Francisco e o risco das expectativas superaquecidas

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29 Abril 2013

Apesar da impressão popular de que o Papa Francisco representa uma forte ruptura com o passado, quem se lembra dos primeiros dias do papado de Bento XVI não podem deixar de se impressionar com alguns paralelos óbvios com o que vimos ao longo do mês passado.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 26-04-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

À época assim como agora, as pessoas estavam falando sobre uma desmistificação do papado. Bento XVI apareceu celebremente na sacada da Praça de São Pedro ainda vestindo um suéter preto comum sob as suas novas vestes e se declarou "um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor".

Pouco depois da sua eleição, Bento XVI passou pelo seu antigo apartamento na Piazza Leonina, em Roma, para empacotar os seus pertences. A residência fica no mesmo andar de outros três cardeais, e, quando ele saiu, o papa tocou as suas campainhas para agradecer as assustadas religiosas que atuavam como empregadas da casa por serem tão boas vizinhas.

Os gestos pareciam evidenciar uma pessoa comum que não permitia que o seu novo papel sobrepujasse a sua humanidade.

À época assim como agora, o novo papa também se moveu rapidamente para ratificar um desejo manifestado durante as Congregações gerais dos cardeais antes do conclave. Hoje, Francisco criou um órgão consultivo de oito cardeais de todo o mundo para fomentar uma melhor colaboração com as Igrejas locais; oito anos atrás, Bento XVI agiu a partir de um abaixo-assinado para dispensar o período normal de espera para abrir o processo de beatificação de João Paulo II.

Em ambos os casos, o novo papa entendeu estar realizando um ato colegial com base no que os cardeais que o elegeram disseram que queriam.

À luz dessas e de outras semelhanças, não podemos deixar de pensar se Francisco também irá se deparar com outro paralelo do período inicial do papado de Bento XVI: o risco das expectativas superaquecidas.

Oito anos atrás, a empolgação com o novo papa era mais febril em certos setores da direita católica, muitos dos quais profetizavam uma nova era de clareza doutrinal, disciplina eclesial e uma "reforma da reforma" litúrgica.

Pouco tempo depois, Bento XVI provou ser gradual demais e restrito demais para alguns dos primeiros entusiastas. Menos de um ano no papado, o padre Richard John Neuhaus (que morreu em janeiro de 2009) deu voz celebremente ao que ele chamou de "mal-estar palpável", pois o papa não estava colocando nenhuma força real por trás das suas posições doutrinais, permitindo que a discordância e a desobediência ocorressem basicamente sem freios.

Hoje, os conservadores da Igreja não são os mais encantados com o novo papa. Na verdade, alguns estão abertamente alarmados.

No dia 19 de abril, o liturgista italiano Mattia Rossi publicou um artigo no jornal Il Foglio, sugerindo que a decisão de Francisco de convocar um órgão consultivo de cardeais representa um passo na direção da "demolição do papado", porque isso substitui a noção de uma autoridade divinamente instituída por um conceito difuso de colegialidade, transformando o papado, assim, de acordo com Rossi, de primus super pares para primus inter pares.

Para aqueles que acompanham as questões italianas, Rossi realmente chama o que Francisco está fazendo de uma forma de "grillismo vaticano", referindo-se à insurreição populista antiestablishment liderada pelo ex-comediante e blogueiro italiano Beppe Grillo, que abalou a cena política do país há meses. (Rossi ironicamente perguntou se esses cardeais que supostamente deveriam reformar a Cúria conseguiriam ao menos encontrar o lugar onde ficam os banheiros.)

No outro extremo do espectro católico, os liberais podem se sentir mais simpáticos com Francisco do que com qualquer outro dos seus antecessores imediatos, mas eles estão inoculados pelas expectativas superaquecidas de qualquer papa por causa da sua pobre visão sobre os hierarcas.

Os moderados do rebanho católico, no entanto, parecem quase tontos de entusiasmo, e é aí que o perigo das expectativas exageradas é mais agudo.

Os defensores da desativação das guerras culturais contra o casamento gay se sentiram encorajados a se pronunciar em favor das uniões civis, por exemplo, sabendo que o então cardeal Jorge Mario Bergoglio tomou uma linha semelhante quando era arcebispo de Buenos Aires, na Argentina. Os ecumenistas estão falando abertamente sobre as esperanças de um grande salto rumo à unidade cristã, pois eles acreditam que a "nova forma" de exercer o papado falada por João Paulo II, na Ut unum sint de 1995, está se tornando visível com Francisco.

