Conversão do coração

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Por: André | 06 Dezembro 2013

Esperar! Ficar de pé na soleira, acordados e prontos para acolher Aquele que vem em cada momento da nossa vida. Sua vinda é tão simples, tão frequente, que ela nos aparece inesperada. Se pensarmos bem, o Natal já chegou! Deus-conosco todos os dias. Lembrem-se! Deus vem!

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 2º Domingo do Advento – Ciclo A do Ano Litúrgico. A tradução é de André Langer.

Referência bíblica:
Primeira leitura: Is 11,1-10
Segunda Leitura: Rm 15,4-9
Evangelho: Mt 3,1-12

Eis o texto.

Se o Advento é um tempo de conversão, isto é, um tempo para reorientar o coração para adotar atitudes de serviço, de acolhida do outro e de misericórdia para com os machucados da vida, penso que os textos bíblicos de hoje são propícios para isso: a primeira leitura (Is 11,1-10) nos convida a esperar um mundo onde a justiça será restabelecida e onde a paz reinará. A segunda leitura (Rm 15,4-9) nos exorta a ser misericordiosos para com os excluídos da sociedade e da Igreja por causa da esperança que nos habita, e o Evangelho (Mt 3,1-12) nos pede para expressar a nossa conversão em gestos concretos, atitudes verdadeiras e sinceras em relação aos nossos compromissos de crentes e de cristãos.

1. Primeira leitura: a esperança em um mundo melhor

Já se passaram mais de 2.700 desde que este texto foi escrito pelo primeiro Isaías. Decepcionado pelos reis de Jerusalém e, sobretudo, por Ezequias (716-687), o profeta Isaías anuncia a vinda de um novo rei, sobre o qual pousarão os dons do Espírito de Deus: “Sobre ele pousará o espírito de Javé: espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor de Javé” (Is 11,2). Esse novo rei sairá da linhagem davídica: “Do tronco de Jessé sairá um ramo, um broto nascerá de suas raízes” (Is 11,1); ele governará como o próprio Deus, sem julgar pelas aparências enganadoras: “Ele não julgará pelas aparências, nem dará a sentença só por ouvir” (Is 11,3). Ele combaterá pela justiça: “Ele julgará os fracos com justiça, dará sentenças retas aos pobres da terra” (Is 11,4a), mas bastará uma só arma: sua palavra: “Ele ferirá o violento com o cetro de sua boca, e matará o ímpio com o sopro de seus lábios” (Is 11,4b). A justiça e a fidelidade se encontrarão: “A justiça é a correia de sua cintura, é a fidelidade que lhe aperta os rins” (Is 11,5).

Uma visão idílica conclui este poema de coroamento, visão que poderia evocar a paz paradisíaca, à qual todos nós aspiramos: “O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá capim como o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente” (Is 11,6-8). Os animais e os homens que vivem esta paz e esta harmonia, não representam as diversas classes sociais da época? Ainda hoje, não é possível reconhecer as diversas classes sociais que impedem a paz e que fazem perdurar a injustiça?

No que diz respeito aos idosos, aos pobres, aos desempregados, aos desabrigados, não existe um sistema organizado em nossas sociedades que favorece a injustiça e do qual alguns tiram proveito? Pensemos em todos os escândalos em âmbito municipal e inclusive sindical onde a corrupção faz estragos e onde as malversações são moeda corrente. A população se pergunta se a corrupção não se generalizou em proveito de uma elite que encontramos em todas as escalas da sociedade quebequense, e que estaria protegida pelos governos de plantão.

Quando um prefeito favorece uma empresa da qual recebe uma compensação, quando um político recebe um suborno por favoritismo, quando circulam envelopes de dinheiro sujo para comprar pessoas, é uma injustiça para com o conjunto dos quebequenses que trabalham honestamente e que veem seus impostos servirem para enriquecer aquelas e aqueles em quem confiaram. Como cidadãos e como cristãos precisamos denunciar estas práticas: é uma questão de justiça e de dignidade para todos e particularmente para os mais pobres e os mais desfavorecidos dentre nós.

2. Segunda leitura: ser misericordioso

No tempo de Paulo havia cristãos que vinham do judaísmo, outros do paganismo, o que não facilitava a unidade. São Paulo convida, pois, todos os cristãos para se acolherem mutuamente e para se considerarem iguais entre si: “Acolham-se uns aos outros como Cristo acolheu vocês, para a glória de Deus” (Rm 15,7). Antes, São Paulo havia recordado aos cristãos que o que torna justo não é a Lei de Moisés, mas a fé no Cristo ressuscitado.

