“As neurociências não entendem a base última do pensamento”, constata Fabián Ludueña Romandini

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Por: Jonas | 29 Janeiro 2013

Em “Más allá del principio antrópico” [Para além do princípio antrópico], o ensaísta Fabián Ludueña Romandini explora uma declaração contrária ao fim da metafísica, que boa parte da filosofia contemporânea expressa, exercitada na passagem do humanismo às neurociências, genética e política de populações convertidas, na atualidade, em biopolítica.

O livro publicado pela casa “Prometeo”, é uma crítica ao diagnóstico que certo pensamento do século passado fez de nossa época, considerada como a da consumação da metafísica e da transparência ontológica e mediática.

Ludueña Romandini é doutor pela Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales de Paris; é pesquisador do Conicet [Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas] e do Instituto de Pesquisas Gino Germani, da Universidade de Buenos Aires (UBA); é autor de “Homo Oeconomicus: Marsilio Ficino, la teología y los misterios paganos” e “La comunidade de los espectros I: Antropotecnia”.

A entrevista é de Pablo E. Chacón e publicada no sítio Télam, 18-01-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Para dispor um tipo de arqueologia do “princípio antrópico”, como este se relaciona com a biopolítica? Seria melhor que você definisse “princípio antrópico”, primeiramente.

O princípio antrópico busca pensar aquilo que a crítica do antropocentrismo – própria da filosofia continental europeia do século XX – não chegou a aprofundar. Ou seja, é possível assumir uma posição não antropocêntrica, mas permanecendo ainda dentro de uma posição antrópica, na medida em que se pensa o mundo como habitat necessário do humano e, a fortiori, da vida enquanto tal.

Desta forma, o princípio antrópico não procura estabelecer uma relação com a biopolítica, posto que, precisamente, a filosofia assume como tarefa pensar aquilo que está antes e depois da vida. É claro, isto não significa que a filosofia não deva pensar a vida, mas sim que é necessário fazer isto sobre bases não antrópicas, o que implica dois teoremas como ponto de partida: o primeiro é que a vida não é o fundamento último sobre o qual deve descansar o eixo do pensar ontológico; e o segundo implica no fato de que existe uma filosofia daquilo que vem primeiro e depois da vida. Estes teoremas possuem o corolário de indicar que a filosofia não deve se reduzir a ser unicamente um pensamento do vivente.

Por que você acredita que Foucault, que coloca sobre a mesa o conceito de “biopolítica”, não segue pesquisando essa rota e em certo momento, quando dá o passo para “o cuidado de si”, expressa que o que tinha para dizer a respeito já está – esboçado – em “Vigiar e punir”?

Se Foucault disse isto, deve estar certo. O mais interessante é que não somos obrigados a seguir seu próprio critério. De fato, pode nos parecer de todo insuficiente o apresentado por Foucault em “Vigiar e punir” e nos sentirmos incitados a nos aprofundarmos na noção de biopolítica (que, nunca é demais recordar, não foi inventada por Foucault) para nossos próprios usos. É a melhor maneira de ser foucaultianos.

Quem parece conseguir se sobressair disso é Toni Negri, que reconhece na multidão um vácuo, uma possibilidade de associação comunista (não stalinista) que resista à biopolítica entendida como uma varredura total da vida, morte, saúde, enfermidade, etc.?

Bom, pessoalmente não acredito que a posição de Negri escape de algumas aporias contidas no conceito de biopolítica. A própria “multidão” não deixa de ser uma recriação, mais ou menos acentuada, de um básico conceito cristão da época de redação e propagação dos evangelhos. Seu objetivo, sem dúvida louvável, de impedir que a vida seja objeto de uma completa apropriação econômica (e de uma técnica exclusivamente a serviço da produtividade) deve ser apoiado. Os meios conceituais para chegar a isto, no entanto, parece-me que merecem uma discussão ainda mais extensa e complexa.

A “pedagogia” platônica, princípio ativo da educação das massas, ignora a existência do inconsciente ou acaba esmagando os sujeitos em suas necessidades mais elementares?

Antes da descoberta do inconsciente (Jacques Lacan sabia muito bem disto) as pessoas se gerenciavam de igual forma. De outra maneira, é claro, os filósofos fizeram o possível para adentrar, com métodos às vezes refinados, por vezes insuficientes, no terreno do gozo. Contudo, depois de Freud, as coisas já não podem ser pensadas do mesmo modo. Neste sentido, o inconsciente é a evidente demonstração de que todas as neurociências e as terapias comportamentais, no último extremo, não compreenderam que a base última do pensamento (e de seu abismo originário) se encontra, precisamente, fora de qualquer estrutura biológica.

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