Avaliação crítica da atuação dos governos da Frente Ampla no Uruguai. Entrevista com Jorge Zabalza, histórico ex-dirigente tupamaro

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Por: Jonas | 23 Abril 2014

Falar com Jorge Zabalza é tocar em um pedacinho irredutível da luta do Movimento de Libertação Nacional (MLN) – Tupamaros, dos anos 1960 e 1970. Irmão de Ricardo, outro “tupa”, abatido em combate quando o movimento guerrilheiro ocupava a localidade de Pando, no dia 8 de outubro de 1969, e eterno defensor de Raúl “Bebe” Sendic, o falecido líder do “tupamaraje” revolucionário e artiguista.

Zabalza foi um dos muitos reféns da ditadura, sendo prisioneiro por 13 anos em duríssimas condições. Depois, já em liberdade, foi um digno vereador montevideano que se opôs a uma concessão espúria do Casino de Carrasco, como desejava o prefeito frenteamplista. Sua decisão provocou um terremoto na Frente e até a renúncia do próprio Tabaré Vázquez, que a presidia.

Com o tempo, Zabalza permaneceu defendendo a rebeldia e os princípios de suas origens, ao passo que vários de seus companheiros de prisão e de luta tomaram outros rumos no político e também no ideológico. Hoje, Zabalza se tornou um franco-atirador (guevarista-bolivariano-artiguista) que incomoda o poder, já que não fecha a boca quando deve denunciar as injustiças e muito menos diante das involuções no campo das ideias. Por tudo isso, entrevistar ao Tambero (o apelido como é conhecido no Uruguai e no mundo) oferece muitos títulos jornalísticos urticantes. Vamos ouvi-lo, então.

A entrevista é de Carlos Aznárez, publicada por Rebelión, 16-04-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Pouco antes de Pepe Mujica assumir o Governo, muitos de seus seguidores afirmavam que “agora, sim, o processo irá se radicalizar”. Qual é sua opinião sobre o ocorrido no mandato de seu ex-companheiro do MLN - Tupamaros?

Essa era uma leitura bastante parcial, já que Mujica sempre apoiou o modelo econômico que o atual vice-presidente Danilo Astori, ligado às corporações multinacionais, patrocinava. No fundamental, Tabaré, Mujica e Astori têm uma concordância plena no “Uruguai produtivo” que temos: plantar soja transgênica com agrotóxicos, florestamento de eucaliptos e de pinos, mega-mineração. Um país absolutamente dependente das corporações. Quem governa o país é o capital estrangeiro. Eles, a única coisa que fazem é mudar o cenário para não mudar nada: um ano Tabaré, depois Mujica, agora voltaria Tabaré novamente. Disfarçam o discurso e a aparência. Um dia Mujica se faz de povão, outro dia filosofa, sempre com grandes contradições ou grandes discursos para depois fazer tudo ao contrário. Tabaré parece mais doutoral. Astori pressupõe que sabe tudo e, depois, não sabe onde se meter quando não pode com a inflação.

Frente a estas questões, quase de sentido comum em relação às lacunas, o que ocorre com a base da Frente Ampla ou do próprio Movimento de Participação Popular? Não se rebelam? É tão forte assim o verticalismo?

Tem começado a aparecer lentamente certo desengano. É evidente que esta campanha de Tabaré Vázquez não está acompanhada pelo entusiasmo que teve a que o levou ao Governo, em março de 2005. Eles estão se queixando que poucas pessoas vão aos atos, estão dizendo que não tem militância. Como gostariam de ter, se depois fazem tudo ao contrário do que prometem (?). Havia uma expectativa de que com a chegada do “grande Tabaré” as massas iam comparecer às convocações. Mas, não é assim. Inclusive, as últimas pesquisas mostraram que todos os partidos juntos superam a Frente Ampla e, portanto, a maioria parlamentar corre muito risco, o que lhes preocupa.

Na verdade, há uma grande despolitização e desideologização da campanha eleitoral, o que faz com que as pessoas não tenham entusiasmo. Querem lhe vender um sabonete ou outro sabão por meio da publicidade eleitoral, mas são todos iguais.

Em uma das paredes do Cerro de Montevideo pudemos ver uma pintura que dizia: “Do realismo à traição”, no sentido de que Mujica sempre diz que “esta é a realidade, o mundo mudou”, e há outros militantes que pensam que “na realidade os princípios foram traídos”. O que você pensa destas opiniões?

