A sociedade do cansaço

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14 Agosto 2014

O suicídio causa mais mortes por ano do que todas as guerras e os homicídios combinados. A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2020 o número anual de pessoas que decidem pôr fim dramaticamente à sua existência aumentará para 1,5 milhão de pessoas.

A nota é de Ana March, publicada em seu blog pessoal, 21-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assim também as doenças neurais, a depressão, o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, o transtorno de personalidade limítrofe ou a síndrome do desgaste no trabalho, dentre outras, tornaram-se o maior problema de saúde do nosso tempo, com índices que devem ser entendidos como os de uma grande pandemia global.

O filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu livro La sociedad del cansancio [A sociedade do cansaço] (que se converteu em um best-seller inesperado na Alemanha e publicado na Espanha pela Herder Editorial em 2012), explora a interação sutil entre o discurso social e o discurso biológico, tomando como base a permeabilização que ocorre entre ambos, para comunicar uma mudança de paradigma, que, segundo explica, está passando despercebido.

A sua teoria vai além do trabalho de filósofos como Peter Sloterdijk, Roberto Esposito ou Jean Baudrillard, que já haviam explorado essa interconectividade e aos quais Byung-Chul Han refuta, preconizando que já não vivemos em uma sociedade imunológica, mas que a violência imanente ao sistema é neuronal e, portanto, não desenvolve uma reação de rejeição no corpo social.

Violência neuronal

"Toda época tem as suas enfermidades emblemáticas. Assim, existe uma época bacterial, que, no entanto, chega ao fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo manifesto da pandemia gripal, atualmente não vivemos uma época viral. Deixamo-la para trás graças à técnica imunológica. O começo do século XXI, de um ponto de vista patológico, não seria nem bacterial nem viral, mas neuronal", escreve Byung-Chul.

Conforme seu livro, o século passado pode ser definido a partir da sua própria perspectiva imunológica: à época, houve uma clara divisão entre o dentro e o fora, o inimigo e o amigo, ou entre o próprio e o estranho.

A Guerra Fria também obedecia a esse esquema. O paradigma imunitário estava dominado por completo pelo vocabulário da Guerra Fria, ou seja, se regia conforme um verdadeiro dispositivo militar. Ataque e defesa determinavam não só a ação do organismo no campo biológico, mas também o comportamento do conjunto da sociedade. O estranho era rejeitado, embora não contivesse em si mesmo nenhuma intenção hostil. O objeto de resistência, tanto no biológico quanto no social, era a estranheza.

Com o fim da Guerra Fria, explica Byung-Chul Han, paradoxalmente, dá-se também uma mudança de paradigma imunológica no coração da própria biologia: a imunologista norte-americana Polly Matzinger recusa o conceito de "próprio e estranho", e desenvolve um novo modelo em que define que o comportamento do organismo se diferencia entre "amistoso e perigoso".

Isso significa que a resistência imunológica não se baseia na estranheza, mas distingue o intruso que se comporta de maneira destrutiva dentro do organismo e o rejeita, mas, enquanto o estranho não chamar a atenção nesse sentido, a resistência imunológica não o afeta.

A ideia de Matzinger revelou que o sistema imunitário biológico é mais generoso do que até então se pensava, pois não conhece nenhuma xenofobia, manifestando que a antiga concepção de próprio e estranho, de ataque e defesa, correspondia a uma reação exagerada e até mesmo nociva ao próprio desenvolvimento.

Pois bem, com base no que Byung-Chul Han nos diz, essa mudança de paradigma no biológico também teve a sua contrapartida no plano social. Desde o fim da Guerra Fria, a sociedade se subtraiu à ideia de "alteridade", substituindo-a pela inofensiva "diferença". A estranheza desapareceu, o novo esquema de organização deixou para trás o sujeito imunológico, convertendo o indivíduo em consumidor e turista do exótico.

Assim, a negatividade que era o traço fundamental da imunidade, do outro como negatividade, é substituída pela dialética da positividade e o seu "totalitarismo do idêntico", como definiu Baudrillard, marcada pelo desaparecimento da singularidade, pela proliferação da homogeneização e da equivalência, assim como por uma superabundância dos sistemas de comunicação, informação e produção, que não geram uma reação de rejeição imunológica na sociedade, assim como a obesidade não produz uma reação imunitária no organismo. A diferença soberana que distinguia um do outro desapareceu, e agora o que impera é o idêntico.

É na superabundância do idêntico, nesse excesso de positividade que não cria anticorpos, não gera nenhuma rejeição nem implica qualquer negatividade que Byung-Chul Han encontra as razões para explicar a proliferação dos estados patológicos neuronais.

A violência hoje deixou de responder aos esquemas imunológicos virais do próprio e do estranho, como propunha Baudrillard. A violência hoje é neuronal e imanente ao sistema, sentencia o autor, que atribui ao "superdesempenho", à "supercomunicação" e à "superprodução" atuais as razões que geram um colapso do "Eu", naquilo que ele denomina de "infartos psíquicos".

Atendendo à "sociedade do cansaço", o esgotamento, a fadiga, a sensação de asfixia são manifestações dessa violência neuronal que se vê projetada a partir do próprio coração do sistema e se infiltra por todas as partes em uma sociedade permissiva e pacífica.

A positivação do mundo permitiu essa nova forma de violência. Ao encontrar o espaço do idêntico livre da negatividade, sem nenhuma polarização entre amigo e inimigo, entre dentro e fora, constitui-se como uma forma de terror da imanência.

