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09 Janeiro 2014

Pouco antes de deixarem o Capitólio para o recesso de férias, os senadores democratas se reuniram a portas fechadas para estabelecer a agenda para 2014. Quando o líder da maioria, Harry Reid, exortou seus colegas a "lidar com a questão da desigualdade de renda", a conversa tomou um rumo espiritual.

A reportagem é de Sheryl Gay Stolberg, publicada no jornal The New York Times e reproduzido pelo Portal Uol, 07-01-2014.

"Vocês sabem", declarou Bernard Sanders, senador independente de Vermont, que se alinha com a bancada democrata, "nós temos um forte aliado do nosso lado nesta questão: o papa".

O fato de Sanders, que é judeu, ter invocado o papa para dialogar com Reid, que é mórmon, encantou os católicos apostólicos romanos presentes na sala ("Bernie! Você está citando o meu papa e isso é bom", se lembra de ter pensado na hora o senador Richard J. Durbin, de Illinois).

Além dessa brincadeira inter-religiosa, o comentário ressaltou uma verdade maior: vivendo a mais de 7.200 km de distância, no Vaticano, o papa Francisco, que cativou o mundo com uma mensagem de justiça econômica e tolerância, tornou-se uma presença no debate político de Washington.

À medida que os parlamentares retornam à capital norte-americana esta semana e lembram o 50º aniversário da declaração sobre a "guerra contra a pobreza", do presidente Lyndon B. Johnson, os democratas --grupo que inclui católicos cujas políticas os colocaram em desacordo com a conservadora hierarquia da Igreja-- estão encarando as palavras de Francisco como uma rara oportunidade de usar a força moral do papa para fazer avançar questões como a ampliação dos benefícios para os desempregados e o aumento do salário mínimo.

"Ele encorajou vários de nós que atuamos nas fileiras políticas e realmente nos deu o desafio de reforçar e lembrar muitos dos valores que nos levaram para a vida pública", disse Durbin.

A denúncia de Francisco sobre a "economia de exclusão" está no cerne do debate entre os dois partidos norte-americanos sobre o papel do governo. Democratas como Durbin e o presidente Barack Obama --cujo governo está enfrentando freiras católicas no Supremo Tribunal em relação a cláusulas de sua lei para a área de saúde que versam sobre o controle da natalidade-- citam o papa em discursos, usando as palavras do pontífice para reforçar suas posições. Por isso, os republicanos têm se sentido obrigados a justificar seus votos favoráveis aos cortes dos vales-refeição e dos subsídios para os desempregados enquanto tentam combater a percepção de que são indiferentes aos pobres.

Mas apesar de o papa ter causado um mal-estar entre os republicanos enquanto eles tentavam conciliar as críticas do pontífice ao capitalismo e às "teorias de redistribuição automática" (em inglês, "trickle-down theories", teorias segundo as quais o crescimento econômico é alcançável quando se permite o florescimento das empresas, deixando a prosperidade verter para a população de baixa e média renda, que se beneficiará com a crescente atividade econômica gerada) com seus pontos de vista sobre o livre mercado, alguns republicanos católicos viram uma oportunidade nas palavras de Francisco.

O deputado Paul D. Ryan, de Wisconsin, potencial candidato presidencial em 2016 e que fala da pobreza no contexto de sua fé, elogiou Francisco por "dar vida nova à luta contra a pobreza" e está trabalhando em um plano republicano para enfrentar o problema. Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos e que, atualmente, atua como um dos apresentadores do programa "Crossfire", da CNN, disse que iria falar mais sobre a pobreza em sua atração.

"Eu acho que todos os republicanos devem abraçar o ponto central da crítica feita pelo papa, que afirma que nós não desejamos viver em um planeta com bilionários e com pessoas que não têm o que comer", disse Gingrich. "Eu acredito que o papa pode, de fato, estar iniciando um diálogo no exato momento em que o próprio Partido Republicano precisa ter essa conversa."

Em muitos aspectos, as visões econômicas de Francisco estão alinhadas à doutrina da Igreja e aos pontos de vista dos papas anteriores, apesar de João Paulo ter falado mais sobre os benefícios do capitalismo no contexto de suas opiniões anticomunistas. Mas, com seu estilo humilde e suas observações espontâneas, acredita-se que Francisco esteja alterando a ênfase do tom da Igreja.

Ao minimizar questões como o aborto e o casamento homossexual, o papa também derrubou a ordem vigente em Washington, onde os conservadores há muito viam a Igreja como uma aliada.

