"Não podemos permitir um segundo Lehman Brothers", diz ministro da Fazenda alemão

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04 Julho 2011

Na semana passada, a Grécia aprovou medidas de austeridade estritas e está fora de perigo imediato de insolvência. Por enquanto.

A revista Der Spiegel conversou com o ministro da Fazenda da Alemanha, Wolfgang Schäuble, sobre o que vai acontecer agora; se um calote grego é inevitável e qual é o perigo desta crise afetar a democracia.

A entrevista é de Michael Sauga e Peter Müller e reproduzida pelo Portal Uol, 05-07-2011.

Eis a entrevista.

Ministro Schäuble, há 15 anos, um importante político alemão escreveu um livro no qual previu que o euro não ia mais permitir que países pertencentes à moeda comum europeia tivessem o luxo de “recorrer ao conforto da geração de dívidas”. O senhor tem alguma ideia de quem fez este prognóstico?

Tenho uma ideia, mas estou certo de que o senhor vai me contar.

Foi o então líder conservador no parlamento, Wolfgang Schäuble.

Na época, eu estava expressando uma expectativa de muitas pessoas, e as atuais tendências a confirmaram. No caso da Grécia, estamos atualmente vendo que a união monetária não permite que seus Estados membros sigam políticas financeiras nocivas por períodos extensivos.

Mas, no caso da Grécia, também vimos que os políticos ignoraram tais problemas por anos. Agora, isso os está forçando a quebrar as promessas que fizeram nos tratados da União Europeia, estipulando que a Alemanha não teria que cobrir dívidas de outros países. O euro perdeu sua credibilidade?

Para termos uma moeda comum, temos que poder defendê-la – e fazê-lo de forma consistente com os tratados da UE. Nós conseguimos isso: o euro está estável, e um número crescente de países está denominando suas reservas financeiras em euro pelo grau de confiança que têm nele. Incidentalmente, nossa meta em ajudar não é a de cobrir as dívidas dos outros. Mais do que tudo, estamos ajudando nossos próprios interesses.

Ainda assim, os contribuintes novamente disponibilizarão bilhões de euros à Grécia, mesmo após a UE e o Fundo Monetário Internacional criarem um pacote de resgate de 110 bilhões de euros para a Grécia no ano passado. O senhor pode prometer que este será o último pacote de ajuda da Alemanha?

Sempre resistimos à noção simplista de que tudo poderia ser resolvido com um único pagamento aos gregos em 2010. Dissemos desde o início que este era um desafio complexo que ia necessitar de planejamento e de tempo. Como tínhamos consciência do tamanho do problema, logo expressamos a necessidade de criação de um mecanismo duradouro para vencer crises de dívida. O Mecanismo de Estabilidade Europeia existe hoje e está sendo ratificado. Mas não vai vigorar antes de 2013. Então precisamos de uma solução provisória, e isso é que estamos fazendo agora.

A maior parte dos especialistas duvida que a solução provisória vá funcionar. Eles concluíram que a Grécia, no final, não vai ser capaz de evitar a reestruturação da dívida. O senhor diverge desta opinião?

Absolutamente. O programa para a Grécia vai se tornar viável quando a Grécia implementar todas as medidas com as quais concordou. Esta não é apenas minha opinião; é também do FMI, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia. Tenho grande respeito pela forma como o povo da Grécia lidou com este desafio excepcional. Não vai ser fácil, mas os gregos resolveram seguir este caminho. E estou convencido que vão fazer todo o possível para sair deste predicamento.

Suas opiniões o colocam em uma minoria. A Grécia logo vai ter que gastar um décimo de seu produto interno bruto só para o pagamentos de juros, e a economia do país não é competitiva. Como o senhor acha que esses problemas poderão ser resolvidos?

A Grécia tem um potencial considerável para aumentar sua competitividade de mercado. Veja, por exemplo, a parte da economia grega que é controlada pelo Estado – é quase tão grande quanto era nos antigos países comunistas. Se a Grécia privatizasse agora as companhias estatais em grande escala, não apenas traria dinheiro aos cofres, mas também liberaria grandes forças de crescimento. Nós alemães sabemos o que é possível quando um país passa por uma genuína reforma estrutural.

No momento, porém, a UE está exigindo medidas de austeridade da Grécia. O país não precisa de uma espécie de plano Marshall para voltar ao caminho do crescimento econômico?

O nome que você dá não é tão importante. O fator crucial é a UE ter mais disposição do que vem tendo de apoiar o crescimento da Grécia. Quando meu colega em Atenas fizer sua próxima visita a Berlim, vou conversar com ele sobre como podemos fazer avançar este processo. Isso também exige tarefas e oportunidades consideráveis para a economia alemã.

