“O clericalismo é prejudicial aos sacerdotes e leigos”. Entrevista com Beniamino Stella

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Por: André | 13 Fevereiro 2014

A nomeação como cardeal, a carta do Papa aos novos cardeais, o trabalho da Congregação para o Clero, o “perfil” do sacerdote e o perigo do clericalismo: o prefeito Beniamino Stella, a poucos dias do Consistório em que será criado cardeal, fala com o Vatican Insider sobre estes primeiros meses de trabalho como responsável pelo dicastério que se ocupa dos sacerdotes.

 
Fonte: http://bit.ly/1g6Jg2k  

A entrevista é de Andrea Tornielli e publicada no sítio Vatican Insider, 11-02-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como tomou conhecimento da sua nomeação?

Um dia antes do anúncio, no sábado, 11 de janeiro, tive uma audiência ordinária com o Papa, e falamos bastante sobre as tarefas do dicastério. Ao final, antes de se despedir, o Santo Padre me disse que meu nome estaria na lista dos novos cardeais, que anunciaria no dia seguinte. Comunicou-me a notícia com simplicidade, com serenidade. Recordo da maneira especial de um detalhe: informou-me da nomeação olhando-me profundamente, diretamente, nos olhos, como para me dizer: “ânimo, o bom Deus lhe ajudará”. Foi para mim um momento de grande intensidade interior, pensando neste novo compromisso de vida, que me situa em direta colaboração com o Papa, no dicastério e em outras tarefas.

O que pensa da carta que o Papa Francisco enviou a todos os nove cardeais?

Eu a apreciei muito. Não me surpreendeu, porque segue o estilo do Papa, que nos convida a ser autênticos, sóbrios e alegres. É uma carta que me fez muito bem. Recordou-me essa mensagem fundamental do Evangelho, que diz que Jesus vem ao mundo pobre e humilde. O Santo Padre, de fato, ao falar sobre o “caminho da humilhação”, convida-nos a ter no coração os sentimentos de Jesus, que se fez sobretudo humilde servo. O Papa Francisco também nos recomenda receber esta nomeação com “gozo e alegria”, dois termos que podem parecer sinônimos. Preferiria ler a palavra “gozo” pensando na felicidade do coração, enquanto que a “alegria” talvez indique um rosto sereno capaz de sorrir. De qualquer maneira, é importante a alegria de quem sabe dar graças, sobretudo, a Deus e ao próprio Sumo Pontífice: a alegria da gratidão.

Pode explicar brevemente quais são as tarefas que desempenha na Congregação para o Clero?

Desde a Constituição Pastor Bonus até hoje, as tarefas do dicastério sofreram diferentes modificações. Entre as competências atuais há temáticas tradicionais, como os chamados recursos hierárquicos, relacionados em particular com as relações entre sacerdotes e bispos. A respeito, recomendaria tentar sempre chegar a um acordo pacificamente, buscando soluções o mais possível consensuais, nas quais a humanidade, a caridade e a justiça andem juntas. Além disso, há o vasto campo das dispensas das obrigações que derivam da ordenação, concedidas aos que abandonaram irreversivelmente a condição de clérigos, diáconos e sacerdotes. Faria alusão também ao âmbito patrimonial das dioceses, em relação às quais existe uma regulamentação específica e bastante detalhada, que convido a conhecer bem. Mas quisera destacar um ponto fundamental para mim e ao qual desejo dar uma relevância especial: a promoção da vida e da missão dos ministros do Evangelho.

E como se coloca em prática?

Procuro fazê-lo de muitas maneiras, sobretudo com os encontros que tenho com frequência com os bispos, recomendando-lhes vivamente que estejam próximos do seu clero, como padres, amigos e irmãos. É um grande desafio, que deve tornar-se realidade para que os sacerdotes e os diáconos se apercebam de que estão percorrendo um caminho belo, digno de ser vivido, como é o de seguir o Senhor Jesus, anunciando Seu nome e oferecendo o testemunho alegre do Seu Amor.

Qual é a importância da formação permanente do clero?

Muito grande. Para desempenhar esta tarefa, gostaria que houvesse sacerdotes e diáconos, assim como bispos, que percebessem a grande necessidade e a urgência deste aspecto, considerando-a como uma verdadeira prioridade em suas vidas. O mundo necessita de evangelizadores que se distingam pela santidade de vida, mas também por sua cultura e reta doutrina, capazes de oferecer testemunho, com o coração e com a mente, da esperança que habita nela diante dos desafios do nosso tempo. Para dar corpo a esta sensibilidade existem diferentes instrumentos que a Igreja sempre recomenda aos seus pastores. Sobretudo os retiros e os exercícios espirituais, mas também essa disponibilidade cotidiana para o estudo e o deixar-se interrogar pelas situações nas quais o exercício do ministério induz a buscar novas respostas, à luz do Evangelho. Gostaria de repetir que sempre me lembro de forma particular dos diáconos que, enquanto clérigos, entram na competência deste dicastério. Eles têm um papel muito importante, e gostaria que experimentassem a alegria e a responsabilidade de servir a Igreja, sobretudo os pobres, com o olhar e o coração fixos no Senhor Jesus.