Ainda hoje, há crentes, católicos, fiéis observantes da Lei da Igreja, que se acham superiores aos outros. Ao atualizar a palavra de Deus, devemos pedir aos fervorosos católicos para que deem mostras de misericórdia para com os outros e para acolhê-los incondicionalmente; também eles fazem parte da grande família cristã. Como no tempo de São Paulo, não é fácil, porque aqueles que julgam, que condenam e que excluem, são, muitas vezes, os mais fervorosos observantes da Lei e os mais praticantes liturgicamente falando. Eles tornam-se, portanto, um contratestemunho de Cristo que eles acreditam representar. A Palavra de Deus é desconcertante por sua atualidade. Ela é tão perturbadora hoje quanto foi no tempo de São Paulo.

3. Evangelho: a conversão do coração: passar da palavra aos atos

A conversão do coração requer mais do que as palavras que dizemos; são gestos concretos que devemos realizar para significar a mudança que se operou em nós. No fundo, não basta receber o batismo para significar o nosso desejo de conversão; é preciso também mudar as nossas atitudes e os nossos comportamentos para com os outros. Caso contrário, somos como os fariseus e os saduceus do evangelho, que Mateus denuncia: “Quando viu muitos fariseus e saduceus vindo para o batismo, João disse-lhes: ‘raça de cobras venenosas, quem lhes ensinou a fugir da ira que vai chegar?’” (Mt 3,7). O que isto quer dizer?

Hoje, em vez de utilizar a expressão “raça de cobras venenosas”, diríamos antes racistas ou hipócritas, porque no plano religioso os fariseus eram chamados de puros, separados, e os saduceus faziam parte desta casta sacerdotal que se achava superior aos outros. Esses dois grupos tinham certeza da salvação, porque eram membros do povo eleito. Eles reservavam para si o título de filhos de Abraão. Os outros não contavam. E é por isso que Mateus lhes diz, pela boca do profeta João Batista: “Façam coisas que provem que vocês se converteram. Não pensem que basta dizer: ‘Abraão é nosso pai’. Porque eu lhes digo: até destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão” (Mt 3-8-9). Em outras palavras, não lhes cabe apropriar-se do título de filhos de Abraão.

Infelizmente, ainda hoje, são muitos aquelas e aqueles que se reservam o título de bons católicos ou de bons cristãos. São muitos os fariseus e os saduceus na Igreja que se acham os únicos que serão salvos e que dizem pertencer a Cristo. Ao atualizar o evangelho de Mateus, nos damos conta rapidamente de que também eles dão contratestemunho do Cristo ressuscitado. Deformam a imagem de Cristo e fazem mais mal à Igreja do que aqueles que a abandonaram completamente.

Portanto, é necessário ter esperança e coragem para fazer frente à ameaça que vem desses dois lados ao mesmo tempo: do lado daquelas e daqueles que gostariam de eliminar a fé e a religião da sociedade e do espaço público, e do lado dos fundamentalistas religiosos, que acreditam ser os detentores da verdade e que excluem todas aquelas e aqueles que não pensam como eles, inclusive tratá-los como relativistas religiosos.

Para terminar, gostaria de propor esta bela reflexão da Laurette Lepage, de Quebec, que sempre deu testemunho de uma coragem exemplar em seu compromisso de fé. Em 2010, ela escreveu: “Nestes dias difíceis que vivemos, poderia o tempo do Advento renovar a nossa esperança? Uma firme esperança, ancorada em Deus e que permite viver plenamente no hoje. ‘Endireita-vos e levantai-vos: vossa libertação está próxima’. Apoiados nesta palavra de Deus, poderíamos esperar, não como pessoas curtidas, esmagadas, sem fôlego, não mergulhadas no medo e na inquietude, mas na alegria de um grande desejo. Esperar! Ficar de pé na soleira, acordados e prontos para acolher Aquele que vem em cada momento da nossa vida. Sua vinda é tão simples, tão frequente, que ela nos aparece inesperada. Se pensarmos bem, o Natal já chegou! Deus-conosco todos os dias. Lembrem-se! Deus vem!”

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