Cristãos dizimados pela guerra: ''Permaneceremos aqui na Síria até o martírio''

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13 Dezembro 2012

Encontramos o padre Francesco na cova do lobo, em um porão cheio de fumaça, onde, entre um turno de guarda e outro, se espremem os combatentes muito jovens do Exército Sírio Livre, novos donos da cidade. Dirigindo-se a eles para pedir comida e lenha para distribuir para o seu povo, o religioso usa o mesmo tom mórbido e convincente com o qual, um pouco mais tarde, dirá a missa na Igreja da Assunção de Ghessanie, cidadezinha conquistada pelos rebeldes há um mês, e desde então cotidianamente bombardeada pelas tropas do regime de Damasco, situadas a menos de um quilômetro daqui.

A reportagem é de Pietro del Re, publicada no jornal La Repubblica, 11-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os insurgentes parecem intimidados pelo religioso, porque ele tem a idade dos seus pais, mas também por causa da aura de pobreza e de mística que o envolve e que é acentuada pelo hábito e pelo casaco puído que ele veste.

Sobre eles, falando em um italiano sem sotaque, apesar de ter nascido nas alturas de Golã, quando estas ainda eram sírias, o padre Francesco diz: "São bons rapazes, que nos ajudam como podem, demonstrando-nos continuamente a sua gentileza. Não é verdade, como alguns afirmam, que a Síria está dividida pelas minorias. Pensar nisso reforça a propaganda que desencadeou a guerra civil".

Justamente para romper essa propaganda, os insurgentes tratam com todo o respeito o padre Francesco e os poucos cristãos que permaneceram em Ghessanie, que dista cerca de 60 quilômetros de Aleppo e que tem três igrejas: uma católica, uma greco-ortodoxa e uma protestante.

Os insurgentes querem demonstrar que não são "terroristas", como o regime os retrata, e que, caso vencessem, cristãos, drusos, alauítas e sunitas voltariam a conviver pacificamente. Por isso, tudo deve correr bem, porque em Ghessanie a convivência entre fés diferentes pode prenunciar o futuro da Síria.

"Eles gostariam de frear a fuga dos habitantes para as grandes cidades, mas aqui as pessoas estão aterrorizadas pelas bombas que chovem em cima de nós, pelos homens armados, pela guerra", explica o padre Francesco.

Às vezes, o medo parece brilhar também no olhar desse homem da Igreja, um ex-franciscano que afirma ter uma "espiritualidade cada vez mais beneditina". Nos seus olhos, transparece às vezes o temor de que amanhã as coisas de repente possam piorar.

Mas quando lhe perguntamos se ele vive com medo e com ansiedade, como é justo que seja, a resposta dada é a do padre, não do homem: "Eu tenho fé em Cristo, por isso não tenho medo. Se o Senhor quer a minha morte, aceitarei isso também. E enquanto aqui restar apenas um só cristão, eu permanecerei com ele".

Ghessanie pertence àquela Síria rural onde o terrorismo islâmico não prospera e onde os soldados do Exército Sírio Livre são todos agricultores ou artesãos ou estudantes dos vilarejos vizinhos. Pode-se reconhecê-los pelos rostos limpos, pela sua cortesia gentil, pelo fato de que não deixam de nos agradecer por termos vindo até aqui para contar a sua revolta.

"Você sabe qual é o fardo mais pesado destes dias escuros? É a incerteza", continua o padre Francesco. Quando os insurgentes tomaram Ghessanie, alguns facínoras quebraram uma cruz e algumas estátuas da Virgem no jardim da igreja. "Mas é um episódio que eu já esqueci", minimiza o padre, explicando que, depois do incidente, ele mesmo foi falar com o capitão da brigada e, desde então, nada do tipo se repetiu.

"Todos os dias eu digo a missa às quatro da tarde, com as portas abertas, e nunca tive nenhum problema".

Das três mil pessoas que viviam na cidade antes da eclosão da revolução, permaneceu apenas uma dezena de famílias, a maioria católicas. Quando tentamos falar com os poucos sobreviventes, eles se mostram suspeitos, porque, como nos diz o padre Francesco, eles temem pelos seus filhos que agora vivem nas áreas ainda controladas pelo regime.

"Eles sabem que uma palavra demais pode lhes custar a prisão e até tortura. E também sabem que, se hoje estão protegidos da repressão, os seus entes queridos, que emigraram para Aleppo ou Damasco, não estão mais".

Com o avanço gradual dos insurgentes, Ghessanie é apenas um caso entre muitos. Se em Hasake, no norte, os cristãos pediram que o Exército Sírio Livre não entrasse, por medo das represálias aéreas do regime, em Yabrub, a uma centena de quilômetros de Damasco, eles até combateram ao lado dos salafistas, confraternizando com eles.

No entanto, observando o terror mal disfarçado dos católicos que ainda residem em Ghessanie, perguntamo-nos se eles não são obrigados a fingir que está tudo bem. E nasce a dúvida sobre se eles ainda não fugiram apenas para não perder casa e igreja. Por parte dos insurgentes, ao contrário, há a indubitável vontade de mostrar o lado mais virtuoso da revolta.

Por enquanto, graças ao tecido social inter-religioso típico da Síria, principalmente da zona rural, a convivência funciona.

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