Dom Bosco: as aventuras em quadrinhos do santo-mestre que derrotou Tarzan

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19 Outubro 2011

A sua biografia foi a "tirinha" religiosa mais difundida de todos os tempos, mas jamais foi traduzida para o italiano. Pela primeira vez, os desenhos serão distribuídos na abertura do ano acadêmico dos salesianos.

A reportagem é de Michele Smargiassi, publicada no jornal La Repubblica, 10-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dom Bosco contra Tarzan. E ele ganhou, o santo fundador dos salesianos. Em 1948, o editor francês de Spirou teve que escolher se publicaria a biografia em quadrinhos do patriarca da pedagogia católica ou continuar uma história sobre o homem forte da selva: e não teve dúvidas. Livrou-se do fisiculturista leopardado e fez passar o sacerdote de batina.

Spirou era um jornalzinho para meninos de inspiração católica, tudo bem, mas não foi uma escolha de catecismo. Foi uma escolha de mercado: Dom Bosco, ami des jeunes, que saiu sete anos antes na Bélgica, alcançaria 200 mil cópias, destinada a se tornar, e a permanecer até hoje, como a história em quadrinhos religiosa mais difundida no mundo, com edições em dezenas de idiomas, incluindo o vietnamita.

Mas não o italiano. Nem São João Bosco foi profeta em sua pátria. Só agora, a 70 anos da primeira aparição impressa, o longo e inexplicável ostracismo acabou. No dia 12 de outubro, todos os convidados para a inauguração do ano acadêmico da Pontifícia Universidade Salesiana de Roma receberam em homenagem um livro que conta a história e reproduz alguns desenhos de uma hagiografia surpreendente, mas, de acordo com alguns salesianos, muito eficientes no plano da evangelização, sendo-lhes atribuídos "um certo número de vocações", como reconheceram em 1981 no boletim da ordem religiosa, quando anunciaram, comovidos, a morte de Joseph Gillain, chamado de Jijé, o desenhista belga que foi o seu autor. Foi Roberto Alessandrini, professor de antropologia ligado à Salesiana, apaixonado por imagens vernaculares, que preencheu a lacuna depois de uma pesquisa nada fácil, mas surpreendente. Era 1941, e a Bélgica estava há poucos meses sob o calcanhar de Hitler.

A editora Dupuis de Marcinelle passava mal: não eram tempos para quadrinhos. Os alemães tinham até deportado alguns dos seus desenhistas. Mas Spirou saía assim mesmo. Era preciso uma ideia para fugir do pesado "sofrimento da Bélgica", nas palavras do romancista Hugo Claus. Dom Bosco havia sido canonizado há sete anos; a primeira missão salesiana em terras belgas, em Liège, completava meio século de vida. Mas contar em quadrinhos a vida de um santo muito popular era uma coisa estranha, e Jijé, no início, não acreditava muito nisso. Mas ele o fez assim mesmo, em 99 desenhos, com a perícia que certamente não lhe faltava. Menos famoso do que os seus colegas e compatriotas Hergé, criador de Tintin, e Peyo, pai dos Smurfs, era um dos grandes lápis da escola belga dos quadrinhos. Seu traço nervoso e veloz era menos estilizado do que o primeiro e menos infantil do que o segundo. Era talvez o mais realista e "americano" do grupo.

E os quadrinhos, ele sabia muito bem disso, têm suas regras, que navegam entre o clichê do aventureiro e do cômico. Não tolera lentidões e pieguices, precisa de heróis dinâmicos, de um roteiro movimentado e divertido, tem fome de gestos teatrais e de frequentes mudanças de cena. A biografia do santo dos meninos de rua, que vivia entre salas de aula, hospitais e oratórios, não era exatamente a trama de um filme de ação. Mas se tornou. Bastou apenas calar um pouco com o nanquim sobre os pequenos episódios, as anedotas curiosas e apologéticas que jamais faltam na vida de um santo homem.

E aqui está o padrezinho piemontês, provido de um rosto jovem e decidido de herói regulamentar, que enfrenta ladrões com cadeiradas como Tex, que os desarma com um golpe de mágica como Mandrake, que impede um esfaqueamento com a ajuda de um cãozinho como Tintin. Isso com relação ao aventureiro. Quanto ao cômico, com os santos não se pode brincar, mas com todo o resto sim, e os burgueses ávidos e os funcionários pávidos com os quais Dom Bosco se encontra na sua missão se tornam caricaturas zombeteiras.

A mistura deve ter resultado particularmente boa, porque a história em quadrinhos se tornou livro, teve no pós-guerra uma reedição revista e ampliada, depois colorida, salvou da ruína a editora (que declarou Dom Bosco como seu padroeiro e penduraram seu retrato na sala de reuniões), e a sua sorte internacional ainda continua: é de 2004 a edição mais recente, já filológica (compara as versões sucessivas).

Os salesianos a levaram para todo o mundo, instrumento de evangelização e de proselitismo vocacional nas suas escolas. E quem se admira disso ignora que os quadrinhos são apenas a última reencarnação das muitas biblia pauperum que, da Idade Média em diante, dos vitrais e dos ciclos de afrescos nas igrejas, pregaram moral e devoção aos iletrados. E a celebridade de Dom Bosco, sobretudo, deve muitíssimo ao cuidado com o qual ele mesmo, ainda em vida, e os seus devotos depois, promoveram a sua imagem sabiamente: talvez foi o santo mais fotografado do século XIX, e o seu retrato pictórico mais famoso (tirado justamente de uma dessas fotos) foi concebido para poder ser eficazmente reproduzido nos santinhos, nos cartõezinhos, até mesmo nas figurinhas Liebig.

Mas é ainda mais misterioso o ostracismo da história em quadrinhos salesiana em sua pátria, a Itália. Um já idoso Jijé, em uma entrevista, deu o chauvinismo como explicação: "Talvez, não agrade que a história do santo de vocês tenha sido desenhada por um belga". Mas, por favor, a Itália não é a França. É a Itália, isto é, um país onde o moralismo da Igreja é particularmente suspeito, e os quadrinhos sempre foram um vigiado especial.

Em 1951, justamente quando o Dom Bosco de Jijé alcançava tiragens de best-sellers, o Apostolado da Boa Imprensa, um órgão episcopal de supervisão midiática, elaborava a lista de 230 histórias em quadrinhos "moralmente nocivos, que não é permitido ler por nenhuma razão": também acabaram dentro dessa lista os moderados Pecos Bill e Tex.

O Dom Bosco de tinta provavelmente passaria pela aduana moral dos cardeais, mas, no fundo, por que arriscar jogar fora uma tiragem inteira? A Itália não era um bom lugar para as histórias em quadrinhos, nem mesmo beatificadas. Não se chegou nem a tentar.

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