Bem-aventurados os últimos? De Sêneca a Bernanos, toda a miséria do mundo

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24 Abril 2012

A verdadeira escolha de Cristo e do cristão não é tanto pela pobreza, entendida como um sujeito social negativo, causa de abjeção da dignidade humana, mas sim pelo pobre que deve ser libertado desse status de humilhação.

Publicamos aqui um trecho da contribuição do cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado em livro de coautoria de Adriano Sofri, intitulado Beati i poveri in spirito, perché di essi è il regno dei cieli [Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus] (Ed. Lindau).

O trecho foi publicado no jornal La Repubblica, 20-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Pobreza, via segura, não tem rixa nem angústia; / de ladrão não tem medo, nem de tempestade alguma... / Pobreza é nada ter e nada pode querer / e todas as coisas possuir em espírito de liberdade". A voz franciscana de Jacopone de Todi canta, em uma das suas Laudes mais célebres, a serenidade que é gerada pela pobreza, um dos temas mais caros à tradição evangélica.

Devemos, contudo, estar conscientes desde já que a opção bíblica não é pela pobreza em si, mas sim pelos pobres. E, como dizia Jesus, "os pobres sempre tereis convosco". Comentava o protagonista de Diário de um pároco de aldeia (1935), de Georges Bernanos: "Haverá sempre pobres entre vós, pela mesma razão porque haverá sempre ricos, isto é, homens ávidos e duros, que procuram menos as posses do que o poder".

Certamente, antes ainda de abrir as Escrituras, devemos reconhecer que a plebe miserável, a "pobre gente", como a definia Horácio nas suas Sátiras, é uma presença não só social, mas também literária tão imponente que criou até uma espécie de retórica da pobreza, à la André Suarès, que, no seu ensaio sobre Péguy (1915), delimitava a ênfase: "A pobreza é uma companhia ardente e temível; é a mais antiga nobreza do mundo, e muito poucos são dignos dela". Nem Rilke, autor de um inteiro Livro da pobreza e da morte, não recuava quando proclamava que "a pobreza é como uma grande luz no fundo do coração".

E se poderia continuar longamente, remontando o curso até a antiguidade, onde podemos nos deparar com vários aforismos do estilo deste, extraído de De providentia de Sêneca: "Ignis aurum probat, miseria fortes viros". Que a pobreza refina a fortaleza das pessoas, assim como se faz na fornalha com o ouro, pode até ser verdade, mas quem nela imergiu tem uma opinião diferente muitas vezes.

A miséria, de fato, também pode indignar, humilhar, devastar a alma, como demonstrou de modo desolado o Albergue Noturno (1902), de Gorky, galeria de humilhados e ofendidos pela pobreza.

É possível, então, recompor um autêntico filão literário que, sem hesitação, define a pobreza como "a mais mortal e a mais imperiosa das doenças", para usar uma frase do drama Neblina (1914), de O'Neill, precedido pelo colega Inglês George Bernard Shaw que, ao homônimo protagonista de Major Barbara (1905), colocava na boca a certeza de que "o maior dos males e o pior dos crimes é a pobreza".

É por isso que, acima, dizíamos que a verdadeira escolha de Cristo e do cristão não é tanto pela pobreza, entendida como um sujeito social negativo, causa de abjeção da dignidade humana, mas sim pelo pobre que deve ser libertado desse status de humilhação.

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