Alguém está observando você! Artigo de João Ricardo Bittencourt

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31 Agosto 2013

"O ponto de virada é o ciberespaço cujo o modelo de mídia convencional foi rompido e descentralizado. O sujeito tanto é um consumidor quanto um produtor. E a pela facilidade e redução dos custos praticamente qualquer pessoa é um relator, um produtor de novos conteúdos, fatos e informações. Com grande facilidade na geração e na distribuição de novos signos. Logo, o conteúdo espalha-se em redes, em inúmeros formatos e se restrutura a cada compartilhamento nas redes sociais. Nesse modelo cabe ao sujeito fazer sua interpretação, sua recombinação. Agora os signos são criados, remixados e compartilhados. O grande exemplo são as manifestações ocorridas no Brasil, a chamada Revolução do Vinagre que articulou-se nas redes sociais, mexeu com as pessoas na discussão política, promoveu mudanças sociais e dialogou fortemente com a cultura de massas", escreve João Ricardo Bittencourtprofessor do curso de Jogos Digitais da Unisinos.

Eis o artigo.

A cada minuto milhares de informações são produzidas no mundo - vídeos, posts em blogs, postagens em redes sociais, tweets, podcasts são compartilhados no ciberespaço. Um acervo gigantesco de informações, de conteúdo produzidos de forma digital e não centralizada. Da mesma forma no espaço analógico, no mundo material, milhares de pessoas estão vivendo suas vidas, interagindo com outras pessoas - falando, ouvindo, tocando, movendo, sentindo. Uma infinidade de outros dados e informações produzidos de forma atômica, não digitalizada e extremamente numerosa. Isso considerando somente uma escala micro a vida de uma única pessoa, mas os sujeitos estão inseridos em sociedade, convivendo em sistemas sociais - suas famílias, escola, trabalho, clube, lojas, transporte coletivo. Cada sistema funcionando como um sujeito também consumindo e produzindo dados e informações.  Muito em breve teremos em nosso cotidiano dispositivos que irão fundir cada vez mais esses espaços seguindo a tendência do Google Glass, um óculos com câmera integrada e acionamento por comandos vocais, capaz de registrar os mínimos detalhes de nossa vida. A principal questão que surge é como inferir novos conhecimentos a partir dessa imensa quantidade de informações? Como obter novas visões, ampliar nossa compreensão do sujeito, dos grupos sociais em suma de toda uma sociedade a partir dessa massa de dados? E principalmente, sem ferir a privacidade, a individualidade do sujeito.

Em modelo de mídia convencional, unidirecional, seguindo o modelo produtor-consumidor os grandes broadcasters são os responsáveis pela seleção, organização e apresentação do conteúdo. As interrelações são dadas por cronistas, comentaristas e editores que traçam um painel, fazem um recorte da realidade. Sempre baseando-se em problemas coletivos que possam interessar um grupo n umero de pessoas. Sem dúvida, tal preceito baseado nas questões mercantis que necessitam vender seus jornais, telejornais e revistas. Assim, essa mídia convencional tornou-se a principal criadora de novos símbolos e signos que resignificaram a sociedade, muitas vezes ajudando a manter um status quo de classes dominantes. Tal modelo foi criado e estabelecido na era industrial, na formação de uma sociedade consumista e materialista.

O ponto de virada é o ciberespaço cujo o modelo de mídia convencional foi rompido e descentralizado. O sujeito tanto é um consumidor quanto um produtor. E a pela facilidade e redução dos custos praticamente qualquer pessoa é um relator, um produtor de novos conteúdos, fatos e informações. Com grande facilidade na geração e na distribuição de novos signos. Logo, o conteúdo espalha-se em redes, em inúmeros formatos e se restrutura a cada compartilhamento nas redes sociais. Nesse modelo cabe ao sujeito fazer sua interpretação, sua recombinação. Agora os signos são criados, remixados e compartilhados. O grande exemplo são as manifestações ocorridas no Brasil, a chamada Revolução do Vinagre que articulou-se nas redes sociais, mexeu com as pessoas na discussão política, promoveu mudanças sociais e dialogou fortemente com a cultura de massas. Frases de seriados, desenhos de personagens de quadrinhos, animes, filmes foram redesenhados em cartazes e foram reinscritos em memes e tumblers. Com conteúdos, signos estruturados é mais fácil de perceber esses movimentos, mas com os dados não estruturados, tácitos e implícitos que são gerados muitas vezes sem uma consciência, mas trata-se de informações emergentes oriundas do funcionamento dos sistemas, dos processos e dos sujeitos?

