“Quem se humilha será elevado”

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21 Outubro 2016

Quem faz parte do Reino de Deus? Esta questão está posta desde o 28º Domingo do Tempo Comum: faz parte do Reino de Deus quem sabe dar graças (28º Domingo), quem reza sem descanso (29º Domingo) e (hoje) quem tem um coração que não busca salvar-se a si mesmo, mas deixa-se ser salvo por Deus.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire,comentando as leituras do 30º Domingo do Tempo, do Ciclo C (23 de outubro de 2016). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas

1ª leitura: As súplicas dos pobres “subirão até as nuvens” (Eclesiástico 35,15-17.20-22)

Salmo: 33(34) - R/ O pobre clama a Deus e Ele escuta: o Senhor liberta a vida dos seus servos.

2ª leitura: “Está reservada para mim a coroa da justiça” (2 Timóteo 4,6-8.16-18)

Evangelho: O publicano “voltou para casa justificado, o outro (o fariseu) não” (Lucas 18,9-14)

Só Deus é "justo"

Não é dito que o fariseu da parábola estivesse mentindo ou incorresse em algum engano, ao enumerar os seus atos de justiça. O mesmo pode ser dito do publicano, um coletor de impostos para Roma.

Tendo de levantar uma soma fixa, muitos publicanos não hesitavam em exigir mais, para proveito próprio. Mesmo se este publicano se abstivesse de tal prática, reconhecia-se, contudo, «pecador».

Como podemos imaginar possuir algum título pelo qual merecêssemos o amor de Deus, se Deus mesmo é quem está na origem de tudo o que, em nós, pode haver de bom? À primeira vista, o fariseu não se reconhece como pecador, pois agradece a Deus pelo bem que faz.

Considera-se, no entanto, autor deste bem, o que equivale a tomar o lugar de Deus, e se acha superior aos «outros homens», em particular, ao publicano. Faz o inventário da sua observância da Lei e de suas práticas de piedade.

Por isso a sua justiça torna-se injustiça; injustiça para com Deus. Tem alguma razão em agradecer, mas erra quando se compara com os outros: é como se acusasse Deus de criá-los piores que ele, fariseu.

Reconheçamos, nesta passagem, que o que somos é em parte resultado do meio em que nascemos e das circunstâncias nas quais vivemos. Resultado, portanto, deste universo que, tendo sido confiado ao homem, é obra do próprio homem.

O fariseu, então, deveria ter dito: «Eu não seria o que sou, nem como sou, se tivesse nascido em outro lugar.» O que, portanto, é um privilégio, mas ele atribui a si próprio o mérito.

O publicano

Eis aí um homem que não tem nada para agradar. Teve sorte, no fundo, porque a vida que leva o conduz a reconhecer que, se para ele houver «salvação», esta salvação vem de Deus.

Como se reconhece vazio, desprovido de qualquer valor, vai se juntar ao vazio inicial, que é o espaço no qual Deus pode criar. É pura aspiração a ser. Ora, o pecado é, com efeito, a recusa a ser imagem e semelhança de Deus: é a escolha, portanto, da inexistência.

Reconhecermo-nos pecadores não é algo que se adquira: é preciso já ter ocorrido uma grande «graça», uma revelação. Mas esta revelação só se torna operativa na medida em que aceitamos acolhê-la.

A partir, então, deste «nada» que somos, Deus põe no mundo um ser novo, «justificado», justo como Deus é «justo». O publicano da parábola não dá graças como o fariseu, porque não encontra em si mesmo nada de bom, e porque está consciente de não ter acolhido o dom de Si mesmo que Deus lhe fazia. Ei-lo, pois, no caminho da justiça.

Desconfiemos de nós mesmos, pois temos a tendência de nos explicar e justificar tudo o que fazemos. As verdadeiras razões podem muitas vezes se manter escondidas de nós, especialmente se não queremos vê-las.

Temos a tendência de viver sob o regime dos pretextos. Tomar consciência disto nos coloca na situação do publicano: entreguemos isto para Deus e sairemos justificados. Mas vamos entender bem: esta justificação exige de nós uma mudança de programa.

A parábola não diz nada a propósito do publicano, talvez porque a «conversão» é a consequência, não a causa, de uma justiça que vem somente de Deus.

Não julgar

O fariseu não muda: sequer pensa ter necessidade disto, posto que se considera justo. A frase importante está aqui: «Eu não sou como os outros homens». Não temos de duvidar da sua boa conduta, que, aliás, atribui a um dom de Deus, a quem dá graças.

Tudo parece perfeito. Exceto por um detalhe: ele se permite julgar os outros. E, ao fazer isto, ocupa o lugar de Deus, que é o único juiz. Lugar de Deus? Claro, de um falso Deus, porque o julgamento de Deus não é a condenação, mas a justificação, por meio do perdão.

Isto é o que se vai verificar a respeito do publicano. O fariseu exclui-se da semelhança com Deus e subtrai-se do Seu amor, porque se considera justo e despreza todos os outros, conforme diz o texto. Ora, Deus não despreza ninguém, mas assume para Si mesmo, em Cristo, os pecados dos homens.

Existem comportamentos que, por certo, não temos de aprovar, como estes que o fariseu enumera e a respeito dos quais o Decálogo se manifesta. Mas uma coisa é criticar os comportamentos e, outra, fazer um julgamento sobre quem os pratica.

O que sabemos nós da sua vida? Em que meio cresceram eles? Não sabemos o que faríamos se estivéssemos em seu lugar. Sem contar a tendência que temos, de esquecer facilmente os nossos comportamentos defeituosos ou de sempre encontrar desculpa para eles.

Não vamos introduzir em nosso mundo o julgamento, pois senão corremos o risco de sermos nós mesmos suas primeiras vítimas. Aquele a quem rebaixamos na Cruz foi elevado acima de tudo. Voltemos, então, os olhos para Este a quem trespassamos; e para todos os que trespassamos.


Aprofunde sua reflexão:

A postura justa

Perfeição petrificada X misericórdia vivificante

A difícil tarefa

Um coração compassivo e misericordioso

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