Os defensores de uma maior colegialidade na Igreja estão prevendo que Francisco finalmente vai trazer a descentralização de poder tão alardeada e aprovada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Os defensores da teologia da libertação e da opção pelos pobres ficaram entusiasmados com praticamente tudo – incluindo, mais recentemente, a notícia de que Francisco "desbloqueou" o caminho para a beatificação do arcebispo Oscar Romero, de El Salvador.

Altas expectativas semelhantes cercam a relação de Francisco com as religiosas, incluindo o fim da visitação do Vaticano às irmãs norte-americanas e a investigação da Leadership Conference of Women Religious por parte da Congregação doutrinal. Por todas as partes, o que se ouve nestes dias por parte dos moderados simpáticos às religiosas é "dê-lhe tempo" – em que a sugestão implícita é de que ele, no fim, vai fazer as coisas direito.

(Como nota de rodapé, diz-se que Francisco provavelmente irá se encontrar com a União Internacional das Superioras Gerais, o grupo que congrega as ordens femininas, quando elas se reunirão em Roma no início de maio. Seria o seu primeiro encontro oficial com as religiosas desde que tomou posse e, potencialmente, um importante sinal das coisas que estão por vir.)

Francisco pode muito bem tomar medidas em todas essas frentes, e os sinais de mudança estão claramente no ar.

Na semana passada, o cardeal Francesco Coccopalmerio, presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, lançou a ideia de nomear um "moderador da Cúria", que poderia apoiar e coordenar o trabalho dos vários departamentos do Vaticano, tentando conter a sua tendência a duplicar esforços e trabalhar com objetivos cruzados. Alguns gostam da ideia, embora outros se perguntem qual seria a diferença com as funções tradicionalmente desempenhadas pelo sostituto, ou seja, o "substituto" da Secretaria de Estado.

Independentemente do que venha a surgir a partir da proposta de Coccopalmerio, ela diz que os infiltrados veteranos parecem estar tentando chegar antes da reforma, ao invés de resistir a ela.

No entanto, é uma questão em aberto se Francisco vai se mover rápido o suficiente e longe o suficiente para satisfazer os moderados mais exaltados pela sua eleição e aqueles que já projetaram um conjunto bastante elaborado de esperanças e de sonhos sobre o seu pontificado embrionário.

A verdade é que, em alguns aspectos, é surpreendente que a prudência ainda não se estabeleceu.

Na sua primeira homilia, na missa celebrada com os cardeais na Capela Sistina, um dia depois da sua eleição, Francisco citou o romancista francês Léon Bloy: "Quem não reza para o Senhor reza para o diabo". Se alguém quisesse, essa frase poderia ter sido vista como espetacularmente insensível aos não cristãos. Se tivesse sido um papa que assumiu o cargo trazendo a bagagem de ser o "Rottweiler de Deus" em vez de um homem que já estava atraindo aplausos da crítica pela sua humildade e simplicidade, não é difícil imaginar os contratempos que teriam se seguido.

Na terça-feira, Francisco celebrou a missa na Capela Paulina por causa do dia do seu nome, a festa de São Jorge, e incluiu esta frase: "Não é possível encontrar Jesus fora da Igreja". Mais uma vez, é fácil imaginar o que isso teria desencadeado se fosse Bento XVI.

Na realidade, é improvável que na maior parte das questões de fé e de moral Francisco represente qualquer verdadeiro distanciamento de João Paulo II ou de Bento XVI, e mais cedo ou mais tarde ele provavelmente irá atrair as mesmas reações mistas, mesmo que o desapontamento mais intenso no seu caso venha do outro lado.

O padre capuchinho William Henn insinuou para esse perigo no dia 19 de abril, durante uma mesa redonda sobre Francisco na marca de um mês de papado, em um evento promovido pela universidade jesuíta Gregoriana de Roma. Henn foi convidado a dizer algumas palavras sobre a reação nos Estados Unidos e ofereceu a visão de que a humildade do novo papa se sai bem com os instintos igualitários dos norte-americanos.

Henn, depois, acrescentou uma nota de cautela: "Naturalmente, a sua doutrina sobre as diferentes questões será fiel ao ensinamento oficial da Igreja Católica nos últimos anos, e isso não será bem aceito pela imprensa e por alguns setores da sociedade, ou mesmo por alguns grupos dentro da própria Igreja".

É desnecessário dizer que dificilmente essa cautela se aplica apenas aos Estados Unidos.

Quando a marca de um ano de papado de Francisco chegar, será interessante ver se irá surgir um Neuhaus entre os moderados, questionado aonde a promessa inicial foi parar. Se assim for, pode ser a hora de Francisco ir ver Bento XVI novamente, para falar sobre o que eles acham mais frustrante: as farpas dos seus críticos ou o entusiasmo dos seus amigos.

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