Em abril de 2013 realizamos no IHU durante o seminário que integra o XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções Tecnocientíficas, Culturas, Indivíduos e Sociedades o Painel TED sobre visualização de dados. No painel reunimos algumas palestras apresentadas durante o evento TED (palestras promovidas com grandes pesquisadores mundiais pela organização homônima com duração máxima de vinte minutos) que apresentam um olhar diferenciado perante a representação de grandes volumes de dados e a forma de inferir novos conhecimentos. O painel tinha como objetivo criar uma reflexão sobre a questão tecnológica sendo utilizada para representar os dados, tornar visível esse fluxo de informações invisível. Como que a tecnologia de dados está sendo utilizada para democratizar a compreensão de dados e permitir que o sujeito possa exercer sua recombinação, recriar sua rede de significados.

Iniciamos o painel com Deb Roy, um pesquisador indiano que atua no MIT e fez um experimento que em um primeiro momento é um tanto quanto perturbador em relação as questões de privacidade, mas percebe-se o quanto que podemos inferir conhecimentos de uma escala micro para uma escala macro. O Dr. Roy filmou durante o primeiro ano de seu filho todas as suas interações dentro de casa. Todas as peças da casa possuíam câmeras no teto gravando de forma ininterrupta. Com esses dados sonoros e visuais distribuídos pelo espaço (cada pedaço da casa) e pelo tempo (durante um ano) o grupo de pesquisa do Dr. Roy deseja inferir a gênese das palavras, como que o bebê produz suas primeiras palavras e qual a influência do espaço, das relações, dos signos dentro da casa nesse processo? Para isso a equipe necessitava transformar dados na forma de vídeo (imagens e sons) em outra forma de representação estruturada, uma forma de enxergar os mesmos dados de forma diferente para inferir novos conhecimentos. Dessa pesquisa, a equipe generalizou para mídia para verificar as relações no Twitter em função da programação da TV. Ficamos com uma sensação de um Grande Irmão, de George Orwell, naquela violação da nossa privacidade, mas ao mesmo tempo fascinados pelo fato de extrair dados tão íntimos uma massa de dados despersonalizada capaz de inferir fortes relações entre palavras, signos, espaço e tempo. Com conceitos aplicáveis em uma escala micro (uma residência) em uma escala macro (um país). Lembrem-se das inúmeras câmeras que estão espalhadas nas ruas? Como que estas imagens poderiam ser usadas?  Na série televisiva de ficção da CBS, Person of Interest, as câmeras estão sempre coletando dados para The Machine processar dados e prever possíveis ataques terroristas.

Depois demos continuidade com uma perspectiva de mídia com o jornalista David McCandless autor do livro Information is Beatiful. Ele é especializado em infográficos, faz um trabalho artesanal de design gráfico a partir de diferentes estatísticas de forma deixar mais fácil a compreensão das pessoas diante de dados complexos. Claro que apesar de um discurso de democratização e inclusão ainda segue um modelo unidirecional, pois tais materiais são criados por jornais, canais de TVs que desejam trazer sua perspectiva para alguma temática. De forma alguma minimiza a visão de McCandless em um papel de artesão de dados que propõe-se tornar o invisível tangível. Nesse painel, tem-se menos suporte tecnológico, mas apresenta o design informacional como a principal técnica de restruturação dos dados.

A terceira palestra de Hans Rosling, um médico sueco com uma grande experiência na África demonstra uma série de inferências econômicas, políticas e sociais usando seu software Gapminder. Fora de uma perspectiva micro, o Gapminder apresenta na forma de uma interessante animação de bolhas dados de estatísticas globais, tais como, a emissão de CO2 ao longo dos anos entre diferentes países. O professor utiliza o software basicamente para desconstruir mitos e apresentar um volume grande de informações de uma maneira mais didática, lúdica, ao invés de apresentar uma série de estatísticas. Essa palestra já retoma a questão do software como principal tecnologia de apoio e coloca as questões globais de forma simplificada para um público leigo. Alinha-se com o pensamento de McCandless em tornar bela a informação, uma preocupação estética, mas o Gapminder ainda fica restrito a uma base de dados e uma forma de visualização (balões).

