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08 Março 2019

As palavras «hoje» e «agora» são características do livro do Deuteronômio, onipresente nas leituras deste domingo. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a Palavra pede sempre uma apropriação pessoal e uma atualização. Na Quarta-Feira de Cinzas, fomos convidados a nos deixar reconciliar com Deus, a orar, compartilhar os nossos bens e jejuar em segredo. Hoje, é preciso que entremos no êxodo de Israel a caminho da terra prometida. Entrar e deixar-nos guiar por Jesus "no deserto", contando com a força da Palavra que o tornou capaz de vencer o adversário, etapa decisiva para a sua Páscoa.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando o evangelho do 1º Domingo da Quaresma - Ciclo C (10 de março de 2019). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas:

1ª leitura: A profissão de fé do povo eleito (Deuteronômio 26,4-10)
Salmo: Sl.90(91) - R/ Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!
2ª leitura: A profissão de fé em Jesus Cristo (Romanos 10,8-13)
Evangelho: "No deserto, foi guiado pelo Espírito e, ali, foi tentado pelo diabo" (Lucas 4,1-13)

Um Deus de vida

Jesus tinha acabado de se fazer batizar por João quando recebeu o Espírito e ouviu a voz que o declarou «Filho bem-amado» e, imediatamente, o Espírito conduziu-o ao deserto. Queria sem dúvida meditar nas palavras emocionantes que acabara de ouvir e, também, buscar responder à seguinte questão: o que significa e o que exige ser Filho de Deus?

Seu retiro durou quarenta dias. Não por acaso, a quaresma conserva este mesmo tempo de duração. O número quarenta é simbólico: foram quarenta dias de dilúvio; Moisés ficou por quarenta dias na montanha sem comer nem beber, para ali receber a Lei; foram quarenta anos de Êxodo no deserto, etc.

O paralelo entre Jesus e Moisés é evidente: nestes quarenta dias é que se vai afirmar a nova Lei, a do Reino. Antes de precisar o sentido, notemos que a quaresma nos propõe retomar, também nós, todas as coisas a partir do zero; refazer o inventário das nossas razões de viver e de esperar; e redescobrir as fontes da nossa vida, da nossa alegria e felicidade (ver comentário precedente).

A quaresma não é um tempo de tristeza, mas de verificação dos motivos que comandam os nossos comportamentos; não para nos afligir, mas para que retomemos nossa vida. E ao fazer isso, não devemos esquecer que o número quarenta representa uma totalidade, uma inteira vida humana. Assim, os quarenta dias da nossa quaresma concentram e significam as jornadas todas da nossa existência. Jesus, até o fim de seus dias, foi tentado pelas ilusões de seus ouvintes a viver um messianismo de poder. Daí a veemência da sua resposta a Pedro, que queria impedi-lo de se dirigir a Jerusalém, onde seria crucificado (ver Mateus 16,23, onde Pedro se fez tratar como «Satanás»). Até o fim: no Getsêmani, Jesus pede ao Pai para dispensá-lo do cálice que devia beber.

 

As tentações

Em todos nós há uma força que nos impele a preferirmos nós mesmos a todos os outros; a tomarmos o poder e dominar. No seio das nossas famílias, em nosso meio profissional, no âmbito do Estado: «Todos os reinos do mundo, eu te darei…». A ambição é um tirano demoníaco que muitos consideram virtude. Somos convidados a atrair, por nossas façanhas e realizações, a atenção e a admiração dos outros: «Se és o Filho de Deus (conforme ouviste em teu batismo), atira-te daqui (do pináculo do templo) abaixo…».

Jesus vai com certeza fazer muitos milagres, mas por amor e não por busca de notoriedade. Tanto assim que pede aos beneficiários que não digam nada a ninguém. Notemos que, às três tentações que interpretam as Escrituras a contra-senso -da mesma forma que fez a serpente com a palavra de Deus em Gênesis 3-, ele responde com três citações do Deuteronômio. Sendo Palavra de Deus, Jesus submete-se à Palavra. Obedece: «abaixou-se, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz» (Filipenses 2,8).

Jesus, portanto, vai em direção contrária às nossas reações espontâneas. Também às suas, sem dúvida, uma vez que os evangelistas situam as suas tentações no limiar da sua «vida pública», bem aí onde começam o anúncio do Reino de Deus e o convite para se entrar nele. São três as tentações. Temos também aqui um número significativo: representa a multidão, a pluralidade e uma espécie de perfeição: são três pessoas em Deus, três pessoas na família de Jesus, três dias para ressuscitar, três negações de Pedro… Uma infinidade de tentações ou, antes, uma só: o culto a si mesmo, que ganha uma infinidade de formas.

 

Deus é o Deus da vida e não da morte

Por que Deus nos deixa ser atormentados pelas tentações? Porque é livremente que devemos nos entregar a Ele. Temos de escolher entre Ele e nós, entre adorar a Deus ou adorar-nos a nós mesmos. Escolhendo nós mesmos, separamo-nos d’Aquele que é a nossa origem permanente e vamos em direção ao nada e à morte.

Assim como Cristo, também nós somos incessantemente gerados pelo Pai, e a nossa verdade, de homens e mulheres, consiste em voltarmos a esta Origem para nascermos de novo: livremente Deus nos faz ser, livremente aderimos a Ele. A nossa existência é uma questão de aliança entre Ele e nós.

As tentações de Cristo reduzem-se de alguma forma a querer forçá-lo a agir, enquanto que ele veio para que, enfim, haja na humanidade alguém que, única e integralmente, faça a vontade do Pai. Vontade que, justamente por ser Ele Pai e somente Pai, é vontade de vida. É precisamente o nosso incessante renascimento que nos faz escapar da morte. Jesus entrega-se ao Pai e escolhe adorar somente a Ele. Adorar consiste em colocá-Lo acima de tudo, acima de si mesmo e de qualquer tipo de posse terrestre, sucesso, glória ou poder. Não será com as pedras que Jesus fará o pão, mas com a sua própria carne. Desta forma a Páscoa já se faz presente em suas mesmas respostas às tentações.

Todo movimento de recuo de Jesus diante da perspectiva da paixão irá se concentrar naquele momento para o qual ele veio ao mundo. E este foi o tempo fixado para a última vinda do tentador. Quando então Jesus decidiu: «Pai, não se faça a minha vontade, mas a tua.» Pois sabe que, apesar do êxodo sangrento que terá de percorrer, a vontade do Pai não é a morte, mas a vida.

 

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