Fé e política. Entrevista com Barack Obama e Mitt Romney

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23 Agosto 2012

O presidente negro e o desafiante mórmon. O lado mais retraído dos EUA ainda suspeita que Barack Hussein Obama esconde a sua verdadeira fé muçulmana. Mas o lado mais tolerante dos EUA olha com desconfiança para aquele Mitt Romney que ostenta uma religião liquidada, muitas vezes vista como seita.

A questão é tão ardente que os adversários raramente aceitam falar sobre isso. Mas o fizeram para a Cathedral Age, a revista da Catedral Nacional de Washington, igreja-símbolo da unidade nacional, na primeira entrevista de uma série que irá apresentar reflexões sobre a fé nos EUA, a partir de proeminentes líderes do pensamento e indivíduos de diferentes origens ou perspectivas religiosas.

Publicamos aqui a íntegra da entrevista, da edição do verão de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para esta edição, o presidente Barack Obama e o governador Mitt Romney receberam um conjunto idêntico de perguntas e tiveram a oportunidade de responder livremente.

Eis a entrevista.

Qual o papel da fé na sua vida?


Obama – Primeiro e acima de tudo, a minha fé cristã me dá uma perspectiva e uma segurança que eu acho que não teria de outra forma: que eu sou amado. Que, no fim das contas, Deus está no controle – e minha principal responsabilidade é amar a Deus com todo o meu coração, alma e mente, e amar o meu próximo como a mim mesmo. Agora, eu nem sempre vivo de acordo com esse padrão, mas é um padrão que eu estou sempre buscando.

A minha fé também é uma grande fonte de conforto para mim. Eu já disse antes que a minha fé cresceu como presidente. Esse ofício tende a fazer com que a pessoa reze mais, e, como disse o presidente Lincoln uma vez, "eu fui levado a me ajoelhar muitas vezes pela irresistível convicção de que não tinha outra coisa a fazer".

Finalmente, eu tento ter a certeza de que a minha fé dá forma ao modo como eu vivo a minha vida. Como marido, como pai e como presidente, a minha fé me ajuda a manter meus olhos no prêmio e a me focar no que é bom e verdadeiramente importante.

Romney – A fé é parte integrante da minha vida. Eu tenho servido como pastor leigo na minha Igreja. Eu sigo fielmente os seus preceitos. Ensinaram-me em minha casa a honrar a Deus e a amar o meu próximo. Meu pai estava comprometido com a causa da igualdade de Martin Luther King Jr., e eu vi os meus pais prestarem cuidados compassivos aos outros, de forma pessoal a pessoas próximas e liderando movimentos voluntários nacionais. Minha fé está baseada na convicção de que uma consequência da nossa humanidade comum é a nossa responsabilidade uns pelos outros – aos nossos companheiros norte-americanos acima de tudo, mas também a todo filho e a toda filha de Deus.

Você tem passagens bíblicas, orações ou outras palavras de sabedoria favoritas às quais costuma recorrer?

Romney – Eu sempre fico comovido com as palavras do Senhor em Mateus: "Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar" (Mateus 25, 35-36).

Obama – Eu tenho, sim, algumas favoritas. Isaías 40, 31 tem sido uma grande fonte de encorajamento na minha vida, e eu a cito frequentemente. O Salmo 46 também é importante para mim. Eu o escolhi para ler no 10º aniversário do 11 de setembro. A Oração da Serenidade de Niebuhr também é muito boa.

Eu também fui abençoado em receber um devocional diário do meu conselheiro de fé, Joshua DuBois, que me envia a Escritura ou pensamentos de pessoas como C. S. Lewis ou Howard Thurman todas as manhãs.

Como você vê o papel da fé na vida pública?

Obama – Há muitas maneiras de abordar essa questão, mas dois aspectos claros do papel da fé na vida pública vêm à mente imediatamente. Primeiro, a fé sempre proporcionou um marco e um vocabulário morais para este país para chegar a termo com os seus desafios mais prementes. Uma das grandes coisas sobre esta nação é que ela é um lugar onde as pessoas de todas as esferas da vida podem advogar em nome da sua fé e das suas crenças, e estar abertas ao que as impulsiona e motiva.

Da escravidão ao movimento sufragista, passando pelos direitos civis, a fé – e as obrigações morais que derivam da nossa fé – sempre nos ajudou a navegar por alguns dos nossos maiores desafios morais com um reconhecimento de que há algo maior do que nós mesmos: temos obrigações que vão além do nosso próprio autointeresse. Enfrentamos grandes desafios neste país e estamos chegando ao ponto em que decidiremos se estamos realmente juntos nessa, ou se cada indivíduo deve apenas lutar pelo que melhor lhe serve. Para mim, e eu penso que para muitos outros norte-americanos, a fé nos diz que há algo sobre este mundo que une o nosso interesse pelo bem-estar de uma criança que não pode receber os cuidados de saúde de que precisa, ou por um pai que não consegue encontrar trabalho depois do fechamento da fábrica, ou por uma família que passa fome.

