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11 Setembro 2011

A 40 anos do seu nascimento oficial, a Comunidade Monástica de Bose cresceu e se consolidou. Mas sem perder o espírito profético e a radicalidade evangélica das origens.

A reportagem é de Piero Pisarra, publicada na revista italiana Jesus, setembro de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há uma frase da tradição monástica que Enzo Bianchi repete frequentemente: "Hoje, eu recomeço". O segredo da Bose talvez esteja aqui: em colocar-se em jogo cotidianamente, em não se acomodar, porque a vida monástica é justamente "vida", movimento, caminho. Um convite incessante à conversão do olhar e do coração. No seguimento do único necessário, Jesus, o Senhor.

Quem voltasse 30 anos depois para esta parte do município de Magnano, na serra rochosa entre Ivrea e Biella, custaria a reconhecer a pequena comunidade em que circularam as palavras do Concílio e a voz do Espírito sugeria novas formas de presença, um testemunho radical, sem compromissos mundanos.

À capela despojada das origens e à casa para os hóspedes, foram acrescentadas uma bela e grande igreja, edifícios para a acolhida e a hospitalidade. E entre os visitantes já não passam de mão em mão os livretos mimeografados de capa amarela com os dizeres dos Padres do Deserto ou os escritos da tradição monástica, mas sim livros brancos – e sobriamente elegantes – das edições Qiqajon.

Porém, o espírito é o mesmo: se outras comunidades nascidas nos mesmos anos mudaram profundamente, colocando de lado o carisma do das origens, se com os anos trocaram a profecia pela diplomacia, não é assim em Bose. Prova disso é a última carta aos amigos para o Pentecostes deste ano: um convite a perseverar na esperança, mesmo quando o horizonte está fechado, quando falta o ar e a realidade eclesial está dominada por "uma melancolia que, como névoa outonal, parece envolver e ensopar tudo".

No tempo da prova e do sofrimento, "em uma época achatada no imediato e na atualidade" e que "não tem mais a coragem de falar, nem perseverança, muito menos eternidade", os irmãos e as irmãs de Bose lembram o télos, o fim da vida cristã: "O encontro com o Deus que vem". Como o sentinela de Isaías, perscrutam o horizonte em busca dos primeiros raios da aurora e, para aqueles que perguntam o que resta da noite, eles respondem: "O amanhecer vai chegar, mas a outra noite também. Se quereis perguntar, perguntai. Voltai novamente" (Is 21, 12).

Sentinelas: eis o verdadeiro papel dos monges. Homens e mulheres de longa visão, capazes – como a coruja que é o seu símbolo – de ver além da noite. E de conjugar fidelidade e perseverança, duas virtudes que "no tempo despedaçado e sem vínculos" de hoje "se configuram como um desafio para todo ser humano e, em particular, para o cristão".

Fidelidade ao Evangelho e à tradição monástica, à "grande nuvem de testemunhas" – Elias e João, o Precursor, Antônio e os Padres do Deserto, Pacômio e Maria, Basílio e Macrina, Bento e Escolástica, Francisco e Clara, e tantos outros – aos quais Enzo Bianchi (foto) faz referência nos Traços Espirituais na origem da Regra de Bose. E perseverança: nas escolhas essenciais, naquilo que realmente importa, sabendo-se desembaraçar do acessório e do que atrapalha o caminho.

Dessas duas virtudes também depende a qualidade das relações e a atenção ao outro, a capacidade de sondar os corações e as mentes. Desde o início, Enzo Bianchi diz ter sido "habitado pela convicção de que todo monge é sobretudo um cristão "gerado" ao monaquismo pelo próprio monaquismo": não um cristão especial, mas um simples leigo que, em fidelidade ao batismo, se põe no caminho dos ébrios de Deus e daqueles primeiros monges que, em reação à paz constantiniana, iam ao deserto egípcio munidos de um bastão e de um melote, o manto de pele de ovelha que servia como única indumentária.

Porque, como dizia Antônio, o Grande, "os monges só possuem duas coisas: as Sagradas Escrituras e a liberdade". Em Bose, as Escrituras, estudadas, investigadas, meditadas, são a bússola. E a liberdade, a característica distintiva. Uma liberdade que se expressa no exercício de uma outra virtude esquecida, a parrésia, o falar claro e forte, sem os véus das conveniências, das prudências eclesiásticas ou da hipocrisia.

