tomado uma posição de líder mundial pela paz; o Vaticano se atribuiu até um peso na decisão dos norte-americanos e dos franceses de renunciar aos bombardeios.

Então, trata-se de uma reviravolta? A evolução atual se insere, acima de tudo, em um pragmatismo digno de qualquer realpolitik. Enquanto isso, na Síria, ou ainda antes no Iraque nos anos 1990 e em 2003, o Vaticano considerava que o fim dos regimes totalitários poderia ter consequências desastrosas para os cristãos presentes no local. As autoridades religiosas hoje consideram que, para as minorias, nada pode ser pior do que o avanço do SI.

Mais pungente é a humilhação sofrida pela diplomacia vaticana no conflito israelense-palestino. Apenas poucas semanas depois da oração pela paz, muito midiatizada, organizada no início de junho no Vaticano, com os presidentes palestino e israelense, Mahmoud Abbas e Shimon Peres, uma das mais mortíferas ofensivas israelenses dos últimos anos devastou a Faixa de Gaza durante todo o mês de julho.

Um cruel chamado à realidade que poderia levar o Vaticano a limitar os gestos espetaculares, mesmo que o Papa Francisco pareça determinado a continuar a sua atividade diplomática nos vários países do mundo.

A Ásia, onde a última visita papal remonta a 1999, é hoje em dia um campo de teste para esse novo ativismo romano. Na sua chegada a Seul, com uma alusão à situação de conflito das duas Coreias, o papa recordou a doutrina da Igreja: "A diplomacia como arte do possível se fundamenta na firme convicção de que a paz pode ser alcançada com a escuta atenta e com o diálogo mais do que com as mútuas recriminações e o emprego da força".

Mas, para além do caso coreano apenas, o continente asiático, que representa uma fonte de desenvolvimento para o catolicismo (menos de 3% da população é de confissão católica, apesar do dinamismo em curso em sociedades marcadas pelo budismo e pelo protestantismo evangélico), é um fator-chave para a defesa das minorias cristãs e da liberdade religiosa, tradicionais cavalos de batalha do Vaticano.

De Seul, os olhares, portanto, se voltaram para a China, um dos 15 países do mundo com os quais a Santa não mantém relações diplomáticas, e isso desde 1951. Esforços de aproximação são feitos de ano em ano, mas as relações são obstaculizadas pela nomeação, por parte do regime chinês, de bispos não reconhecidos pelo papa e pela perseguição dos católicos da "Igreja clandestina", fiéis a Roma.

O processo de degelo iniciado com o Vietnã nos últimos anos, apesar das discriminações contínuas contra os católicos "romanos", é citado como modelo para progressos possíveis entre a China e o Vaticano. Ainda mais que o número atual dois do Vaticano, nomeado pelo Papa Francisco, Dom Pietro Parolin, fino conhecedor da Ásia, é um dos artífices da reaproximação com o Vietnã.

Mas as relações se tornaram tensas no fim dos anos 2000, com novas ordenações de bispos oficiais. Quanto ao apelo de Bento XVI em 2007 para um diálogo com as autoridades chinesas e pelo respeito à liberdade religiosa, ele foi percebido pelo regime como uma ingerência "nos assuntos internos chineses em nome do catolicismo".

Francisco novamente estendeu a mão ao regime chinês expressando felicitações ao presidente, Xi Jinping, pela sua eleição em março de 2013, no dia seguinte da sua própria chegada à cúpula da Igreja Católica.

Mas o fechamento continua profundo, e não é certo que a autorização concedida por Pequim para sobrevoar o seu território por parte do avião papal – e é a primeira vez – seja suficiente para tornar mais calorosas, de modo duradouro, as relações entre os dois Estados.

Em um mundo marcado por enrijecimentos ideológicos e político-religiosos, o Vaticano parece em dificuldade para promover a paz e para defender o direito dos cristãos de viver a sua fé. Quer escolha a diplomacia do gesto e da palavra, quer a diplomacia "escondida".

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