Os servos infiéis e a traição contra o sucessor de Pedro. Entrevista com Peter Seewald

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18 Junho 2012

A agência de notícias católica alemã Kath.net publicou uma longa entrevista de análise sobre o caso Vatilieaks com Peter Seewald (foto), autor do livro-entrevista com o Papa Bento XVI Luz do Mundo.

Publicamos aqui a versão italiana dessa entrevista, publicada no sítio Korazym, 13-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis a entrevista.

Quem e o que estão por trás das "revelações" em torno ao Vatileaks?

A traição não é algo bom, embora seja muito humana. O fato de ela não se deter nem mesmo perante a Igreja já foi demonstrado pelo exemplo dos apóstolos. Só os resultados das investigações poderão lançar luz sobre o pano de fundo do episódio vaticano, que tem todas as características de uma parábola. Todo o resto é especulação. Com base nas informações de que eu disponho, uma coisa é certa: ou seja, que o Vatileaks implica uma ação preparada em detalhe, conduzida de forma sistemática e coberta com profissionalismo. E tudo isso não para chamar a atenção para algumas irregularidades, mas sim com o objetivo de danificar fortemente o governo de Bento XVI.

Por que o secretário pessoal Gänswein foi envolvido?

O fato de que a pessoa mais próxima do papa deve ser desacreditada não é um ponto contra ele, mas sim a seu favor. É impossível servir de escudo e não ser atingido por algumas flechas no confronto. Além disso, alguém que, como Georg Gänswein, desmascara também o traidor se torna com mais razão um alvo a ser atingido.

Como funciona o aparato midiático?

O Vatileaks não é culpa dos meios de comunicação, mas alguns deles, com especulações, distorções ou propaganda absurdas, inflaram o caso desmedidamente. Os boatos de alguns alardeadores substituem uma pesquisa dispendiosa, seguir a maioria toma o lugar da reflexão pessoal. E, especialmente, quando a Igreja acaba na mira, o jornalismo baixo não tem outro objetivo a não ser fomentar a indignação.

Por que coisas já conhecidas há muito tempo são utilizadas para preparar uma nova mistura?

Primeiro, porque as "revelações" dizem muito pouco. Segundo, porque os oportunistas do escândalo exploram a questão para conduzir uma guerra ideológica. Como em um videogame de trama muito simples, nas nuvens, veem-se resmungos e cochichos sobre "segredos do Estado da Igreja", de "poderes obscuros" com os seus "manejos duvidosos", que agora geram dúvidas sobre "a liderança da sua Igreja mesmo entre os cristãos devotos". A edição mais recente da revista Stern ensina até como não contribuir com "a história das revelações" com nenhuma nova investigação. Por que deveria? A receita foi testada: copiar, acrescentar um pouco de tempero e servir novamente – voilà, está pronto. O editor-chefe chega até a demonstrar que o papa está cansado do seu ministério. De fato, defende ele, Bento XVI já teria falado do "paraíso".

A importância das "revelações" é superestimada?

Definitivamente sim. Muitos observadores esperavam algo completamente diferente e agora descobrem que os documentos até agora publicados servem para aliviar, e não para dar mais peso ao caso vaticano. A correspondente da SZ Andrea Bachstein observou, com agradável serenidade: "Os fatos, na maior parte, já eram conhecidos". O que alguns tenderiam a interpretar como uma "interferência explosiva", de fato, poderia ser considerado como "bastante normal". O próprio "informante", Gianluigi Nuzzi, admitiu que o que os documentos publicados no seu livro Sua Santità têm de especial é simplesmente que "temos aqui documentos inéditos de um papa que ainda está no cargo".

Os fatos podem ser minimizados?

Não. O que é assustador não é apenas a revelação de segredos e de irregularidades com relação ao Banco do Vaticano, mas também o comportamento pouco fraterno de muitos monsenhores e bispos entre si. Não deve ser ignorada uma Nomenklatura, instalada há muito tempo, que parece se orientar mais por Maquiavel do que por Jesus, constituída por notórios manipuladores, que da fé fazem política, da política, intrigas, e das intrigas, disputas de poder. Dentre outras coisas, muitas vezes fazem isso por puro hábito, a partir de uma mentalidade com base na qual essas coisas simplesmente fazem parte do jogo.

Como essa lama toda se espalhou?

Não é mistério que o antecessor de Bento XVI se preocupou mais com a estrutura global do que com as questões internas do Vaticano, mesmo que apenas por causa das prioridades ditadas por uma época em que o mundo estava dividido pela Cortina de Ferro. Naturalmente, não deveríamos perder de vista a realidade. Um grande pensador disse uma vez uma coisa sobre os conventos que também vale para o Vaticano: assim como eu não vi pessoas mais pecadoras do que as que eu encontrei aqui, assim também nunca vi pessoas mais santas em outros lugares. Dentre outras coisas, é um pouco ingênuo pensar que onde se fala de santidade se encontrem apenas coisas santas. A traição de Judas já ilustra simbolicamente as duas grandes tentações da Igreja: a) a tentação do dinheiro, pelo fato de que Judas mantinha a caixa da comunidade; e b) a traição ideal, espiritual, com a sua oposição ao Messias, já que ele não corresponde em nada à sua ideia.

O caso Vatileaks também não serviria para mostrar ao papa situações que não funcionam?

Essa consideração implica que Bento XVI está isolado e mal informados. Mas já como cardeal, Joseph Ratzinger demonstrou estar não só à altura dos tempos do ponto de vista intelectual, mas também sempre bem informado. A verdade é que as intrigas e as maquinações o repugnam. É o próprio papa que diz que o maior perigo para a Igreja vem da própria Igreja.

