O amor cristão é possível?

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21 Fevereiro 2020

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 7º Domingo do Tempo Comum, 23 de fevereiro de 2020 (Mateus 5,38-48). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em continuidade com o trecho do Evangelho do domingo passado, escutamos hoje as duas últimas “antíteses”, assim chamadas, estabelecidas por Jesus entre a interpretação redutiva da Lei e a novidade da sua proposta, que sabe voltar à intenção do próprio Deus. Qual é, em síntese, a “justiça superior” (cf. Mt 5,20) que Jesus requer dos seus discípulos? É amor ao próximo (cf. Mt 19,19; 22,37), até ao inimigo.

São duas as conjugações desse preceito propostas por Jesus. Em primeiro lugar, ele cita a chamada “lei do talião”: “Olho por olho, dente por dente” (Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Essa norma, que também tinha a sua positividade, na medida em que havia surgido para limitar a vingança por um mal sofrido, é amplamente superada por Jesus ou, melhor, virada de cabeça para baixo: ele anuncia um amor superabundante por aqueles que cometem um abuso contra nós.

Portanto, Jesus pede aos que aderem a ele a pôr em prática a paradoxal lei da não violência, que consiste em não se opor ao malvado, e ele faz isso com três exemplos extremamente claros na sua paradoxalidade: oferecer a outra face a quem nos esbofeteia, dar até o manto a quem exige a túnica de nós, caminhar dois quilômetros com quem quer nos forçar a andar um com ele. E acrescenta, em termos absolutos: “Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.

Já é inerente a essas palavras o pedido de um amor gratuito e unilateral, que se traduz em saber responder ao mal com o bem (cf. Rm 12,21). Mas isso se torna explícito e é expressado positivamente nas afirmações subsequentes de Jesus: “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!”.

Diante desse mandato que Jesus deu – digamo-lo imediatamente – com a autoridade de quem o viveu até o extremo (pensemos apenas na sua atitude durante a paixão e morte na cruz), podemos ousar uma palavra nossa somente com temor e tremor.

De fato, estamos no coração do Evangelho, no coração da singularidade do caminho aberto por Jesus Cristo, e todo comentário corre o risco de diminuir a clareza das exigências postas pelo Senhor.

Acima de tudo, pode-se notar que Jesus vincula estreitamente o amor por quem nos hostiliza à oração por ele: na oração, podemos, por graça, ver quem nos faz mal à luz do mistério de Deus, que nos amou em Cristo enquanto nós éramos seus inimigos (cf. Rm 5,6-10); na oração, podemos até compreender que o inimigo é o nosso verdadeiro médico e mestre, porque nos revela as pulsões egoístas que habitam profundamente o nosso coração, ou seja, o nosso desejo de viver sem os outros e, às vezes, contra eles.

Jesus acrescenta ainda outra motivação a esse amor ou, melhor, uma finalidade que está diante de nós como uma promessa que começa a se tornar realidade já hoje: “Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos”.

Sim, nós só nos tornamos filhos de Deus, “partícipes da natureza divina” (2Pd 1,4), na medida em que nos comportamos como ele, que, no seu amor incondicional, não faz distinção de pessoas. E, para que essa exigência fique clara, Jesus insiste na necessidade de sair do fechamento no terrível curto-circuito da reciprocidade (ame quem já nos ama, cumprimente apenas os próprios irmãos...), um verdadeiro “vírus” que deve ser estranho ao comportamento dos seus discípulos.

Não, quando o cristão encontra outra pessoa, ele tem a dívida do amor para com ela (cf. Rm 13,8), a dívida de narrar com a própria vida o amor vivido por Jesus Cristo: a quem quer que seja, sem qualquer limite.

Por fim, Jesus conclui essa parte do seu discurso com uma palavra que não deve nos assustar, mas que, na realidade, representa uma extraordinária abertura de horizonte, se soubermos acolhê-la com a inteligência iluminada pela fé: “Sede perfeitos – ou, melhor, ‘completos, íntegros’ – como o vosso Pai celeste é perfeito”.

Jesus não exorta a um ideal abstrato de perfeição moral, mas ao pleno cumprimento da Lei de Deus de acordo com a interpretação que ele mesmo acabou de dar, que se traduz concretamente em um amor “completo”, sem limites nem distinções, à imitação do amor de Deus.

Essa afirmação é, para nós, uma grande promessa: o amor ao inimigo, impossível apenas às forças humanas, torna-se possível no seguimento de Jesus e graças a um dom que vem de Deus.

Essa é a justiça superabundante a que somos chamados, esse é o amor que recapitula toda a Lei (cf. Rm 13,10; Gl 5,14) e que pode dar sentido às nossas vidas.

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