A cama: zona franca de imposições eclesiais. Entrevista com Stephan Goertz

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18 Fevereiro 2014

Sobre a moral matrimonial e sexual, há uma grande brecha entre católicos alemães e a sua Igreja. É o resultado de uma investigação da Igreja. Certamente, não é uma surpresa, afirma o presidente dos bispos, Robert Zollitsch. Os prelados católicos são mais progressistas do que todos pensam? E o que surge a partir disso? Para refletir a respeito, entrevistamos o teólogo moral Stephan Goertz, nascido em 1964, professor de Teologia Moral da Universidade Católica de Mainz, na Alemanha.

A reportagem é de Hartmut Meesmann, publicada no sítio Publik-forum.de, 14-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Goertz, os bispos católicos alemães publicaram os resultados do questionário sem retoques. O Papa Francisco os incentivara. Os resultados indicam claramente que uma grande maioria dos católicos simplesmente não entende e não compartilha as argumentações eclesiais sobre a moral matrimonial e sexual da Igreja. Isso não seria talvez um desastre para a Igreja Católica?

Sim e não. Os resultados não são uma novidade. Só que, durante décadas, eles não foram levados em consideração para uma autocrítica. Os resultados são um desastre para aqueles que continuam acreditando que devem defender os fiéis da modernidade, impondo a autoridade da Igreja Católica. A sinceridade da análise que foi feita agora foi um bom sinal para uma reflexão por parte da Igreja. A atribuição da culpa ao espírito do tempo, como muitas vezes se fazia até mesmo um pouco simplisticamente demais, é algo manifestamente obsoleto.

Como você explica a grande distância entre a doutrina católica e o modo de pensar e de agir dos fiéis? O presidente da Conferência Episcopal Alemã, Robert Zollitsch, acha que isso não é nada surpreendente – ele o disse recentemente ao jornal Wiesbadener Kurier.

Praticamente, na modernidade, a Igreja Católica perdeu a capacidade de interpretar a moral do modo de vida individual. Depois do fim dos Milieu tradicionalmente católicos, para o bem ou para o mal, os católicos são partícipes da vida social. Tornam-se verdadeiros concidadãos da modernidade com as suas promessas e as suas ambiguidades. No âmbito da sexualidade, chegou-se a uma libertação de antigas restrições e proibições. No centro, estão agora valores como equiparação de direitos e responsabilidades. E os prazeres do corpo não são mais considerados com desconfiança. Tudo isso leva, em certo sentido, a uma desdramatização da sexualidade. Com essas premissas, cada vez menos pessoas estarão convencidas de que todo ato sexual não voltado à procriação e fora do matrimônio seja pecado.

E as pessoas pensam autonomamente e agem em consequência disso. Então, há ainda a necessidade da Igreja para a moral familiar e sexual?

Não há necessidade da Igreja ao menos para chegar a visões éticas sobre a moral familiar e sexual, em relação ao que é humanamente aceitável e sustentável, e o que não o é. Essa não é nem mesmo a tarefa original da Igreja. À Igreja, como comunidade de fé, compete anunciar e testemunhar a mensagem de um Deus que ama as pessoas incondicionalmente e ficar do lado daqueles que são esmagados nas engrenagens de uma sociedade baseada em uma concorrência impiedosa.

Então, chega de uma moral das proibições e avante a um fortalecimento da consciência?

Com a admissão da liberdade religiosa no Concílio Vaticano II, a Igreja Católica deu um passo epocal, que diz respeito ao respeito à busca da verdade religiosa por parte da pessoa individual. No âmbito da liberdade de consciência, no entanto, o caminho da Igreja ainda não está claro. Trata-se do respeito de decisões que as pessoas com responsabilidade no campo moral assumem para si mesmas e do qual depende a sua identidade como pessoa. Dizendo isso, é evidente que não se entende que qualquer decisão de uma pessoa é socialmente tolerável.

Há rumores que alertam para não superestimar os resultados da investigação: não é com as maiorias que se pode decidir o que é certo ou errado. O que você pensa?

É verdade: a perguntas de tipo ético, não se responde com votações. Mas quem alguma vez defendeu isso? Porém, o que é eticamente relevante é o fato de que muitos fiéis não conseguem mais compreender determinadas normas da Igreja a partir das suas convicções crenças e da sua capacidade de juízo. Os seus pontos de vista valoriais se baseiam em experiências próprias. É algo que é preciso acompanhar e sobre o qual é preciso refletir teológica e eticamente.

De todos os modos, a Igreja não pode dizer: todo ato sexual antes do casamento é errado, mas aceitamos a decisão errada que vocês tomaram em consciência. Ou: todo ato de tipo homossexual é errado, mas aceitamos a decisão errada que vocês tomou em consciência. É preciso chegar a uma nova avaliação de conteúdo.

Você tem razão, seria fácil demais e até mesmo desonesto. Os bispos alemães, por exemplo, em 1968, depois da publicação da encíclica Humanae vitae, haviam publicado a sua "Declaração de Königstein" e não a defenderiam até hoje se se tratasse apenas de tolerar um erro de consciência dos fiéis no âmbito do controle de natalidade. Não, no âmbito da "paternidade responsável", há efetivamente uma margem de liberdade para uma decisão em consciência. Não há um único caminho moralmente correto.

Portanto, a partir de um ponto de vista ético, deve-se partir das pessoas e das suas relações, não tanto de uma natureza que seria considerada com um dado objetivo.

No limite, se poderia dizer: a reprodução é algo natural, enquanto a sexualidade humana e as relações verdadeiramente humanas são fenômenos culturais. Nós, seres humanos, podemos e devemos nos comportar com base na nossa natureza específica. Nisso, consiste a nossa dignidade especial, porque nisso está fundamentada a nossa capacidade de sermos livres. Então, para um ser livre que vive na história, o que deve ser um dado natural objetivo? A natureza é dado e tarefa ao mesmo tempo. Para abordar esses temas, devemos aprender a pensar de forma complexa.

Devemos abandonar totalmente um pensamento baseado na lei natural?

Não, isso não. Mas a lei natural tem uma história, na qual também se chegou a pontos de vista restritos. O pensamento baseado na lei natural preparou os tempos modernos, mas também foi usado para negar às mulheres, por exemplo, com base na sua natureza especial, determinados direitos. Depende de quais variantes da lei natural pretende-se representar.

Os bispos indicam quatro âmbitos nos quais a distância entre a doutrina oficial e os fiéis é particularmente evidente: na coabitação antes do casamento, na homossexualidade, no controle de natalidade e na atitude com relação aos divorciados em segunda união. Na sua opinião, qual é a necessidade de uma mudança mais forte?

É preciso distinguir entre ambientes internos à Igreja e desafios da sociedade. Dentro da Igreja, a questão da atitude com relação aos divorciados em segunda união é, neste momento, o assunto decisivo. A partir de uma perspectiva ético-social e político-religiosa, no entanto, a atitude com relação às minorias sexuais, ou seja, os homossexuais, e a defesa do vírus HIV, isto é, a questão do uso de preservativos, parecem-me os problemas mais urgentes.

Como você avalia a situação da Igreja universal? Percebe uma orientação comum no comportamento dos fiéis nas várias partes do mundo?

Não posso avaliar isso. Isso será diferente dependendo das questões específicas. No entanto, é preciso chegar a uma reforma o mais rápido possível com relação aos divorciados em segunda união. Presumo que, para outros problemas, se chegará a discussões com base nos diversos contextos culturais e nas orientações internas à Igreja. Vai depender muito da disponibilidade de todos ao diálogo.

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