Acredito que Mujica fez uma opção política pelo capitalismo. Em algum momento, em (Fernández) Huidobro, Mujica, Bonomi foi quebrada aquela fibra de querer mudar o mundo e fazer uma opção pelos trabalhadores, e perderam o convencimento.

Então, foram incorporados às filas de todos aqueles que combatemos, até mesmo dos estancieiros do Uruguai, que geram o latifúndio e que são protegidos pelo Governo. Não houve nem um só choque com o imperialismo. Quando toda a América Latina se eleva contra o Império e saímos à rua para defender a Venezuela, Mujica toma uma atitude de “grande conciliador”. A direita da Venezuela vem buscá-lo e ele diz que sim, que irá para regularizar tudo. Por sorte, Maduro lhe diz “não, obrigado”.

Aqui houve uma mudança ideológica porque estes companheiros romperam o desejo de lutar. Em algum momento de sua carreira, como Tupamaros e revolucionários, deixaram suas convicções em algum calabouço.

No entanto, surgiram algumas reivindicações que geram mobilizações multitudinárias, como é a luta pela terra.

Essa é uma expectativa que todos nós temos, da forma como se está reagindo. Assim como em outros países da América Latina, dizem que no Uruguai se reduziu a pobreza, mas um terço da população tem rendas abaixo de 14 mil pesos, sendo que a cesta básica é superior a 50 mil. São pobres, não possuem o suficiente para cobrir suas necessidades básicas. Esse descontentamento está ali, enrustido.

Por sorte, diante de empreendimentos como a mineração a céu aberto Aratirí, que irá ocupar ao redor de 40 mil hectares, ou diante das injustiças que estão ocorrendo com os trabalhadores nos laranjais, há pessoas que reagem em defesa da água, da terra e de todos os recursos naturais. Com as pessoas em movimento e lutando, há possibilidades de se fazer política que tenha um sentido revolucionário. Não estamos falando de fazer uma Revolução agora, mas sim de poder olhar um caminho, um horizonte que seja revolucionário.

Sendic continua sendo um ícone para os rebeldes do Uruguai?

É claro. Se não fosse assim, porque você acha que esqueceram Sendic? Por que quando os Tupamaros chegam ao governo nenhum se lembra de dizer: Salve, Sendic! Vamos defender suas ideias e seu pensamento revolucionário? Porque Sendic tinha um projeto político, e que não falo dos anos 1970, mas de quando saímos das prisões, de se construir uma Frente a partir das bases, com quatro propostas: não pagar a dívida externa; fazer uma reforma agrária, expropriando aos latifundiários sem indenizá-los e passando a propriedade das terras ao Estado; estatizar o Banco e elevar o salário ao mesmo poder aquisitivo que tinha nos anos 1960. Isso significava outro modelo de Uruguai, um modelo de produção e de capital voltado para o povo, de outra forma de vida. Tinha o alvo de não respeitar a classe dominante, de se chocar com ela e não lhe fazer reverências.

Como nesse momento, nenhum dos ex-guerrilheiros que estão no Governo podem defender esse programa, pois estão fazendo tudo ao contrário, estão entregando o país ao capital estrangeiro, Sendic vive clandestino no coração do povo. Nós, a cada tanto, buscamos retirá-lo dessa clandestinidade. Este ano haverá uma marcha com gente da UTAA (União dos Trabalhadores Açucareiros de Artigas), que vem de Bella Unión, os trabalhadores dos laranjais de Paysandú, os companheiros de Tacuarembó e de Rivera, e gente do MST do Brasil. Iremos até o cemitério para homenageá-lo.

Nossa ideia é a de que os jovens que hoje estão lutando levantem o legado de Sendic, que saibam que os Tupamaros não eram como os que estão governando no Uruguai. Os Tupamaros tinham dignidade, bandeiras e queriam uma Revolução agrária, a mesma que fez Artigas.

O que irá fazer Zabalza nas próximas eleições presidenciais, do mês de outubro?