Durbin, que frequentou escolas católicas, mas que, durante sua atuação como senador, mudou de paróquia para não ser impedido de comungar devido ao seu apoio ao aborto, já não se sente "sitiado pela liderança conservadora". O senador Patrick J. Leahy, democrata de Vermont, que atuou como coroinha desde a escola primária até a faculdade, disse que se sentiu "libertado" recentemente após proferir um discurso em um centro universitário sobre a vida intelectual católica e não ter tido que responder a nenhuma pergunta sobre o seu apoio ao aborto. Ele credita essa mudança de tom ao papa Francisco.

"Eu me senti muito aliviado", disse Leahy.

O papa Francisco é, obviamente, uma figura religiosa --e não um político--, e há muito que a fé tem se misturado de maneira desconfortável com a política na vida pública norte-americana. John F. Kennedy, o único presidente católico apostólico romano, se sentiu compelido, durante a corrida eleitoral, a prometer não aceitar nenhum palpite do papa. Hoje, com a poderosa força política dos cristãos evangélicos, especialmente entre os republicanos, falar de Deus durante as campanhas políticas é algo rotineiro.

Os católicos representam cerca de 24% dos eleitores norte-americanos. Para os candidatos que disputam a presidência, cortejá-los é essencial. Desde 1972, apenas um candidato à presidência, George W. Bush, conquistou a Casa Branca no ano 2000 sem ter obtido a maioria dos votos dos católicos.

Francisco colocou em prática seu próprio conselho, segundo o qual "um bom católico deve se meter em política". Seus muito divulgados comentários sobre a homossexualidade --"Quem sou eu para julgar?", disse o papa quando perguntado sobre os sacerdotes homossexuais-- levaram Sarah Palin, a candidata a vice do Partido Republicano durante a eleição presidencial de 2008, a dizer que Francisco parece "um tanto liberal". A deputada e líder democrata Nancy Pelosi, da Califórnia, que frequentou uma escola secundária católica exclusivamente para meninas em Baltimore, disse à CNN que, com sua mensagem de tolerância, "o papa está começando a soar como as freiras".

Os parlamentares católicos de ambos os partidos sabem que Francisco não está mudando a doutrina da igreja, o que inclui a manutenção da oposição ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. "Eu ainda não vi nada que se afaste da doutrina católica", disse o senador Patrick J. Toomey, republicano da Pensilvânia e conservador no tocante a temas econômicos.

Em novembro, Francisco emitiu uma exortação apostólica de 51 mil palavras, intitulada "Evangelii Gaudium" ("A Alegria do Evangelho"), em que condenou as "teorias de redistribuição automática" e a "ditadura" do livre mercado, que perpetuam a desigualdade --pontos de vista que alguns estudiosos atribuem a sua perspectiva como o primeiro papa latino-americano.

Obama citou a exortação em tom de aprovação em um discurso sobre a desigualdade, mas o radialista Rush Limbaugh prontamente acusou Francisco de vomitar "marxismo puro", deixando os círculos políticos conservadores de Washington em polvorosa.

"O que Francisco está dizendo toca a alma do partido", disse John Feehery, estrategista republicano que é católico. "No que o partido realmente acredita? Qual é o seu propósito? Será que sua finalidade é apenas fomentar o capitalismo desenfreado sem qualquer essência moral?"

Ryan, presidente da Comissão de Orçamento da Câmara, cuja proposta apresentada em 2012 para a realização de cortes em programas sociais atraiu críticas de bispos católicos, tentou responder a essa pergunta. Em um discurso intitulado "Livre iniciativa, fé e bem comum" ele argumentou que a livre iniciativa e o princípio católico da "subsidiariedade" --ou seja, lidar com as questões por meio de uma autoridade menos centralizada-- são capazes de combater a pobreza com mais eficiência do que um governo tentacular.

Quanto aos comentários de Francisco sobre as "teorias de redistribuição automática", Ryan disse ao "The Milwaukee Journal Sentinel" no mês passado: "o cara é da Argentina e eles nunca tiveram um capitalismo real na Argentina".

Para os democratas, as aparentes tendências progressistas do papa proporcionam um novo ponto de acesso aos eleitores católicos, que muitas vezes ajudam a entender como os norte-americanos de renda média votam. O voto católico é claramente passível de ser disputado: em 2012, Obama conseguiu atrair um número pouco maior de católicos do que Mitt Romney, cravando 50% contra os 48% obtidos por seu oponente.

Ainda assim, alguns parlamentares católicos parecem desconfortáveis e com medo de se apropriar de um líder religioso e assumi-lo como um dos seus.

"Eu não falo muito sobre o papa", disse o senador Joe Donnelly, um democrata novato de Indiana e que se graduou na Universidade de Notre Dame. "Ele não está lá para promover os republicanos nem para promover o Partido Democrata. Ele está lá simplesmente para pregar o Evangelho de Jesus Cristo e, dessa forma, o que tem que acontecer acontece naturalmente quando ele faz o seu trabalho."

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