Francisco e a excomunhão dos ''poderosos chefões''

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24 Junho 2014

"Os homens da 'Ndrangheta não estão em comunhão com Deus, estão excomungados." As palavras do Papa Francisco fazem com que a Igreja entre em uma nova era.

A reportagem é de Roberto Saviano, jornalista, perseguido pela 'Ndrangheta, publicada no jornal La Repubblica, 22-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele as pronunciou na Calábria, não em Roma. Pronunciou-as sabendo que chegariam fortes e claras. Ele foi confortar os parentes de Cocò, o menino de três anos morto com um tiro na cabeça e queimado em Cassano allo Ionio. Uma criança morta é a prova objetiva e definitiva da mentira "de honra" dos mafiosos.

Bergoglio, lembrando essa criança massacrada, não precisou demonstrar com outras palavras a barbárie do poder criminoso. Ele cancelou com um gesto a mentira com que a 'Ndrangheta se autocelebra como sociedade de honra e de defesa dos fracos, dos pobres e como distribuidora de justiça, trabalho e paz social.

Alguns poderiam acreditar que seja natural e óbvio que a Igreja recorde uma criança morta e queimada, e denuncie os culpados. Mas, infelizmente, não é assim. Eis o que disse o pároco de Cassano, Pe. Silvio Renne, algum tempo atrás, em uma entrevista com Niccollò Zancan: "Ainda Cocò? É uma história encerrada. Fizemos o funeral. Eu não sou investigador. Não cabe a mim dizer quem foi. E ainda é preciso ser provado se as drogas ou a 'Ndrangheta tem alguma coisa a ver...".

Para o Papa Francisco, não é uma história encerrada, e ele não tem medo de dizer que os culpados são os mafiosos. Manter fora da cristandade os filiados e declarar isso na Calábria é um ato de coragem, não é uma escolha retórica, não é debate teológico. A excomunhão é uma palavra perdida no tempo, culpa do direito canônico que perdeu o sentido dramático e muitas vezes persecutório que ele tinha desde o século IV até o fim do Estado da Igreja.

Mas hoje, ao contrário, torna-se o gesto mais fortemente simbólico possível para excluir as organizações mafiosas da cristandade, para cortar os laços que muitas vezes eles estreitaram com as paróquias locais. As palavras do papa trovejam como declaração final e denunciam sem possibilidade de saída a mentira dos mafiosos que se autoproclamam católicos e fidelíssimos à Igreja de Roma.

João Paulo II também tinha pronunciado – no dia 9 de maio de 1993, em Agrigento – um ataque muito duro contra a máfia: "Convertei-vos, virá o juízo de Deus". Dois meses depois, os corleoneses colocaram uma bomba em São João de Latrão.

Mas, depois, o compromisso antimáfia da cúpula eclesiástica pareceu se enfraquecer, delegando tudo aos padres definidos como "de fronteira" ou "de rua", de acordo com a moda jornalística.

Agora, no entanto, se a Igreja quer ser consequente e não repetir os erros do passado, ela deve fazer com que se siga a essa excomunhão uma série de comportamentos fundamentais, tais como a recusa das doações dos mafiosos; o afastamento, depois de confirmações e condenações, dos padres considerados coniventes; a criação de uma comissão antimáfia dentro da Igreja que possa avaliar, independentemente das autoridades de polícia, a relação, a extensão da excomunhão aos políticos, empresários que se consideram católicos e que têm relações com as organizações criminosas.

A excomunhão é uma arma poderosa, porque, na lógica anormal da narrativa mafiosa, o vínculo com a religião é fundamental: há toda uma ritualidade distorcida que regula a cultura das "famílias" mafiosas. A filiação à 'Ndrangheta ocorre através do "santinnho" [santina], a imagem de um santo em papel, com uma oração. São Miguel Arcanjo é o santo que protege as 'ndrine: na sua figura, cola-se o sangue do filiado no rito da iniciação. A dirigência hierárquica máxima da 'Ndrangheta é definido como "santa", em cujo interior um grau superior se chama "evangelho".