As duas últimas palestras seguiram em uma linha das artes. Nathalie Miebach, artista plástica, cria esculturas e músicas com dados obtidos no centro meteorológico sobre tempestades. Ela cria uma representação simbólica e cinestésica de uma tempestade. Não é uma forma convencional, mas pode-se dizer que uma nova maneira de enxergar os dados, novamente serve para tornar tangível, no caso com uma experiência sensória mais rica (imagem, som, toque) uma coleção de dados. E a última palestra do painel foi do Chris Jordan um conceituado fotógrafo que cria grandes painéis fotográficos para gerar uma reflexão sobre os exageros da sociedade do consumo americana. Ambas palestras ligadas a arte e enfocando o aspecto da estética.

Ao término do painel diante dessas diferentes perspectivas para visualizar os dados retoma-se as questões iniciais - de que forma pode-se recriar, recombinar e apresentar os dados para sociedade? Tem-se uma preocupação em democratizar em tornar visível os dados e suas interrelações complexas. Coloca-se a pessoa no centro desse processo, no sentido que o mosaico de dados é criado tendo em vista o sujeito, como peça fundamental de inicio do processo (geração de dados) e final como consumidor destes dados processados. Amplia-se a compreensão do mundo, assim ajudando a sua recriação, recontação. O processo é retroalimentado. A questão essencial que ainda fica aberta para discussão é quem está organizando, fazendo este design informacional? Que ideologia pretende-se passar no momento de criar estes artefatos? Que forças isso tem no sentido de intensificar a experiência trazendo uma forte preocupação estética e de estranhamento, surpresa diante de novas descobertas? O desafio está em colocar o sujeito como esse artesão de dados, este capaz de experimentar e ver resultados, deixar que livremente percorra um caminho dedutivo. Existem algumas iniciativas modestas na utilização de jogos digitais na recriação de infográficos. É o caso do jogo Budget Hero criado pela American Public Media cujo jogador pode realocar fundos de diferentes categorias de orçamento (saúde, educação,..) alterando as projeções financeiras dos países. Os dados são visualizados como uma simulação gráfica interativa e a pessoa pode criar cenários e repensar na correlações existentes entre as variáveis.

É impossível não relembrar da definição de William Gibson do ciberespaço em sua obra Neuromancer - “uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de dados de todos os computadores do sistema humano.” Simplesmente a matrix! Podemos extrapolar este conceito pensando na ubiquidade, nas nossas relações com o mundo, interconectados com sensores, GPS e câmeras, produzindo e interligando mais dados. É como Pierre Lèvy conceitua o homem em simbiose com a máquina, contribuindo na criação de novas formas coletivas. Certamente isso amplia nossa reflexão além do aspecto estético da representação dos dados e refletimos sobre as implicações éticas do sujeito e na sociedade - como tais dados são coletados? de que maneira estes terabytes de áudio, vídeo e imagens são utilizados e publicados? Em época de Edward Snowden,  ex-agente da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos que denuncia que o  governo norte-americano monitoravam e-mails e também chamadas telefônicas com o pretexto de prevenção de atos terroristas, ficamos mais alertas. E se dessa vez nós que somos os bebês? Não seria o mesmo mote da série Person of Interest? Também é um uso da extração e visualização de dados, mas com violação das liberdades individuais, da privacidade. E quando o sujeito expõe sua atividade de forma uma deliberada também não trata-se de uma exacerbação da vaidade, da síndrome de uma fama estéril e volátil? 

Da mesma forma que não podemos esquecer de Jean Baudrillard quando afirma que a sociedade real tornou-se a simulação, os signos tomaram o lugar do real, ou seja, eles (os signos) são o real. Nesta rede semântica criada e recriada a cada instante passamos a ser máquinas produtoras de informações tecendo novas redes intangíveis. A tecnologia de visualização quando aplicada neste contexto passa a dar formas, dar novos significados para o fluxo informacional invisível. Mas quem dá o play desta simulação? Eis a questão. Em uma sociedade descentralizada, os teóricos da conspiração ficam mais confusos em achar o inimigo. Nossos somos os dados. Nossos átomos agora também são bits. E o sistema binário são zeros e uns, nesta nuvem de informações e sujeitos o bem e o mal estão mesclados. Também somos quânticos, o bem é o mal simultaneamente. Temos que ter bons olhos para enxergar o invisível cibernético.

Referências:

GIBSON, William. Neuromancer. 3. ed. São Paulo: Aleph, 2003. 303 p.

ORWELL, George. 1984. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 414 p.

LÉVY, Pierre. A máquina universo: criação, cognição e cultura informática. São Paulo: Artmed, 1998. 173 p.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simulações.Lisboa: Antropos, 1981. 201 p.

McCANDLESS, David. Information is Beatiful. [s.l]: Collins, 2010. 256 p.

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