Nada disso vai ajudar enquanto a Grécia estiver esmagada sob sua enorme dívida. Não seria melhor se o país admitisse simplesmente que está quebrado e pedisse aos seus credores que perdoassem parte da dívida?

É nossa responsabilidade impedir que as coisas cheguem ao nível de crise. Se não fizermos isso, a crise pode se espalhar para outros países da zona do euro, que teria efeitos imprevisíveis, mas terríveis para os bancos, a economia real e possivelmente todo o sistema financeiro. De qualquer forma, esse é o medo do Banco Central Europeu (BCE); como ministro das finanças, eu tenho que levar isso em conta.

Até Peer Steinbrück, social-democrata que o precedeu como ministro das finanças, acredita que as consequências poderiam ser controladas se a Grécia declarasse falência nacional.

Mas o senhor Steinbrück também acha que eu devo agir em consultas com o BCE. Essas duas coisas não vão bem juntas, porque precisamente o BCE há muito vem advertindo das consequências incalculáveis e dramáticas que se seguiriam após uma declaração grega de falência nacional. Não podemos permitir um segundo caso do Lehman Brothers nos mercados financeiros.

A comparação não funciona. No caso do Lehman, ninguém sabia exatamente o alcance do banco. Mas no caso da Grécia, os credores são conhecidos. Os políticos só teriam que sinalizar que eles estabilizariam os bancos ameaçados em caso de emergência.

É claro, como governo responsável, estamos nos preparando para o evento improvável que as coisas desafiem todas as expectativas e a Grécia de fato fracasse em seus pagamentos. Se isso acontecer, tentaremos evitar desdobramentos que fujam do controle. Contudo, seria completamente errado forçar a Grécia precipitadamente para a insolvência. Os riscos para a economia grega e o perigo de infectar os mercados financeiros simplesmente seriam grandes demais.

“Prisioneiros dos mercados financeiros”

Os beneficiários de suas políticas são os especuladores internacionais. Durante a crise financeira, eles puderam contar com o Estado para comprar os bancos em perigo de colapso. Eles agora podem contar com o financiamento pelos contribuintes dos países toda vez que eles vão à falência. Aonde isso vai acabar?

Você não entendeu. Os governos reagiram faz tempo. Por isso criamos um mecanismo para a zona do euro que vai, a partir de 2013, forçar os credores privados a partilharem os custos de resgate em caso de crise de dívida soberana –apesar de se esperar que um pacto de maior estabilidade torne esta crise difícil de imaginar. E por isso que, no que concerne o atual pacote para a Grécia, garantimos que os bancos e instituições financeiras afetadas tenham um papel.

O que não passa de uma vitrine. Originalmente, vocês queriam que o setor privado contribuísse com dezenas de bilhões. Mas agora esse número é de apenas 2 bilhões de euros. O senhor chama isso de sucesso?

É claro que é um sucesso. Queremos atingir uma quantia substancial no nível europeu. Você, por outro lado, está falando de um número que o setor financeiro alemão prometeu na última quinta-feira, um número que envolve os bônus e vai ser devido em 2014. O resto virá de outros países da Europa e de investidores estrangeiros. Em minha sugestão, levei em conta o fato que os jornalistas sabichões mais tarde iam me acusar de não ter obtido o que eu pedira. Poucos meses atrás, ninguém teria acreditado seriamente que obteríamos qualquer tipo de participação do setor privado.

O Estado vai garantir uma proporção considerável desta suposta participação. Então quais são os sacrifícios dos bancos?

Não é assim. A contribuição do setor privado será completamente autofinanciada – e sem garantias
do governo. Por outro lado, os bancos e seguradoras alemães deixaram claro para mim que sua participação não poderia gerar desvantagens em relação a seus competidores estrangeiros.

Mais uma vez: em troca de terem concordado em segurar seus bônus por um período mais longo, os bancos terão permissão de cobrar taxas de juros extremamente altas, enquanto também recebem garantias do Estado. Seria difícil demonstrar mais claramente que os especuladores são os que estão estabelecendo as condições.

Os políticos não são prisioneiros dos mercados financeiros, mas eles também não podem permitir tudo o que bem entendem. Há naturalmente muito exagero nos mercados. Por isso que eu digo que, sem a participação do setor privado, a legitimidade da economia de mercado e da ordem democrática estão em jogo. Não são coisas pequenas. Por esta razão, nos últimos meses, venho me envolvendo em intensas discussões com Jean-Claude Trichet...

... o presidente do BCE, que não gosta muito das regras que forçam a participação dos credores privados.

