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20 Setembro 2019

Em nome de Deus, Amós se mostra implacável com uma sociedade corrompida, que se enriqueceu nas costas dos pobres. O salmista celebra um Deus que se distingue por intervir em favor dos fracos. Também o Deus de Jesus se fez amigo e servidor dos fracos e oprimidos. Daí a pergunta: quem é o teu senhor? Para onde vão os gritos dos que não têm voz, senão para Deus? Como negar a imensa injustiça que domina toda a terra e todas as nações... Não! Não podemos servir a Deus e ao dinheiro nem fazer do nosso interesse pessoal o objetivo de nossas vidas.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando o evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum - Ciclo C ( 22 de setembro de 2019). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas

1ª leitura: “Aumentar pesos e adulterar balanças, dominar os pobres com dinheiro e os humildes com um par de sandálias.” (Amós 8,4-7).
Salmo: Sl. 112(113) - R/ Louvai o Senhor, que eleva os pobres!
2 leitura: Paulo recomenda “que se façam preces por todos os homens”, pois Deus quer “que todos sejam salvos” (1Timóteo 2,1-8).
Evangelho: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lucas 16,1-13 ou 10-13).

O dinheiro injusto

Por que o dinheiro é qualificado como injusto? Quanto ao dos exploradores da primeira leitura, está claro, não tem problema. Mas notemos bem os dois níveis: primeiro, o dinheiro é adquirido por fraude; em seguida, serve para “comprar o infeliz”. No princípio, toma-se posse de um bem que não é seu e, num segundo momento, usa-se este bem para comprar aquele de quem o bem fora tirado, a fim de sujeitá-lo. É um processo extremamente moderno. Usar o dinheiro para sujeitar alguém é o contrário de utilizá-lo para fazer amigos, ou seja, para estabelecer uma comunhão (3ª leitura). Voltemos à pergunta inicial: será que o dinheiro é tido como injusto «porque na origem de quase todas as fortunas há alguma desonestidade» (cf. nota da Bíblia de Jerusalém)? Talvez, mas creio que é preciso ir mais longe. O dinheiro é iníquo em si mesmo, porque aparenta prometer o que não pode dar; o dinheiro mente, é enganoso. O administrador é desonesto porque suas contas não dizem a verdade: e a mesma coisa acontece com o dinheiro. Encontramos aí, portanto, o tema da idolatria e é a justo título que as nossas bíblias, nesta passagem, escrevem Dinheiro com D maiúsculo. O dinheiro torna-se ídolo quando buscado por si mesmo, aliás, como instrumento de poder («sereis como deuses») e em detrimento das pessoas. É o que na encíclica «Laborem exercens» S. João Paulo II chama de «economismo».

«E eu vos digo»

Expressão que faz lembrar o Sermão da Montanha. Jesus visivelmente vai dizer algo diferente do que diz o senhor da parábola, posto que este, tomado também pelo sistema do dinheiro, admira-se com a astúcia de seu administrador. O discurso de Jesus, logo em seguida, não é nenhum elogio à desonestidade, mas, ao contrário, é uma apologia à gestão fiel do dinheiro injusto, qualificado também como bem alheio. Da minha parte, vejo esta gestão fiel como uma mudança na destinação dos bens, conforme já disse: em vez de fazer dele um instrumento de poder de sujeição, devemos usá-lo como instrumento de amizade. A amizade põe as pessoas no mesmo pé de igualdade. E as “moradas eternas” aí referidas são lugar de comunhão, não se pondo a questão de a elas termos acesso se nossa aventura terrestre não for um empreendimento de comunhão. Esclarecendo, estas «moradas» são somente a situação em que vivemos dia-a-dia. Por que chamar de «alheios» os bens que devem ser administrados? As notas de nossas bíblias explicam que a riqueza é alheia porque é “exterior ao homem”, enquanto que os bens espirituais são «nossos» porque “podem pertencer ao homem” (cf. abaixo: nota da Bíblia de Jerusalém). Sim, está claro, mas não me satisfaz. Creio que toda a riqueza da terra é alheia a cada um de nós porque, segundo o ensinamento bíblico constante, ela pertence a todos (ver a parábola dos talentos, em Mateus 25). Então, qual bem que é próprio nosso, que pertence somente a nós?

O bem que nos pertence

Também é chamado de «o bem verdadeiro», em oposição ao dinheiro mentiroso (injusto - v. 11). Ora, no versículo 13, o dinheiro é posto em oposição a Deus. Isto nos faz pensar que o verdadeiro bem, este que pode tornar-se realmente nosso, é o próprio Deus. Daí vem a fórmula «quem vos dará o que é vosso?»: Deus pode ser o bem do homem, mas somente como dom recebido. Assim encontramos uma verdade elementar da nossa relação com Deus: quem quer dominar (ver a 1ª leitura) não pode receber. Somente o vazio pode ser preenchido. Quem quer se apoderar copia a atitude descrita na história de Adão, que quis apoderar-se da condição divina, não crendo que o próprio Deus queria dá-la. Pois é Deus mesmo o bem do homem (Lucas 18,19) porque Ele é a Vida.

Mostrar-se hábil

O administrador da parábola soube usar o dinheiro alheio (o do seu senhor) para fazer amigos. Ao fazer isto, mostrou-se indigno de confiança e inapto para receber o bem verdadeiro (v. 11). Mas a habilidade de que deu prova na desonestidade, enquanto filho deste mundo, copiemo-la na honestidade, enquanto filhos da luz. Suprema habilidade esta que nos abre ao bem verdadeiro. Com frequência, sabemos discernir o que de fato é bom, quando se trata de comprar objetos; saibamos fazê-lo ainda melhor quando se trata do que é fundamental.

 

Nota:

Segundo o costume tolerado na Palestina naquela época, o administrador tinha o direito de conceder empréstimos com os bens do seu senhor. E, como não era remunerado, ele se indenizava aumentando, no recibo, a importância dos empréstimos. Assim, na hora do reembolso, ficava com a diferença como um acréscimo que era o seu juro. No presente caso, não havia emprestado, na realidade, senão 50 barris de óleo e 80 medidas de trigo. Pondo no recibo a quantia real, privava-se apenas do benefício – para dizer a verdade, usurário – que havia subtraído. Sua “desonestidade” (v.8) não consiste, pois, na redução dos recibos – o que não é senão um sacrifício de seus interesses imediatos, manobra hábil que o senhor pode louvar – mas antes nas malversações anteriores que motivaram a sua demissão (v.1). (Nota da Bíblia de Jerusalém)

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