O papa não é mais capaz de agir?

Pelo menos é isso que se quer mostrar. São postas em discussão a soberania do papa e a sua liderança da Igreja. O objetivo é o de influenciar a gestão do governo e de conseguir agir através da chantagem, atingindo até os colaboradores do papa. Precisamente por isso é que se chega a desacreditar pessoas mal vistas, como o secretário do papa.

Bento XVI é um papa fraco?

"Quando sou fraco, então é que sou forte", disse São Paulo. Desse ponto de vista, esse papa é, de fato, um papa fraco. Mas entende isso apenas quem aprendeu a pensar com a inteligência da fé, segundo o ensinamento de Cristo. O poder não é capaz de modificar o mundo para melhor. E não é só a mera administração que pode manter ou mesmo salvar a Igreja. Na sua inabalável confiança na força do Espírito, portanto, o papa também pode escrever certo por linhas tortas e, como Jesus, seguir em frente com colaboradores que, em certo sentido, começaram a viagem pela metade.

Então, Bento XVI é um papa forte?

Fisicamente, Bento XVI não é um gigante, mas é bastante forte para esmagar os pés de alguém. O resultado é conhecido. Desde sempre ele considera como suspeitos os pastores que deixam tudo correr pelo amor ao quieto viver. Esse papa, como nenhum outro, enfrentou situações de irregularidade em seus próprios quadros e agiu em consequência. A renovação interior que ele impôs implica sobretudo um processo mental, mas não para perante o aparato. Alguns ficaram tão impressionados com o mero uso da palavra "desmundanização", o convite a se afastar do poder e da institucionalização, a fim de ser novamente libertados para aquilo que é próprio da fé, que preferem anular a palavra, interpretando-a ao invés de utilizá-la.

O papa sofre com essa história?

Sofre sobretudo com aquelas pessoas muito próximas a ele que agora estão ardendo no inferno da sua própria consciência. Quem levanta poeira como ele, quem se sente incômodo e continua sendo destemido, quem mantém a tradição e pode citar boas razões para fazê-lo, também sabe que isso provoca poderosas forças contrárias e que deve suportar alguns sofrimentos.

Os problemas não podem simplesmente ser removidos?

Pode parecer paradoxal, mas o mal também contém alguma coisa de bom. Ele nos leva a fazer perguntas fundamentais: o que é a mentira, o que é a verdade? O que é certo e o que é errado? E por fim: quem é a favor e quem é contra aquela figura-chave, investida para que, como diz o Evangelho, os poderes do inferno não prevaleçam sobre a Igreja de Cristo? As tentações do mundo são grandes, e só pode ser forte quem tem uma fé forte. Mas é possível se opor a elas, se se estiver apoiado por uma sólida convicção. A prioridade desse pontificado é de transmitir os instrumentos para fazer isso, através de um ensino convincente e do exemplo pessoal.

O Vatileaks representa um ponto de virada?

É importante que a questão seja esclarecida com atenção, que os resultados das investigações sejam transparentes, que se reconquiste a confiança através da abertura e de uma ação coerente. Da traição contra o Santo Padre, pode brotar um novo início e uma onda de solidariedade. Não em todos, mas sim em muitos. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que o modelo do servo infiel e desobediente, que agora, através da pessoa do mordomo, aparece como em um drama escolar sobre o palco, não existe só no Vaticano. O que é realmente importante nessa história não é tanto a revelação de algum "mistério", como a traição contra um dos mistérios por excelência, isto é, o carisma do sucessor de Pedro. É assim que o Vatileaks é visto em toda parte, ou ao menos em toda parte em que as advertências e as indicações de Pedro são candidamente lançadas ao vento, onde se dorme como as virgens da parábola de Jesus, quando, ao contrário, se deveria ficar acordado.

O que o Vatileaks implica para o futuro?

O fim da época moderna é caracterizada por um clima de confusão e de incerteza. A questão é: quais são as verdadeiras causas da crise? Pode funcionar uma sociedade em que o homem basta a si mesmo, em que ele é o seu único critério de comparação? O que eu quero? Em que eu acredito? O que eu defendo? Em um confronto que se torna cada vez mais agressivo, chocam-se, de um lado, uma cultura neopagã, de outro, uma cultura baseada na tradição judaico-cristã. Talvez, deveríamos até dizer um mundo religioso e um mundo não religioso. Especialmente a Igreja Católica, por causa da sua fidelidade à tradição, deve se preparar para um tempo de duros confrontos. Se os bispos não reagirem finalmente a esse imenso desafio, o declínio da religião cristã, que contribui para formar a base das sociedades civis ocidentais, continuará se acelerando dramaticamente.

A Igreja ainda pode ser salva?

Não se trata de desaparecer, mas sim do fato de que o mundo que conhecemos até agora, o nosso modo de pensar, de acreditar e de viver é julgado por falta de atenção, por uma má gestão da natureza, do dinheiro, das pessoas, de si mesmo, enfim, pelo fato de ter se afastado das evidências originais da criação. Porém, da decadência do velho, já surge o novo. Os ramos murchos se quebram e torna-se visível o verde novo. A tarefa daquele que, provavelmente, será o último papa entre a nova e a velha era é o revigoramento da fé a partir das forças das suas origens. E talvez em breve também se poderá dizer que, depois de séculos de falsos inícios, a fé da Igreja Católica está novamente tão perto de Cristo como não esteve nem nas origens.

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