O poder é considerado uma ordem providencial: até mesmo matar se torna um ato justo e necessário, que Deus perdoará, se a vítima colocar em risco a tranquilidade, a paz, a segurança da "família".

Nossa Senhora é vista como a mediadora entre o homem forçado ao pecado e o seu filho, Jesus, que, através dela, compreende que essa infração foi feita com boas intenções, em um mundo de pecados e injustiças. Os próprios sacramentos são usados para consolidar os laços mafiosos. No passado, quando nascia um menino, no dia do batismo, colocava-se ao seu lado uma faca e uma chave: se a criança tocasse a faca, estava destinado à "honra", se tocasse a chave, se tornaria um policial. Obviamente, a chave sempre era colocada mais longe.

Entre os motivos que levaram à morte do Pe. Peppino Diana, estava a sua acérrima luta contra os clãs que queriam explorar os sacramentos como viáticos para a cultura camorrista. A 'Ndrangheta é uma estrutura completamente permeada pela cultura católica.

Em Polsi, no dia 2 de setembro, no santuário de Nossa Senhora de Aspromonte, os chefes se reuniam, misturando-se aos fiéis para dar novas investiduras e construir alianças, selar pactos. Não por acaso a "árvore da ciência", metáfora da estrutura ndranghetista, encontra-se justamente ao lado do santuário.

As histórias de entrelaçamento entre Igreja e 'Ndrangheta são inúmeras. As igrejas eram usadas como território de negociação entre os clãs: durante uma missa em 1987, a viúva do chefe absoluto dos "arcoti", Paolo De Stefano, morto pelo "anão feroz" Antonino Imerti, pediu o fim de uma das mais sangrentas disputas da história criminosa internacional. Houve sacerdotes acusados de cumplicidade: como o Pe. Nuccio Cannizzaro, pároco de Condera, acusado pela antimáfia de falso testemunho em defesa do sistema ndranghetista dos Crucitti e Lo Giudice. Ou o Pe. Salvatore Santaguida, pároco de Vibo Valentina, acusado de conivência com associações mafiosas.

Em 2009, a família Condello conseguiu até obter a leitura das palavras de felicitação de Bento XVI transmitidas na Catedral de Reggio Calabria pelo Pe. Roberto Lodetti, pároco de Archi, aos esposos Caterina Condello e Daniele Ionetti: a primeira, filha de Pasquale; o segundo, filho de Alfredo Ionetti, considerado o tesoureiro da "família".

A práxis é de que, quando os esposos desejam receber um telegrama ou um pergaminho do papa, eles apresentem o pedido ao pároco ou a um padre conhecido por eles, que transmite o pedido ao escritório de matrimônios da Cúria.

Causa escândalo a luz verde dada pela Cúria de Reggio Calabria para as núpcias na catedral de dois descendentes de uma poderosa 'ndrina calabresa. É difícil de acreditar que não se tenha prestado atenção aos sobrenomes dos dois esposos. Até porque Caterina Condello e Daniele Ionetti são primos de primeiro grau, e o direito canônico (artigo 1.091) permite um matrimônio entre consanguíneos apenas com dispensa motivada solicitada pelo pároco e assinada pelo bispo.

A Igreja que levou o papa a pronunciar essas palavras não é só a Igreja dos mártires, mas também a Igreja de todos aqueles padres que, em territórios muito difíceis e atormentados, representam o único caminho possível para o direito, o único caminho para a dignidade onde o Estado muitas vezes atua apenas com algemas e apreensão de bens, onde não há alternativa entre emigrar ou viver no total desemprego.

Na Calábria, os padres Giovanni Ladiana e Giacomo Panizza estão entre os exemplos de Igreja que se faz práxis de resistência, não mero símbolo antimáfia, mas criação de um caminho possível ao direito ao conforto, à partilha, ao futuro. Essa excomunhão é apenas o início de um percurso que poderá ser epocal.

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