Teólogos e liturgistas debatem o retorno da missa em latim

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31 Mai 2011

Uma resposta papal ao "ardente desejo" de "diversos fiéis" de "conservar a antiga tradição": foi assim que, originalmente em 2007, o Papa Bento XVI retomou oficialmente a missa tridentina - em latim e versus Deum. Agora, com uma nova instrução publicada pelo Vaticano no último dia 13 de maio, busca-se "garantir a correta interpretação e a reta aplicação" das disposições de então.

Ambos os documentos - a Carta Apostólica Motu Proprio Summorum Pontificum, de 2007, e a instrução Universae Ecclesiae, deste ano - e suas repercussões litúrgicas e teológicas para a vida da Igreja são analisados em um dossiê especial publicado na edição desta semana da IHU On-Line, nº. 363, por teólogos e especialistas em liturgia do Brasil e do exterior.

Com o motu proprio (ou seja, um decreto papal), o Papa Ratzinger promulgou "uma lei para a Igreja universal" para regular o uso da liturgia romana anterior à reforma realizada em 1970, no Concílio Vaticano II. Assim, além de celebrar a missa com o Missal Romano contemporâneo, os "diversos fiéis" – segundo a Instrução – que, "tendo sido formados no espírito das formas litúrgicas precedentes ao Concílio Vaticano II teriam a "faculdade" de assistir a missas celebradas conforme o Missal de Pio V, do século XVI, publicado em 1570, logo após o Concílio de Trento, no contexto da Contrarreforma. De acordo com a instrução, o "ardente desejo" desses fiéis é o de "conservar a antiga tradição".

Na opinião do filósofo e teólogo italiano Andrea Grillo, especialista em liturgia e pastoral, um dos riscos reais que surgem a partir da publicação da instrução é tornar impossível qualquer pastoral litúrgica. Doutor em teologia pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua e professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, Grillo afirma que um "efeito perigosamente desorientador" do documento paira sobre todos os católicos.

Por outro lado, pensar que a missa é melhor em latim é um "declínio à magia, não à reverência ao verdadeiro mistério da Eucaristia", segundo o jesuíta norte-americano Thomas Reese, membro sênior do Woodstock Theological Center, da Universidade de Georgetown, em Washington, e ex-editor da renomada revista católica norte-americana America. Para Reese, a maioria dos fiéis que abandonam a Igreja o fazem "porque nossas liturgias são chatas e porque não abrimos a Bíblia para nossas congregações de fiéis". Além da liturgia, o jesuíta também analisa outros documentos recentes do Vaticano e dos bispos dos EUA sobre a pedofilia. "As vítimas de abuso sexual ficaram muito decepcionadas com a nova carta do Vaticano", por não ser forte o bastante, afirma.

Para o teólogo Erico Hammes, professor da PUC-RS, o caráter positivo da nova instrução sobre a liturgia é o "fato de se admitirem na Igreja, preocupada com a unidade, a multiplicidade de fórmulas". No entanto, questiona Hammes, mestre e doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana - PUG, em Roma, "não se estaria privilegiando uma determinada forma de espiritualidade e deixando as demais na sombra e na desilusão?".

Já o teólogo Luiz Carlos Susin afirma que "é espantoso o leque de retorno: tudo pode voltar a antes do Concílio em termos de liturgia, não só a celebração da Eucaristia". Se as gerações anteriores viveram o sagrado cristão segundo o missal de Pio V, então permanece sagrado "para eles". Ffrei capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália, e professor da PUC-RS e da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - Estef, em Porto Alegre, Susin questiona ainda: "O que virá depois?. Há uma juventude no interior da Igreja que flutua sem solidez e sem propostas mais realistas apegando-se à estética dos rituais".

A revista IHU On-Line está disponível, gratuitamente, nas versões HTML, PDF e "versão para folhear".

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