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27 Setembro 2013

Em continuação ao domingo passado, o evangelho nos fala hoje de um homem rico que, como no Magnificat, tem as mãos vazias. No Reino, os privilegiados não são os ricos, mas os pobres.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 26º Domingo do Tempo Comum. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Foto:http://www.tengoseddeti.org

Referências bíblicas:

1a leitura: Amós 6,1.4-7
2a leitura: 1Timóteo 6,11-16
Evangelho: Lucas 16,19-31

Uma história de hoje

Temos aí dois homens que, nitidamente, nada têm a fazer de suas vidas. O primeiro, de quem o evangelho sequer diz o nome – para nos dizer, com certeza, que, apesar de toda a sua riqueza e de suas roupas de luxo, encontra-se destituído de qualquer valor verdadeiro –, corresponde muito bem, na primeira leitura, àqueles que “deitam-se em almofadas”. Também estes conhecerão uma revirada na situação que os fará experimentar a extrema pobreza. Devemos de imediato observar que o futuro apenas revelará a pobreza que se faz presente desde então, na nulidade espiritual e humana destes, para quem os outros não existem. O segundo homem, chamado Lázaro, mostra-se incapacitado para qualquer trabalho. Está deitado, não num leito de madeira, mas na terra nua, às portas da cidade, fora dos muros da prosperidade. A parábola não economiza os sinais da sua decadência: coberto de chagas vive entre os cães, que vêm lamber-lhe as feridas. Lázaro representa toda a tristeza e sofrimento humano dos que não podem seguir vivendo sem o socorro dos outros. Na parábola, estes outros nem se movem. Será que o rico despreza Lázaro? Nem a isto ele chega; simplesmente não o vê. Também nós, mesmo sem dispor de roupas luxuosas nem fartarmo-nos em banquetes suntuosos, corremos o risco de ignorar a miséria que nos circunda. E se a mídia a ela nos expõe, tratamos logo de apagá-la da nossa mente, sob o pretexto de não podermos fazer nada. Será que temos certeza  mesmo de que não podemos fazer nada?

A mudança de situação

Na segunda parte da parábola, vemos os anjos levarem Lázaro para junto de Abraão, na alegria de Deus, enquanto o rico, ao invés de subir ao céu, é sepultado, encontrando-se “no meio dos tormentos”. Trocaram de lugar. Importante notar que não foi dito em nenhum momento que Lázaro punha sua fé em Deus, nem que “oferecia os seus sofrimentos”. Em sua resposta ao rico, Abraão não justifica ter sido por alguma prática “virtuosa” ou qualquer mérito excepcional que o pobre tivesse alcançado a felicidade. O único sentimento que o texto lhe atribui é o desejo de “matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico”. Seu único título à felicidade é a sua extrema indigência. Temos aqui uma boa indicação de como Deus se comporta: não são as nossas “boas ações” que nos salvam, mas a compaixão de Deus. Somente isto: se o amor está ausente de nossas vidas (como é o caso do rico), deixamos de ser imagem de Deus. Como escreve João: “Aquele que não ama (os seus irmãos) não conhece a Deus... Deus não permanece nele...” Os capítulos 3 e 4 de sua 1a Carta repetem isto à saciedade. No fundo, esta mudança de situação do rico e de Lázaro ilustra muito bem o que dizem as Bem-Aventuranças segundo Lucas (6,20): “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Felizes vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados...” A felicidade está no futuro; o presente é o tempo de prova da fé.

Comer e não comer

O rico da parábola come muito além da sua fome: suas festas são suntuosas. Já o pobre, sequer pode comer as migalhas que caem ao chão. Este tema, de “comer e não comer”, é freqüente na Bíblia. Aparece já em Gênesis 2: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, não comerás...” É questão de vida ou morte. O alimento é rigorosamente ligado à vida e o capítulo 6 de João inverte o interdito do Gênesis: substitui o “se comeres, morrerás” pelo “se comeres, viverás”. Trata-se então do seu corpo que foi entregue para a vida do mundo, do fruto novo de uma nova árvore, a árvore da cruz, árvore a uma só vez do conhecimento e revelação do amor e árvore da vida. O rico recusou dar-se a si mesmo, dando o seu alimento a quem estava faminto. Com isto, separou-se radicalmente do Cristo, que dá a sua vida. Agora, é o rico que está fora, fora do Cristo, fora da sala da festa, fora das núpcias de Deus com a humanidade. Não há lugar para ele no banquete do amor, deste amor do qual ele mesmo se excluiu, quando Lázaro jazia imóvel à sua porta. A segunda parte da parábola revela, no fundo, (em imagens), algo que já estava presente no decurso da primeira parte: Lázaro se identifica com Deus, por sua pobreza, e o rico está ausente de Deus, por sua falta de amor. O grande abismo que, no final da parábola, separa estes dois homens já estava lá, desde antes; o rico o havia criado quando se saciava, enquanto Lázaro morria de fome. Mesmo assim, não temos ainda aqui a última palavra do Evangelho: o rico está perdido, mas o Cristo vem encontrar o que estava perdido.

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