Em segundo lugar, a fé motiva as pessoas a fazer um trabalho incrivelmente compassivo e bom que ajuda a nossa nação a prosperar. Ora, eu estive familiarizado com isso por um longo tempo. Um dos meus primeiros empregos foi como organizador comunitário, em que eu fui financiado por uma doação da Igreja Católica para ajudar as famílias no South Side de Chicago, que estavam lutando após o fechamento da siderúrgica local. Mas eu devo dizer que isso se tornou ainda mais real para mim durante o meu tempo como presidente. Através das cartas que eu li de indivíduos cuja fé os levou a servir em Joplin ou em Colorado Springs logo após um desastre natural, e do trabalho do meu escritório religioso (que tem feito um trabalho incrível para fortalecer as parcerias entre o governo federal e as organizações religiosas sem fins lucrativos para servir os necessitados), agora, mais do que nunca, está evidente como a fé integral é um fator de motivação para grande parte do que mantém o nosso país seguindo em frente.

Romney – Devemos reconhecer o Criador, como fizeram os Fundadores – em cerimônia e em palavra. Ele deve permanecer na nossa moeda, no nosso compromisso, no ensino da nossa história, e, durante a temporada de férias, os presépios e as menorás devem ser bem-vindos em nossos locais públicos. A nossa grandeza não duraria por muito tempo sem juízes que respeitam o fundamento da fé sobre o qual repousa a nossa Constituição.

Como um país de grande diversidade e divisão religiosas, como a fé pode desempenhar um papel na unificação dos Estados Unidos?

Romney – Eu acredito que, embora sejamos um país com tantas diferenças em credo e em teologia, todos nós podemos nos encontrar no serviço e na partilha de convicções morais sobre a nossa nação, decorrentes de uma visão de mundo comum.

Obama – A fé nos permite saber que existe algo maior do que nós mesmos e que requer um certo compromisso básico uns pelos outros. Este país tem uma rica tradição em tentar criar um ambiente em que pessoas de diferentes crenças podem viver juntas e compartilhar objetivos comuns. Como norte-americanos, penso que compreendemos que – ao proteger a nossa capacidade de defender as nossas próprias posições – temos que proteger a capacidade daqueles que vêm de diferentes origens e crenças a fazer o mesmo também. A fé exige que vejamos a imagem de Deus uns nos outros e a respeitemos.

Algumas pessoas questionaram a sinceridade da sua fé e do seu cristianismo. Como você responde a essas perguntas?

Obama – Eu falei um pouco sobre isso no National Prayer Breakfast do ano passado. Você sabe, não há muito que eu possa fazer a respeito. Eu tenho um trabalho a fazer como presidente, e isso não envolve convencer as pessoas de que a minha fé em Jesus é legítima e real. Eu faço o meu melhor para viver a minha fé, e para permanecer na Palavra, e para fazer com que a minha vida pareça mais com a Sua. Eu não sou perfeito. O que eu posso fazer é apenas continuar seguindo-O e servir aos outros – tentando tornar a vida das pessoas um pouco melhor usando essa humilde posição em que me encontro.

Romney – Muitas vezes me perguntam sobre a minha fé e sobre as minhas crenças em Jesus Cristo. Eu acredito que Jesus Cristo é o Filho de Deus e o Salvador da humanidade. Toda religião tem as suas próprias doutrinas e histórias únicas. Estas não devem ser as bases para a crítica, mas sim um teste para a nossa tolerância. A tolerância religiosa seria um princípio raso, de fato, se fosse reservado apenas para as fés com as quais concordamos.

O que a fé de um/a líder político/a fala sobre ele/ela como pessoa?

Romney – A fé de um líder político pode nos dizer muito ou nada. Então, depende muito do que está por trás dessa fé. E depende muito das ações, não das palavras. Talvez a questão mais importante a se perguntar a uma pessoa de fé que busca um cargo político é se ele ou ela compartilha estes valores norte-americanos: a igualdade da humanidade, a obrigação de servir uns aos outros e um firme compromisso com a liberdade. Eles não são exclusivos a nenhuma denominação. Eles pertencem à grande herança moral que temos em comum. Eles são a base sólida sobre a qual os norte-americanos de fés diferentes se encontram e se situam como nação, unidos.

Obama – A fé pode se expressar nas pessoas de muitas maneiras, e eu acho que é importante que não façamos da fé apenas um barômetro do valor, da importância ou do caráter de uma pessoa. Eu diria que, muitas vezes, a fé pode servir como um impulso, ou mesmo uma razão em si mesma, para ver as questões a partir apenas da perspectiva do nosso próprio avanço pessoal. Há uma espécie de altruísmo que muitas vezes deriva da fé que eu considero como uma força poderosa para o bem.