Bose é, enfim, o testemunho de uma vida "outra", paradoxal e de relações novas: uma comunidade mista e interconfessional, profecia de unidade. Mas há um binômio que talvez a caracterize melhor do que outros. É o binômio da tradição monástica medieval da qual o padre Jean Leclercq fala no seu Amore per le lettere e desiderio di Dio, amplamente citado por Bento XVI no discurso aos intelectuais franceses do dia 12 de setembro de 2008: gramática e escatologia (aproximação aparentemente incongruente entre duas realidades que têm pouco em comum).

Mas a "gramática", o amor pelo estudo, o trabalho bem feito, o respeito às regras, a pesquisa filologicamente precisa é o que distingue o scriptorium de Bose: nas múltiplas traduções dos Padres da Igreja ou nos outros empreendimentos editoriais, das Regras monásticas do Ocidente, pela editora Einaudi, aos textos sobre Maria para a coleção da editora Meridiani Mondadori e ao Libro dei testimoni, o martirológio ecumênico publicado pelas edições San Paolo. Sem esquecer a nova tradução do Saltério. E a Oração dos Dias, que permite que os muitos amigos da Comunidade celebrem as horas canônicas como parte de um mosteiro invisível que, do vilarejo do Piemonte, se estende por toda a Europa e além.

Porque Bose porque também é isso: um mosteiro sem muros, feito de pessoas que olham para a Comunidade como uma referência segura, de amigos que frequentam os cursos bíblicos e espirituais ou que esperam com impaciência a gravação em CD das novas conferências, as lições de Enzo Bianchi ou de Luciano Manicardi, as leituras bíblicas de Sabino Chialà ou de Daniel Attinger, as falas ou as meditações de outros irmãos e irmãs.

Um mosteiro que, com os congressos anuais de espiritualidade ortodoxa, constrói uma ponte para o Oriente cristão, eliminando incompreensões e preconceitos no diálogo ecumênico. Nesses 40 anos de existência, Bose criou relações com inúmeros mosteiros ocidentais, com os grandes centros espirituais da Ortodoxia russa, hospedou bispos, teólogos e monges de todas as confissões, pondo-se como lugar de uma troca livre e fecunda.

Sem tendências new age, sem entrar em modas, propôs, nos livros do prior (mas não só), uma arte de vida, uma sabedoria dos dias que também fala ao coração de muitos não crentes e de homens em busca, músicos e artistas de primeiro plano. Como o compositor estoniano Arvo Pärt, ou o pianista Stefano Battaglia e o percussionista Michael Rabbia, que dedicou a Enzo Bianchi uma das músicas mais bonitas de Pastorale (ECM), o seu último álbum. E depois a prática da lectio divina, do encontro diário com as Escrituras, que Bose contribuiu para renovar e difundir em toda a comunidade cristã.

Isso com relação à "gramática". E a escatologia? Esta é "memória do futuro", tensão para o ainda-não, sinal de um desejo que será preenchido no Reino. Porque os monges, mais do que outros, sabem habitar um lar provisório, à espera da cidade definitiva. Não vivem uma fuga mundi, mas sim uma busca, um seguimento: é quaerere Deum, buscar a Deus.

Muitas vezes, Enzo Bianchi lembra as palavras de Evágrio, o brilhante diácono que, no século IV, de Constantinopla, escolheu o caminho do deserto, sobre os passos dos primeiros anacoretas: "Monge é aquele que está separado de todos e unido a todos".

A busca da unidade em si implica esse duplo movimento: o retirar-se em uma cela e o abrir-se às dimensões do mundo. Cultivar o silêncio e a solidão como bens preciosos, amando profundamente a companhia dos homens. "Na confusão dos tempos em que nada parecia resistir, eles queriam fazer o essencial: empenhar-se para encontrar aquilo que vale e permanece sempre, encontrar própria Vida", disse Bento XVI sobre os antigos monges.

E assim também é para Bose. Se nosso tempo é de névoa, de melancolia e de torpor espiritual, sobre esta colina do Piemonte são semeadas as sementes de uma estação nova, de uma renovação que ainda não se entrevê, mas que acontecerá. Preparada silenciosamente por aqueles que, como os irmãos e as irmãs de Bose, testemunham a novidade do Evangelho e a inteligência da fé.

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