Falou-se em diferentes ocasiões sobre certa “crise de identidade” entre os sacerdotes da sociedade contemporânea. Pode esboçar uma espécie de “perfil” do sacerdote?

No fundo, o sacerdote existe para fazer o que Jesus fazia. Ele, diante do olhar dos doentes e de todos os que o procuravam, mostrava sempre o rosto misericordioso de Deus Pai, curando as almas, perdoando os pecados, anunciando o Reino dos Céus, sem excluir ninguém, mas sempre captando profundamente suas necessidades e ajudando-os a crescer. Diria, pois, que o sacerdote é aquele que deseja cada dia, inclusive com sacrifício, ser como Jesus, que fez da vontade do Pai seu alimento cotidiano. Nós, sacerdotes, não devemos esquecer nunca que somos “um com Jesus” para continuar sua missão entre os homens. Isto nos leva a dar uma prioridade ao “ser sacerdote” em relação ao “fazer sacerdote”; do contrário, cai-se num ativismo disperso e nocivo.

Do que se necessita para ser sacerdote desta maneira?

É necessário ter uma alma sacerdotal, de verdadeiro pastor, para exercer bem o ministério, com essa caridade pastoral que deve ser o aspecto mais brilhante na vida de um sacerdote. Por isso, sobretudo, é necessário viver perto do Senhor, na oração, na litúrgica e na pessoal, levando uma vida austera, disponível aos necessitados, com mansidão de espírito, com intenso amor pela Igreja, nossa mãe, agindo sempre com retidão e transparência. É necessário que todos possam ver em nossos servidores, pessoas que colocaram no centro das suas vidas não interesses pessoais, mas Jesus e seu Evangelho. Do contrário, corre-se o risco de que se convertam em funcionários do culto e administradores de estruturas, mais do que pastores segundo o Coração de Cristo.

Sua Congregação acaba de receber a competência sobre os Seminários e, portanto, sobre a formação dos novos sacerdotes. Na conversa com os Superiores das ordens religiosas, o Papa Francisco disse: “Devemos formar os corações. Do contrário, formaremos pequenos monstros...”. O que significa “formar os corações”?

Em relação aos Seminários, gostaria de dizer que é um campo árduo e fundamental, ao mesmo tempo. O dicastério começou a trabalhar neste setor há pouco tempo. Mas estou consciente de que não começo do zero. Sinto-me herdeiro de um longo caminho, de muitos esforços e iniciativas bonitas. É muito importante para mim, sobretudo, o tema da seleção dos candidatos ao sacerdócio, a importância da qualidade mais do que da quantidade, a importância de não se apressar na sua formação, para que possa ser o mais cuidadoso possível. Os seminaristas sempre são uma semente de esperança. Se temos bons seminaristas hoje, com toda probabilidade, teremos bons sacerdotes amanhã. Então, destacaria a importância de ajudá-los a conformar seus corações com os sentimentos de Cristo; que Cristo se converta para cada seminarista em um espelho onde se possa ver, um modelo a seguir, a voz que é preciso ouvir, a luz que ilumina, o bálsamo que cura, a vida que deve ser percorrida onde quer que esteja e sempre. Se olhamos para o coração de Cristo, nos damos conta de que está cheio de caridade, de compaixão e perdão, um coração acostumado a compartilhar as alegrias e os sofrimentos das pessoas, um coração cheio de respeito para com o outro. Creio que esta breve reflexão pode, de alguma maneira, interpretar as afirmações do Santo Padre.

O Papa chamou a atenção em diferentes momentos para o perigo do clericalismo. O que é e como o vê o Prefeito da Congregação para o Clero?

Clericalismo” é uma palavra que se converteu em algo muito presente na boca do Papa durante estes meses. Creio interpretar bem o pensamento do Santo Padre se afirmo que “clerical” é o sacerdote que quer mandar, que dá ordens, que sempre sabe tudo, fechando-se sobre si mesmo sem deixar que outros colaborem na missão da Igreja. Clerical é o sacerdote fechado sobre si mesmo, em seus próprios horizontes, que não consulta, que não dá espaço aos outros, sobretudo aos leigos, nem reconhece o papel fundamental que têm na missão da Igreja. Às vezes, um sacerdote destes considera que pode dominar, sobretudo, os pobres e os ignorantes, e que pertence, de alguma maneira, a uma casta, e por esta razão atribui a si privilégios e poderes. O “clericalismo” prejudica os sacerdotes, porque distorce sua missão e prejudica os leigos, porque impede que cresçam como cristãos adultos.

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