Pedro Fabro, o peregrino que nunca parava

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06 Agosto 2014

Ele lhes trazia o "dom das lágrimas". Assim, em uma carta enviada ao prior do mosteiro de Trier, o prior do de Colônia descrevia o trabalho entre os fiéis de "um homem de grande santidade", hóspede em Mainz. Era o dia 31 de maio de 1543, e, três anos depois, chamado como teólogo para a ocasião, enquanto se preparava para ir ao encontro do Concílio de Trento, esse homem – que respondia pelo nome de Pierre Favre – morria de fadiga enquanto preparava a sua enésima viagem.

A reportagem é de Arianna Di Genova, publicada no jornal Il Manifesto, 02-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Trinta anos de estudo, alguns anos de ministério itinerante. Essa foi a sua vida." Assim Michel de Certeau escreveria sobre ele, citando para a ocasião os versos de Gerard Manley Hopkins: "Parecer estrangeiro é a minha sorte, a minha vida / entre estrangeiros".

De Fabro não se tem retratos, "apenas a sua obra o retrata". No entanto, a sua vida se assenta entre eventos cruciais. Três, acima de todos: o ano de 1517 (ele tinha apenas 11 anos de idade), quando o frei agostiniano Lutero afixou as suas célebres 95 teses sobre as indulgências na porta da igreja do castelo de Wittenberg; o dia 27 de setembro de 1540, quando Paulo III aprovou a Companhia de Jesus; o dia 15 de setembro de 1545, dia em que teve início o Concílio de Trento.

Desse homem de "grande santidade", desde 1525 companheiro "em luta e espírito" daquele Inácio de Loyola que ele encontrou em Paris, restam muitos traços. Acima de todos, o Memorial que, a partir de 1542, ele escreveu com escrúpulo e rigor. Ao lado da Autobiografia e dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, o Memorial é um dos principais documentos da espiritualidade da Companhia.

Um texto – ou, melhor, um conjunto de manuscritos – do qual, em 1960, um conterrâneo seu de Savoia, Michel de Certeau, editou a edição crítica talvez mais reconhecida e conhecida, dedicando ensaios – publicados na Christus e na Revue d’Ascétique et Mystique – que ocupariam grande parte da sua atividade de pesquisa.

É prova dessa atividade de pesquisa – iniciada nas páginas da contestada Christus, à qual colaborava com um ex-companheiro, François Rostang – o livro, recentemente publicado pela Jaca Book, editado por Luce Giard: Pierre Favre (92 páginas).

O leitor mais atento vai lembrar que o volume já havia aparecido pela primeira vez como capítulo de Politica e mistica (Jaca Book, 1975), mas reapresentá-lo agora de forma autônoma – depois da canonização a santo, ocorrida no dia 17 de dezembro passado, por obra de outro atento "leitor" de Fabro, o Papa Francisco – tem um sentido totalmente novo. Também pela anunciada descoberta de um manuscrito inédito de Certeau, de próxima publicação.

Michel de Certeau observa que Fabro escreve mal, mas possui uma lucidez única. Uma lucidez que lhe provém mais de um refinamento da simpatia do que da lucidez de análises. As suas palavras muitas vezes se perdem no detalhe, e as suas frases devem retomar continuamente um fio abandonado muitas páginas antes.

Porém, é precisamente aí, nesse movimento que não sabe se assentar na obra, mas que sabe deslocá-la e atravessá-la, que residem o seu fascínio e a sua atualidade. Ele não ocupa o outro lugar da escrita, assim como nunca conseguiria se estabelecer em uma cidade, embora visitando todas. Assim será com a escrita do Memorial, ao qual se dedica a partir de 1542, aos 36 anos de idade.

"Peregrino que nunca chega, mas que nunca parava, ele continuava a sua corrida", no papel, como na vida.

Do Memorial de Fabro, Michel de Certeau recordava que ele nunca deveria ser considerado como um mero resumo de lembranças e de fatos materiais. Ao contrário, é um instrumento de trabalho, operacional. Os fatos, aliás, não se resolvem em datas, mesmo que as datas sejam importantes.

No Memorial, embora marquem uma aparente descontinuidade, as datas internas são tudo. Iniciado no dia 15 de junho de 1542, em apenas um ano, entre Mainz e Speyer, Fabro escreveu a maior parte das páginas. Páginas que depois foram retomadas nos seus últimos cinco meses de vida.

Por que ele começou a escrever? Fabro fala de "um desejo intenso". O fim – se assim se pode dizer – dessa escrita se enraíza no futuro, não no passado. Trata-se, certamente, de recordações, mas Fabro não escreve para recordar ou para ser lembrado. A polaridade de temporalidades da recordação se volta à ação, ao contrário. Viajante incansável, Fabro só deixa traços sutis das suas inúmeras viagens apostólicas. De outra viagem, "falam" as suas memórias.

Fabro, filho de humildes pastores, em uma época de cisões e feridas, não se nega ao mundo, mas não se fecha, por isso, à terra incógnita, mas muito concreta, da experiência espiritual, onde ele se coloca em busca "de outro Fabro".

Conquistar y pacificar foi a fórmula dos colonizadores de todos os tempos e daqueles que se instalam em um lugar codificando relações mortíferas com o espírito incerto da fronteira. Capturam-na, englobam-na, transformam-na em uma fronteira certa demais para suscitar tonalidades emocionais que não são as do medo. Mas depois há aqueles que a atravessam, aqueles que a buscam, aqueles que se colocam em movimento para ir justamente lá onde nada ainda está codificado: nem uma história, nem uma vida, nem uma palavra, nem um lugar, muito menos um destino. Muito mesmo o rosto de Deus, porque Deus, para quem acredita, talvez até mais do que para aqueles que não acreditam, é precisamente aquilo que se subtrai a toda localização.

Para aqueles que acreditam, de fato, valem as palavras de Lucas (17, 23): "Dirão a vocês: ‘Ele está ali’ ou: ‘Ele está aqui’. Não saiam para procurá-lo". É essa a experiência do (e a esperança no) desnorteamento. O dépaysement, a xeniteia leva Abraão de um lugar ao outro, "sem saber aonde" (Hebreus 11, 8), para talvez encontrar nele nada mais do que um desnorteamento ainda mais radical e o desafio de uma nova expectativa.

Uma característica do "desejo" de Fabro é precisamente esse dépaysement, o estar sempre em outro lugar, percorrer sem fim, sem se estabelecer em um lugar. A vida para ele está entregue ao processo das coisas. Talvez esse seja o ponto que fascinaria Michel de Certeau mais do que todos, a ponto de impregnar os pontos mais altos da sua pesquisa.

Não domesticar as fronteiras: esse é o extremo ensinamento de Fabro. Se conquistar y pacificar eram e teriam sido as palavras capazes de descrever o sentido da belicosa certeza dos colonizadores de todos os tempos e lugares, ao contrário, a inquietação é a chave da peregrinação infinita (material e interior) de Fabro.

Quando viajava, Fabro o fazia a pé, às vezes aceitando se servir de uma mula. Levava consigo poucas cartas, aquelas nas quais escrevia sobre outras viagens.

Para Fabro, todo aspecto da experiência, de fato, se volta para o movimento profundo que a fundamenta: essa é a obra do discernimento.

Em um mundo habitado por espíritos e fantasmas, que gostariam de se enraizar em um "lugar" e, em virtude dos biopoderes, naquele lugar radical que ainda chamamos de "homem", a lição de Fabro, o "peregrino que nunca para", pode ensinar muito a quem a quiser ouvir.

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