Para além da sociedade disciplinar

Segundo explica Byung-Chul Han, a sociedade disciplinar de Foucault, com as suas prisões, hospitais e asilos psiquiátricos, já não corresponde com a sociedade de hoje em dia. Uma nova sociedade de ginásios, torres de escritórios, laboratórios genéticos, bancos e grandes centros comerciais compõem o que o autor chama de sociedade do desempenho [Leistungsgesellschaft].

O anterior "sujeito da obediência" foi substituído pelo "sujeito do desempenho". Aqueles velhos muros que delimitavam o normal ado anormal e toda a negatividade da dialética que a sociedade disciplinar continha caíram. Hoje, a sociedade positiva do desempenho substituiu a proibição pelo verbo modal "poder", com o seu plural afirmativo "Yes, we can". As motivações, o empreendedorismo, o projeto e a iniciativa substituíram a proibição, o mandato ou a lei.

Como se explica no livro, a antiga técnica disciplinar com o seu esquema de proibição, depois de certo ponto de produtividade, alcança um limite bloqueador e impede um crescimento da produção. Com o afã de maximizar a produção – ao que parece, algo inerente ao inconsciente social –, substituiu-se o paradigma disciplinar pelo do desempenho.

A positividade de "poder" é mais eficiente do que a negatividade do "dever". Desse modo, o inconsciente social passou do dever ao poder, mas sem anular um ao outro, isto é, como uma continuidade: o sujeito do desempenho continua sendo disciplinado.

Em sua obra La fatiga de ser uno mismo. Depresión y sociedad, A. Ehrenberg situou a depressão como consequência da passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho, isto é, devido ao desaparecimento dos papéis que a sociedade do controle outorgava e à posterior indução à iniciativa pessoal que obriga a devir por si mesmo.

Nessa abordagem, Byung-Chul Han vê como discutível o fato de que não se tenha reparado a pressão pelo desempenho à qual o indivíduo é submetido atualmente. "Na realidade, o que adoece não é o excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como novo mandato da sociedade de trabalho da tardo-moderna" e a sua liberdade paradoxal.

O sujeito do desempenho

O tema do desempenho encontra-se em guerra contra si mesmo, sentencia Byung-Chul. Livre de um domínio externo que o obrigue a trabalhar ou que o explore, submetido apenas a si mesmo, "o sujeito do desempenho se abandona à liberdade obrigada ou à livre obrigação de maximizar o seu desempenho. O excesso de trabalho se aprofunda e se converte em autoexploração. Esta é muito mais eficaz do que a exploração por outros, pois é acompanhada por um sentimento de liberdade".

O excesso de positividade também modificou a estrutura e a economia da atenção. A superabundância de estímulos e informações provocou a fragmentação e a dispersão da percepção. Essa fragmentação ou atenção "multitasking" (multitarefa) à qual o sujeito contemporâneo se submete é uma capacidade que não só aparece no ser humano, explica o autor, mas está amplamente estendida nos animais selvagens.

A multitarefa é uma técnica de sobrevivência vital na selva: um animal selvagem deve estar atento em todos os momentos aos diferentes elementos do seu entorno para evitar ser devorado por outros predadores. Isso impossibilita que ele se submerja na contemplação. A capacidade de atenção profunda e contemplativa, da qual descendem as grandes conquistas da humanidade, está sendo progressivamente substituída pela hiperatenção e pela hiperatividade.

A agitação permanente, a supremacia da vida ativa que é amplamente louvada na sociedade do desempenho não gera nada novo, reproduz e acelera o já existente, escreve Byung-Chul Han.

A histeria e o nervosismo imperantes da moderna sociedade ativa precisam, por sua vez, do doping para um desempenho sem atritos: "A sociedade do desempenho, como sociedade ativa, está se tornando paulatinamente em uma sociedade do doping".

Agrega-se a isso que o uso de drogas inteligentes, que possibilitem o funcionamento sem alterações e maximizem o desempenho, é uma tendência bem argumentada inclusive por cientistas sérios que veem até como irresponsável não fazer uso de tais substâncias. O ser humano como um todo, não só o corpo, está se tornando gradualmente em uma "máquina do desempenho".

"O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço a sós, que isola e divide", conclui o autor. "Esses cansaços são violência, porque destroem toda comunidade, toda proximidade, inclusive até a própria linguagem." Eles atormentam a impossibilidade de olhar e com a mudez.

Utilizando o Ensayo sobre el cansancio, de P. Handke, Byung-Chul Han teoriza sobre o cansaço do "Eu" que, esgotado, se converte em permeável ao mundo e desarma e afrouxa a atadura da sua identidade.

As coisas tornam-se mais imprecisas, mais permeáveis e perdem um pouco de determinação. O cansaço do poder positivo, por esgotamento, incapacita, confere indiferença, e essa especial indiferença outorga aos cansados uma aura de cordialidade. Suprimindo o rígido debilitamento que divide uns de outros, esse cansaço torna possível uma comunidade que não requeira pertencimento nem parentesco, unida por uma profunda afabilidade, por um cordial dar de ombros.

Dessa maneira, "a sociedade vindoura poderia se denominar de sociedade do cansaço".

Sobre o autor

Byung-Chul Han, de origem coreana, estudou filosofia na Universidade de Friburgo e literatura alemã e teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Atualmente, é professor de filosofia e de teoria dos meios na Escola Superior de Design de Karlsruhe.

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