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25 Agosto 2017

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, sacerdote jesuíta, comentando o evangelho do 21° Domingo do Tempo Comum do ciclo A (27/08/2017) que corresponde a Mateus 16,13-20.

Já agradecemos alguma vez pelas perguntas que nos fizeram? Em um diálogo, as perguntas são a ponte entre as vozes, a confluência de corações, o brilho de luz compartilhada. Todas e cada uma delas nos fizeram crescer, mesmo aquela que parecia a mais trivial. Porque cada pergunta vem carregada de matizes, umas com carinho, outras de atenção ou de interesse, e, inclusive, algumas de desafio... Umas foram respondidas, outras não sabíamos como respondê-las, talvez nunca saberemos respondê-las...

A pedagogia de Jesus nos Evangelhos é feita de perguntas.

Jesus é um Deus que pergunta. São inúmeras as vezes em que Ele se aproxima das pessoas e as interroga. Desde o “que buscais? ”, no início do evangelho de São João, passando pelas perguntas na região de Cesareia de Filipe, “quem dizem os homens ser o Filho do Homem? ”, “e vós, quem dizeis que eu sou? ”, até a tríplice interpelação a Pedro, “tu me amas”?

Aquele que é a Verdade, o Caminho e a Vida, também se compõe de perguntas.

Jesus, com sua pedagogia fundada em perguntas, nos coloca diante do mistério de Sua vida e de Suas opções. Responder à pergunta “quem é Ele” é comprometer-se com Ele, é assumir o caminho d’Ele, é arriscar-se n’Ele.

Jesus aproxima-se das pessoas. Não procura convencer, argumentar, ou fazer seguidores à base de discursos. Suas perguntas ousadas colocam em crise visões distorcidas, falsas concepções e ideias preconcebidas a respeito d’Ele. Com sua pergunta, Jesus provoca uma radical decisão pró ou contra Ele, uma clara opção pró ou contra o Reino.

Um cristão que nunca tenha proposto seriamente esta questão a si mesmo, de uma maneira vital, não está maduro na maneira de viver o seguimento de Jesus Cristo.

Como cristãos nós nos definimos mais pelo perguntar do que pelo responder. “Perguntar” é buscar, é despertar a capacidade de nos deslumbrar diante deste mundo fenomenal que somos nós e diante desta realidade que nos circunda.

A espiritualidade cristã reacende em nós as grandes “interrogações existenciais”: – “Quem somos nós?Que estamos fazendo?Por que estamos fazendo?Para quem estamos fazendo?...” Índole interrogatória é traço típico da espiritualidade cristã; o perguntar é ousado; perguntar desafia, tem dose de irreverência; são perguntas de “conversão”, de mudança, que abrem para o futuro, para o novo. A pergunta é movimento, é vida... e suscita resposta viva, criativa, surpreendente... e inesgotável.

Não são perguntas para começar a caminhar, mas para reforçar nosso espírito de aventura e mobilizar nossos recursos interiores na busca do “sentido” de nossa identidade e da missão que realizamos.

Tais perguntas trazem à tona nossas motivações, nossas formas de agir, de amar e de sentir...

A busca é interior, o caminho é pessoal e coletivo, a resposta tem um toque de eleição comunitária.

Desde o início, ainda no paraíso, Deus buscou o ser humano com uma pergunta: “onde estás?”. Deus nos busca continuamente com suas perguntas. Nós somos resposta a essa pergunta primordial.

Igualmente, o ser humano é um amontoado de perguntas, é um ser que pergunta. Com pouco tempo de nascimento e quando vai se abrindo à aventura da vida começam suas perguntas: “por quê?”... Uma infinidade de “por quês?”

Também somos uma pergunta que fazemos a Deus e esperamos resposta. Quantas gostaríamos de fazê-las a Deus? Mas a resposta só virá quando o nosso coração estiver preparado para escutá-la: sem medo, sem angústias, em atitude de espera e confiança.

“Sê paciente com tudo o que ainda não está resolvido em teu coração... Procura amar tuas próprias perguntas... Não busques as respostas que não podem ser dadas, porque não serias capaz de vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez assim, gradativamente, sem dar-te conta, possas algum dia viver as respostas” (Rainer María Rilke).

De fato, habitamos nas perguntas. Viver à escuta das interrogações nos mantém despertos no caminho.

São as perguntas que suscitam em nós o assombro frente à riqueza da realidade, a preocupação frente ao drama da humanidade, a disposição frente ao futuro..., exigindo-nos assim viver continuamente numa atitude de escuta.

A mediocridade das respostas formatadas paralisa e fecha as portas às novas possibilidades. As perguntas, ao contrário, são o fio de ouro em meio ao cascalho que mobilizam o garimpeiro a buscar sem cansar. As respostas cortam o movimento, atrofiam a curiosidade, matam a criatividade e o espírito de aventura; elas impedem a mobilização dos recursos interiores da pessoa na construção do conhecimento, levando-a à apatia e à acomodação.

O momento é de tecer perguntas onde há mais respostas formatadas e fechadas.

Urge, pois, implementar e desenvolver hábitos, processos, que nos ajudem a sermos mais intuitivos através das perguntas que abrem acesso às reservas interiores de criatividade e imaginação, frente aos desafios cotidianos.

A pergunta “quem é Jesus” não pode ser respondida simplesmente com os dogmas.

A resposta deve ser prática, brotar do chão da vida. Nossa vida é a que tem que dizer quem é Jesus Cristo para nós. “Que diz tua vida de mim?”

Do esforço dos primeiros séculos da Igreja por compreender a Jesus, devemos fazer nossas, não as respostas que deram, mas as perguntas que foram feitas.

A verdadeira pergunta é: “que é, que significa Jesus Cristo em nossa vida?” Não basta dizer que cremos em Jesus. É preciso nos perguntar: em que Jesus cremos e quem é Jesus para nós?

 

 

 

Para meditar na oração

Nosso coração se encontra diante da revelação do “eu original”, porque está enraizado na identidade do próprio Jesus (“Quem sou eu para vocês? ”).

A contemplação da pessoa de Jesus é também desvelamento do eu “escondido com Cristo em Deus” (Col 3), ou seja, revelação da verdade do eu, onde descobrimos os traços de nossa própria fisionomia.

Não posso responder a essa pergunta – “Quem é Jesus para mim? ” – se não me pergunto ao mesmo tempo: “Quem sou eu, diante do Senhor?” Sem identificação não haverá um encontro profundo com o Senhor.

O encontro comigo mesmo me aproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela minha própria identidade.

 

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