Eu não concordo com o ex-presidente George W. Bush em muitas questões, mas eu o respeito como um bom marido, como um pai amoroso e como um homem de fé. Eu não sei como ele teria abordado a questão da reforma da imigração ou da Aids na África se ele não fosse um homem de fé. Se ele fosse alguém preocupado unicamente com a política dura – ou com o que as pessoas dizem sobre ele –, eu não tenho certeza de que ele teria tido a ousadia de se posicionar sobre essas questões. Mas ele o fez, e eu acho que está claro que a sua fé foi uma parte importante nisso.

Como o nosso governo e as comunidades de fé podem trabalhar juntos como uma força positiva para a nação, respeitando também as fronteiras entre os dois?

Obama – Eu penso que fizemos alguns progressos importantes nessa questão durante o meu tempo como presidente, através do nosso trabalho junto ao meu Office of Faith-based and Neighborhood Partnerships [Escritório de Parcerias Religiosas e de Bairro]. O princípio constitucional de separação entre Igreja e Estado serviu à nossa nação desde a nossa fundação – abraçada por pessoas de fé e por aqueles de nenhuma fé ao longo da nossa história – e tem sido fundamental no nosso trabalho. É por isso que eu assinei uma ordem executiva que implementou recomendações do meu Conselho Consultivo sobre Parcerias Religiosas e de Bairro, que incluiu alguns dos principais especialistas em Igreja/Estado do nosso país. Também expandimos a forma como o governo vê as parcerias com organizações religiosas e sem fins lucrativos a partir de um foco unicamente financeiro para incluir parcerias não financeiras.

Eu também percebi que as parcerias são uma rua de sentido duplo. As comunidades de fé muitas vezes conhecem as suas cidades melhor do que ninguém. Elas também têm uma memória institucional e uma história de serviço com as quais nós temos e podemos continuar aprendendo. Por outro lado, o governo federal dispõe de instrumentos e recursos que as comunidades de fé muitas vezes não têm. Tivemos a intenção de conectar as organizações sem fins lucrativos no mesmo campo umas com as outras para compartilhar as melhores práticas ou para formar parcerias com o setor privado. Em um campo como a tutoria, trouxemos corporações para a mesa para facilitar o financiamento privado de organizações sem fins lucrativos que fazem esse trabalho. Em uma questão como o tráfico humano, trabalhamos com comunidades de fé não apenas para cuidar dos sobreviventes do tráfico por meio de parcerias financeiras, mas também para informar as suas congregações sobre como identificar possíveis vítimas do tráfico através de parcerias não financeiras.

Sempre podemos fazer melhor e estamos melhorando a cada dia, mas uma das maiores fontes de otimismo para mim ao longo destes últimos quatro anos tem sido a de ver tantos norte-americanos heroicos e humildes que servem os outros com toda a bondade dos seus corações e o imperativo moral das suas crenças mais centrais.

Romney – Como governador de Massachusetts, eu trabalhei duro para promover as organizações religiosas de serviço social e nomeei a minha esposa, Ann, para liderar os meus esforços. Claramente, as fronteiras entre a Igreja e o Estado devem ser respeitadas, mas há um grande espaço em que as organizações religiosas podem fazer o bem pela comunidade em que atuam. Nos últimos anos, a noção de separação entre Igreja e Estado foi levada por alguns para muito além do seu significado original. Eles buscam remover do domínio público qualquer reconhecimento de Deus. A religião é vista meramente como um assunto privado, sem lugar na vida pública. Os Fundadores proscreveram o estabelecimento de uma religião estatal, mas não toleraram a eliminação da religião da praça pública. Nós somos uma nação "sob Deus" [under God], e em Deus nós de fato confiamos.

A Catedral Nacional de Washington é chamada a ser o lar espiritual da nação. A partir do seu ponto de vista, como a Catedral pode praticar essa missão?

Romney – Desde o início, esta nação confiou em Deus, não no homem. A liberdade religiosa é a primeira liberdade em nossa Carta de Direitos. E quer a causa seja a justiça para os perseguidos, a compaixão pelos necessitados e pelos doentes, quer seja a misericórdia pela criança esperando por nascer, não há maior força para o bem da nação do que a consciência cristã em ação. A missão da Catedral Nacional, da forma como eu a concebo, é preservar, proteger e promover essa tradição como uma casa nacional de oração.

Obama – Eu acredito que a clareza sobre qualquer coisa na vida é o resultado da busca de respostas, não de se conformar com o que já sabemos. A Catedral Nacional tem uma história de orgulho na acolhida de conversas sobre questões e debates de grande importância e ao permitir que diferentes perspectivas façam parte dessa conversa.

Eu acho que a Catedral descobriu que a nossa fé e a tomada de decisão em geral são fortalecidas ao serem expostas a outras ideias e ao testá-las. Assim é como a Catedral pode continuar servindo a sua missão e também como os EUA podem continuar vivendo de acordo com os seus ideais mais elevados: esculpindo um espaço para conversas e ideias importantes, e incluindo intencionalmente as pessoas de pontos de vista diferentes nessas discussões.

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