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Por: Jonas | 25 Maio 2013

O que acontece com um corpo que ninguém quer? Durante o dia, os 22 painéis com as fotos dos desaparecidos da cidade de Mercedes continuaram levantados, protegendo a entrada do cemitério municipal. A abóboda dos Videla convive aí dentro, com os restos mortais recuperados de Stella Maris Bojorge, desaparecida no dia 2 de julho de 1977; com os de Carmen María Carnaghi, sequestrada no dia 4 de agosto de 1976, e de Rosa Haydée Cirullo de Carnaghi, levada nesse mesmo dia. Aí, também estão os três padres palotinos assassinados no massacre de San Patricio: Pedro Daffau, Alfredo Leaden e Alfredo Kelly.

As notícias sobre a possível chegada, em Mercedes, de Jorge Rafael Videla, foram várias vezes confirmadas e desmentidas ao longo do dia. Como no sepulcro onde está o seu pai já não tem lugar, especulava-se que colocariam um cavalete para fazer entrar o cadáver do ditador. Às sete da noite, quando o cemitério fechou as portas, o corpo ainda não tinha chegado. Neste momento, a praça central da cidade congregou as organizações políticas e os moradores que se reuniram para repudiá-lo. Uma mulher escreveu em um cartaz: “Nem vivo, nem morto”, dizia: “Que não descanse em paz”.

A reportagem é de Alejandra Dandan, publicada no jornal Página/12, 23-05-2013. A tradução é do Cepat.

Um pouco adiante, na praça, reuniram-se os três irmãos de Stella Maris: Patricia, Marcelo e Arturo Bojorge. Os ossos de Stella Maris reapareceram no dia 8 de março de 2008, após uma impressionante busca de sua família. “Uma pessoa que matou trinta mil companheiros, não pode descansar em paz”, disse Marcelo.

A marcha conseguiu nuclear a todas as organizações políticas, após um longo debate. Estavam presentes a Frente Mercedino para la Victoria, La Cámpora, o PJ, mas também o Partido Socialista, o Partido Comunista, a UCR, o PO, o MST, o GEN, a CTA e a Coalizão Cívica, entre outras organizações. Muitas dessas organizações mantêm posições diferentes em torno da questão sobre o que fazer com o corpo do homem que ninguém quer. Mesmo assim, assinaram um documento em comum, com as linhas nas quais comungavam. E o documento foi a peça política lida durante o ato.

“Frente à morte do ditador Jorge Rafael Videla, nós, o conjunto de forças políticas, sociais e culturais, decidimos convocar o mais urgente possível uma reunião, da qual surgiu uma atividade em conjunto”, disseram. “Nós, os diferentes participantes, fomos apresentando as visões de cada um e, para manter a unidade na ação, foi decidido realizar o presente ato com uma mensagem clara e concisa: diante da morte do ditador e genocida, Jorge Videla, convocamos para um encontro de repúdio à sua figura e seu significado”. E acrescentaram em voz alta: “Estamos aqui para reforçar a ideia da democracia. Para além das diferenças políticas e estratégicas de cada grupo, todos nós viemos porque precisamos dizer Jorge Rafael Videla Nunca Mais”.

“A família de Videla receberá o corpo, não interpôs habeas corpus, não recorreu a instituições procurando o seu destino, seu corpo não foi jogado de um avião, não foi enterrado numa fossa comum. Houve um julgamento justo. Contou com muita informação e não foi torturado como os desaparecidos. Seus familiares decidem enterrar o corpo em Mercedes, nós vamos continuar trabalhando pela memória, verdade e justiça, retomando a bandeira dos desaparecidos”, disse Juan Ignacio Ustarroz, irmão de Wado De Pedro, filho de Lucila Révora De Pedro, desaparecida no dia 11 de outubro de 1978.

Mercedes é uma cidade que ainda hoje pensa em termos de povoado pequeno. Beatriz chegou cedo, sozinha e sem bandeiras na praça. “Não se concorda que tragam este assassino para Mercedes, não o queremos”. Próximos dela, numa esquina, outra vez, estavam os cartazes dos desaparecidos. “Todas estas pessoas eram nossos vizinhos, todos conhecidos, das famílias conhecidas de Mercedes... E, naquele momento, estávamos contentes porque tínhamos um presidente! Eu sempre me pergunto o que ocorreu conosco naquele momento. Jamais me pararam na rua, mas à medida que foi sendo descoberto isto... Como vão trazer os restos mortais de uma pessoa que não é desejável aqui?”

Durante a ditadura, a cidade de Mercedes declarou Videla um Cidadão Ilustre. Depois de uma tentativa falida, em 1998, a Comissão de Familiares e Amigos dos Desaparecidos conseguiu impulsionar um novo projeto, no Conselho Deliberador, que o declarou cidadão indesejável, junto com Emilio Massera. Até 1992, na cidade funcionou esse suporte de poder que deu vida aos Videla: a sede do Regimento 6, comandado pelo pai de Videla e, anos mais tarde, por Reynaldo Benito Bignone.

Javier Casaretto, dos detidos-desaparecidos, e sobrevivente, costuma dizer que esta é a cidade dos paradoxos. O lugar onde nasceu Videla, também o lugar de Orlando Agosti e Julio César Caserotto, o homem que abrigou a maternidade clandestina do Campo de Maio. Por sua vez, foi o lugar de Adolfo Servando Tortolo, refúgio de Raúl Guglielminetti e território desses exagerados 22 desaparecidos, a maioria militante da JP.

“Mercedes esteve muito sonolenta, tivemos Videla, Agosti, Caserotto e, em geral, é um lugar inerte e ortodoxo”, disse Mariana San Martín, de La Cámpora. Nesse momento, a pergunta que surgia era a respeito do que cada um pensava que era necessário fazer com o corpo. Os acordos no documento não incluíram esse ponto, pois as posturas são distintas. “Manifestamo-nos contra Videla, mas toda pessoa merece um enterro”, explicaram por La Cámpora. No espaço do MST, uma bandeira dizia: “Videla aqui Não”. Vilma Ripoll esteve presente: “Junto aos desaparecidos não – expressava seu lema -, que o enterrem no Exército”.

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