Povo Munduruku na luta contra as hidrelétricas na bacia do Rio Tapajós

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04 Maio 2011

"Na segunda-feira, dia 02-05-2011, tivemos um dia de estudos muito proveitoso com cerca de 60 indígenas munduruku lá no alto Tapajós, na aldeia Cururu da missão. Um diálogo forte sobre os impactos das possíveis hidrelétricas na bacia do rio Tapajós. Se a viagem foi longa e cansativa, compensou o interesse dos munduruku em entender porque tais barragens serão desgraças para os povos ribeirinhos e indígenas da região e por isso, decidiram que irão lutar de vários modos para impedir tal tragédia. Se o governo brasileiro raciocina apenas em termos economicistas, pensando num brasil distante, os povos da Amazônia raciocinam pelos seus direitos à soberania. Por isso, segue um relatório do que foi o encontro", escreve Edilberto Sena, da Frente em Defesa da Amazônia, ao enviar o relatório do encontro que publicamos a seguir.

RELATÓRIO DO ENCONTRO COM O POVO MUNDURUKU NA MISSÃO CURURU

1. O encontro aconteceu dentro de uma assembléia comemorativa dos 100 anos da presença franciscana entre os indígenas Munduruku, promovida pela Aliança Francisclareana.

2. Presentes: toda a comunidade indígena da missão (crianças, jovens, que são 75 só do modular ensino médio, fora os outros), mulheres, homens, o bispo de Itaituba, dom Vilmar, em primeira viagem subindo as corrredeiras do Tapajós, a coordenação da aliança fransiclareana e o convidado para refletir sobre a ameaça do governo em construir hidrelétricas na bacia do rio Tapajós, padre Edilberto Sena.

3. O dia 02.05 foi dedicado ao estudo sobre o plano da Eletronorte de construir  hidrelétricas  e ameaças aos povos  da região tapajônica, especialmente ao povo Munduruku. Este povo é composto de cerca de 10.000 pessoas, com grande número de crianças e jovens. Estão em 105 aldeias na região mundurucânia, com terras demarcadas. Seus líderes são conhecidos por capitães.

4. A metodologia utilizada foi o uso do Power point com a mensagem expressa por frases afirmativas, fotos expressivas e comentários. Para melhor compreensão, tínhamos um bom intérprete, o Carlos munduruku, pois muitos mais velhos não compreendem o português mais técnico. De vez em quando um deles tomava a palavra e expressava aos outros seu ponto de vista sobre as preocupações com o desastre prometido pelo governo federal. Suas preocupações principais são: barragens vão prejudicar as fontes de alimento, pois dependem da pesca e da mata. Vão acabar com o peixe e com a  caça, por isso não aceitam barragens em seus rios.

5. Conteúdo do estudo: No primeiro encontro realizado dois anos atrás, foram mostrados os planos do governo de construir 05 hidrelétricas na bacia do Tapajós e que, se isso ocorresse,  haveria desastres para o povo munduruku, os povos rebeirinhos e urbanos da região do Tapajós. Agora, o estudo mostrou que o governo continua obstinado com seu plano e o projeto Belo Monte no rio Xingu, que é um espelho para o que poderá acontecer na região do Tapajós, vive lá um confronto aberto entre o governo, enfiando goela abaixo o projeto e os movimentos sociais que defendem a vida, com apoio de aliados nacionais e internacionais. O governo está acuado agora porque a Organização dos estados Americanos - OEA está exigindo respeito à constituição nacional e aos tratados internacionais, dos quais o Brasil é signatário. O motivo do processo da OEA é justamente os direitos dos povos indígenas, que estão sendo desrespeitados pelo governo no Xingu. Isso é um alerta para o povo Munduruku.

6. Aberta a palavra,  vários dos presentes tomaram o microfone e expressaram sua decisão de que não querem barragens de jeito nenhum, porque vão acabar os peixes e as caças e eles precisam viver. A exposição mostrou a eles que não estão só nessa luta em defesa da vida e dos povos do Tapajós. A lista de companheiros foi apresentada com: Aliança Tapajós Vivo (com coordenação em Itaituba), Associação Pussuru (dos munduruku das 105 aldeias), Aliança Francisclareana, Frente em defesa da Amazônia, - FDA, com sede em Santarém, dioceses de Itaituba e Santarém, União dos Estudantes universitários de Santarém. Foram chamados a se pronunciar os representantes presentes. O bispo, Dom Vilmar, recém empossado em sua prelazia expressou claramente que podem contar com a Prelazia de Itaituba nessa luta, que também ele é contra barragens destruidoras  da vida e das culturas do povo; Irmã Helena Calderaro, se expressou pela  Aliança francisclareana, garantindo que já vem engajada na defesa dos indígenas e assim continuará combatendo as hidrelétricas na Amazônia e no Tapajós em especial. Edilberto Sena, se expressou em nome da FDA, garantindo que seu movimento social iniciou a reflexão e seus estudos sobre esses planos do governo 4 anos atrás e vem compreendendo as desgraças que serão as hidrelétricas. A FDA tem se posicionado sempre contra e faz militância em defesa da vida e assim continuará.

Tais depoimentos reforçaram o compromisso dos indígenas presentes no encontro a se comprometerem também com uma concreta resistência aos planos do governo. Na pausa para o almoço, uma pessoa não indígena, chamou atenção para o método instigador das exposições, quando foi relembrado que os antigos munduruku eram famosos por cortarem as cabeças dos inimigos vencidos e que o governo deveria saber disso. Dizia a pessoa que o raciocínio do índio é diferente do não índio e que ele não entende de frases figurativas e que, hoje eles podem voltar a enfrentar os técnicos da Eletronorte que chegarem por aqui, cortarem mesmo as cabeças  deles e, como são protegidos por lei não serem punidos, mas um de nós será responsabilizado.  Foi-lhe respondido que esse era um risco que se deveria correr, pois o governo está violentando as leis e provocando a morte dos ribeirinhos e indígenas. Não se pode ser prudente demais, porém vamos tomar alguns cuidados na relação com a cultura diferente da nossa.

7. Pela parte da tarde, após mostrarmos um curto documentário sobre ao situação das mudanças climáticas e morte da natureza, foi feita uma ligação com o que poderá acontecer aqui na região, caso permitamos acontecerem as barragens: animais morrendo, desaparecendo, gente entrando em desespero de fome. Então, os presentes foram divididos em grupos de seis, oito pessoas para responderam a seguinte questão: O que vamos fazer para impedir o governo de fazer hidrelétricas na nossa região?

Após um tempo de discussões foi realizado um plenário e os relatores leram suas respostas em número de 13, lidas em munduruku e traduzidas em português. Então foram expostas no quadro e todos foram convidados(as) e escolherem 4 que achavam mais práticas. Após 10 minutos de silêncio para escolha pessoal se colheram os votos. Foram eleitas 4 propostas:

a)     Nunca aceitar as desgraças das hidrelétricas;

b)    Se o governo não desistir de seu plano de barragens, vamos enfrentar com nossos guerreiros;

c)     Iremos até de canoa, remando enfrentar nossos inimigos. Não será longe porque sempre andamos assim;

d)    Se o governo não desistir de seu plano de barragens, não vamos parar de luta contra barragens.

Ao final do dia, ficou combinado que quatro jovens escreveriam um manifesto a ser enviado às 105 aldeias, com o resumo do estudo e um convite para fazerem uma visita em cada aldeia, junto com os capitães da missão, Vivaldo Crixi e Humberto Acai, para estudar como fazer a resistência aos projetos do governo.

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