Temos que tomar cuidado para assegurar que as pessoas tenham a sensação que as coisas ainda são justas, de alguma forma.

Tanto os países credores quanto os devedores estão sentindo o oposto. Na Grécia, o governo está acatando os ditames de cortes de custos vindos de Bruxelas; na Alemanha, o Parlamento está assinando cheques em branco para os futuros esforços de resgate. O senhor acha que o resgate do euro pode de alguma forma ameaçar a democracia?

Sua descrição dos cheques em branco está enganada. Mas é correto que precisamos ter cuidado. Não apenas na Alemanha, mas em todos os países com boas notas de crédito, os governos enfrentam o problema de ter que explicar ao seu povo por que é necessário fornecer assistência à Grécia.

Talvez as pessoas compreendessem melhor se vocês finalmente fossem francos e admitissem a verdade amarga: que a Alemanha e outros países da Europa terão que transferir muito dinheiro para os gregos por um longo tempo e que nunca vão ver esse dinheiro de volta, na maior parte.

Não. A Grécia agora deve virar a página e implementar um programa de austeridade extraordinariamente ambicioso. Não há como negar que é difícil. Se você ajustar os números para termos alemães, esses cortes seriam de 400 bilhões de euros. Isso seria mais do que o volume de todo o orçamento federal. Mas é a única forma de compensar anos de negligência.

Ninguém acredita seriamente que Atenas terá sucesso. Por que vocês não dizem a verdade às pessoas: a Alemanha faz parte de uma união monetária e se beneficia disso. Mas o preço associado a ela é ter uma união de transferência, na qual países economicamente mais fortes fazem pagamentos aos mais fracos.

Não usaria a expressão “união de transferência” porque simplesmente não se aplica. Ainda assim, é
verdade que uma comunidade só pode funcionar se houver mecanismos para permitir certo grau de equalização. Por isso temos fundos estruturais na União Europeia. Em uma comunidade menor, as pessoas ficam mais dispostas a fazer esse tipo de pagamentos do que quando estão em comunidades maiores. Já podemos ver isso nos pagamentos de equalização entre os Estados alemães, um sistema que há muito é controverso.

Parlamentares da coalizão governante da chanceler Angela Merkel se cansaram de assinar pacotes de assistência. O Bundestag, o Parlamento alemão, agora quer ter maior papel no fundo permanente de resgate.

Toda vez que um país em dívida for admitido no programa, o Bundestag será envolvido. O governo está atualmente discutindo com o Parlamento como será esse envolvimento. Mas temos que manter um olho no que está acontecendo nos mercados financeiros e na necessidade de velocidade.

Se a Alemanha espera que a Grécia adote medidas de aperto de cinto significativas, Berlim não tem que dar o exemplo? Os cortes de impostos na Alemanha – previstos para 2013 - são imagináveis sob essas circunstâncias?

Na quarta-feira (6), vamos aprovar o orçamento federal para 2012 no gabinete. Aí todos poderão ver os números. Eles mostram que, apesar de todo o sucesso de nossos esforços em cortes de gastos, ainda temos um longo caminho antes de podermos cumprir as regras do alívio da dívida no início de 2016. Mesmo se incorrermos em menos de 30 bilhões em novas dívidas em 2012, isso será acrescentado a quase 1,3 trilhão em dívidas que o governo federal já tem. Eu aconselharia cuidado a qualquer um que visse muito espaço para manobra na receita gerada pelos impostos.

Philipp Rösler, vice-chanceler de Merkel e presidente de um dos partidos da coalizão, os Democratas Livres, vê as coisas de forma diferente.

Não. O presidente do FDP, que também é ministro de economia, declarou muito claramente que a consolidação do orçamento tem prioridade. Se tivermos qualquer espaço de manobra depois disso, vamos usá-lo.

À luz da crise do euro, não seria melhor entrar na coalizão governante com o partido Social Democrata (SPD), de centro esquerda? O par funcionou bem durante a crise financeira.

  Não. Tivemos grandes sucessos com o FDP que não seriam possíveis com o SPD.

Achamos surpreendente que o senhor diga isso. Quando pensamos na atual coalizão, tendemos associá-la com lutas internas intermináveis, controvérsias e a adoção de políticas como resposta a números de pesquisa.

É verdade que temos algumas limitações aos olhos do público, talvez até grandes limitações. Ainda assim, este governo teve enormes sucessos: veja os desenvolvimentos na economia e no mercado de trabalho! Até nossos estimados amigos americanos admitiram este sucesso. Quando meu colega norte-americano esteve aqui recentemente, ele disse que estava tentando tornar a política financeira norte-americana “mais alemã”.

Ministro Schäuble, obrigado pela entrevista.

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