Zabalza não quer votar em ninguém. Não irei votar em Tabaré Vazquez. Se com Mujica a Frente Ampla já está à direita, o que vem agora, no Uruguai, será pior. Com ele podemos esperar um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos. Se houver mobilização popular, Tabaré irá dar pauladas, que ninguém duvide disso. Será como Rodríguez Zapatero na Espanha, ou como a social-democracia grega. Portanto, em Tabaré não se deve votar. Há pessoas que nos dizem: “mas não há nada melhor, votar na direita é pior”, e eu afirmo que Tabaré é a direita, com tanta soberba e arrogância como os outros candidatos da direita tradicional. Nós vamos convocar para não votar, ou para votar nulo ou em branco.

Quais são as razões para que, após tanto tempo, a esquerda mais rebelde não possa se unir e marchar juntos?

Por não haver uma grande mobilização e luta popular, não surgem propostas unitárias. O calor da luta da gente ajudaria muito a nos juntar. Se não existe uma retaguarda, o povo com espírito insurrecto, como dizia o Che Guevara, não existe vanguarda.

Você se preocupa com a situação da Venezuela, atacada externa e internamente pelo Império?

Preocupo-me muito. O mundo mudou nestes últimos dez anos. A Rússia parou os Estados Unidos na Síria e, nesse momento, está vencendo na Ucrânia. Os norte-americanos não vão se atrever a intervir diretamente e terminarão enfiando o violão no saco. Então, resta-lhes a América Latina, e em especial Venezuela, Cuba, Brasil. Acredito que nos próximos anos se deve esperar que o imperialismo tentará se concentrar no que eles continuam chamando seu “pátio traseiro”. Serão horas de definições, e é aí onde voltamos à situação uruguaia. Certamente, Tabaré se definirá pela Aliança do Pacífico ou irá se aliar com a direita fascista do continente.

Como você não é diplomático, pergunto-lhe como do Uruguai se percebe a situação argentina.

Essa, sim, é uma pergunta difícil. Há um modelo econômico que pretende ter uma aparência mais ligada à defesa do nacional, mas, por outro lado, assinam contratos com a Chevron, que significa uma entrega total do país. Por um lado, na Argentina está ocorrendo os processos e muitos verdugos e torturadores estão sendo enviados para a prisão, os assassinos da época do terrorismo de Estado, por outro lado, são condenados a perpétua os trabalhadores de Las Heras. É um autêntico disparate. É continuamente uma pá de cal e outra de areia. Eu acredito que o que realmente é determinante na América Latina é o tema do imperialismo. Maduro briga abertamente contra os Estados Unidos, Correa expulsa a base yankee de Manta, Evo Morales expulsa o embaixador dos Estados Unidos. No entanto, quanto a Cristina Fernández não se sabe se apoia ou não essas posições, às vezes sim, às vezes não. Apesar de estarem um pouco brigados, é como Mujica: assim como lhe digo uma coisa, digo-lhe outra...

Mujica há 20 dias está dizendo que irá visitar Obama, e depois diz que não pode por várias razões. Porém, nunca diz: “não, não irei porque os Estados Unidos assassinaram no Iraque, no Afeganistão, na Síria ou na Líbia”. Ao contrário, diz que “não se sente bem” ou afirma que irá visitá-lo “porque a embaixadora dos Estados Unidos no Uruguai é muito simpática e sempre nos trata bem”. Jamais toma uma posição política e ideológica frente ao imperialismo. E Cristina Fernández faz o mesmo.

Outro tema pendente no Uruguai é o não julgamento dos militares genocidas.

O problema dos direitos humanos no Uruguai não é apenas a defesa cerrada da impunidade do Poder Judiciário por um lado e do Governo com sua política do esquecimento e perdão. No momento, aparece este tema de que Mujica, por presumíveis razões humanitárias, irá trazer cinco prisioneiros do Guantánamo, a pedido de Obama. No entanto, não se fixa nos adolescentes que estão presos nos centros de reclusão, que estão acorrentados. As autoridades atuais das prisões de menores se orgulham porque já não há fugas, mas não existem porque os presos têm correntes nos pulsos e nos tornozelos. Esses não são direitos humanos? E o fato comprovado de que nas delegacias do Uruguai se tortura ou a violência policial que há nos bairros ou nos estádios? Esses não são direitos humanos? Estes que nos governam se acostumaram a ter um discurso que parece de esquerda e que em nível internacional provoca aplausos, mas a realidade é que há tempo não se processa a nenhum dos genocidas, e que ultimamente dois que tinham sido declarados culpados por assassinar companheiros, foram deixados em liberdade. Essa é a grande contradição uruguaia: grandes discursos, mas na prática tudo ao contrário.

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