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06 Setembro 2013

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 23º Domingo do Tempo Comum (8 de setembro de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Sabedoria 9,13-18
2ª leitura:  Filêmon 1,9-10.12-17
Evangelho: Lucas 14,25-33

Uma proposta difícil para se ouvir

Onde a tradução litúrgica nos fala em “não desapegar-se de" ou em preferir (seu pai, sua mãe, etc.), o texto grego usa o verbo “odiar". E isto não foi para atenuar em nós o sentimento de revolta que estas palavras provocam. Revolta que logo se torna uma espécie de ceticismo: o Cristo não poderia nos ter dito para odiar os nossos próximos. A prova disto? Em Mateus 15,6, ele declarou ser vontade divina honrar pai e mãe; em 19,5-6, citando o Gênesis, ele fala da união do homem e da mulher como de um ato do próprio Deus. Então, o que exatamente significa este "odiar", tão contrário ao conjunto dos ensinamentos de Jesus? Seria uma hipérbole ao estilo dos escritos proféticos, como quando, em Mateus 5,29-30, ele fala em arrancar um olho ou em cortar a mão direita? Sim, sem dúvida. Mas a tradução litúrgica não deixa de ter razão quando atenua este "odiar" pelo desapegar-se, ou "preferir", palavra que significa "fazer passar à frente". Mesmo sendo um pouco menos escandaloso, ainda assim é duro de se ouvir: como em Mateus 10,37, onde o Cristo fala em "amar mais". Para começar a compreender, é preciso que nos lembremos de que esta passagem se situa no relato da caminhada para Jerusalém, para a crucifixão. Jesus vai ter aí de renunciar a tudo, vai aceitar perder tudo. Irá "preferir"-nos a tudo o que a criação poderia lhe oferecer; irá fazer com que nós passemos à frente de sua própria vida. O "vir a ele" do início da leitura não nos encaminha para um ponto de chegada: no versículo 27, este "vir a ele" torna-se "caminhar no seu seguimento".

Para além dos frágeis apoios das nossas seguranças

Pai, mãe, esposo, esposa, filhos, filhas, irmãos, irmãs; todo o ambiente natural, as nossas raízes, tudo o que temos nesta vida para nos situar, nos identificar e reconhecer; tudo o que nos traz, ou que pode nos trazer, tranqüilidade e segurança. Jesus mantém esta mesma linguagem com respeito às riquezas. Notemos os possessivos: "seu" pai, "sua" mãe, "sua" mulher... Podemos perguntar se Jesus não nos convida simplesmente a que renunciemos às nossas atitudes possessivas, ligadas justamente à nossa obsessão com uma segurança que se assenta, não no Amor que nos faz existir, mas sim naquilo que possuímos. Como diz Paulo em 1 Coríntios 7,29-31, trata-se de possuir como se não possuíssemos. No fundo, vamos encontrar a experiência dos pais de Jesus, em Lucas 2,29-35, quando Simeão os destituiu de alguma forma da posse de seu filho, para destiná-lo a ser "a luz das nações e a glória de Israel". O cenário é o mesmo de Lucas 2,41-50, quando vemos Jesus lhes escapar para ir dedicar-se aos assuntos de seu Pai. O que não o impede, contudo, de voltar com eles para Nazaré, permanecendo-lhes submisso; em suma, sem pertencer a eles, leva, no entanto, com eles uma vida normal, numa relação verdadeira, mas despossuída. É inútil tentar adquirir tais atitudes por meio de esforços da vontade: há um caminho apenas para se chegar até aí: olhar para o Cristo e escolher segui-lo ou, mais exatamente: viver o que a vida nos traz e as privações, por vezes cruéis, que ela nos impõe, fazendo nossas as atitudes do Cristo.

Do amor para o amor; da vida para a vida

Preferir o Cristo a todos os nossos próximos ganha um sentido novo, de fato, quando se compreende que esta preferência consiste em fazer nossa a sua escolha: dar a sua vida "por seus amigos", por estes que ele ama. Segundo um paradoxo que é freqüente nos evangelhos, renunciando ao que chamamos de "amor" é que alcançamos o amor autêntico. Nunca amamos tanto os que nos são próximos como quando colocamos o Cristo acima de tudo. Notemos bem, acima da nossa própria vida. Assim como alcançamos o verdadeiro amor aos nossos próximos renunciando a um amor possessivo, somos também convidados a nos libertar de certo modo de conceber a vida para alcançarmos a vida verdadeira, a que supera a morte. A mesma morte para a qual caminha o Cristo, "dando a sua vida": é dando a própria vida que ela é salva. Somos, enfim, convocados a preferir o Cristo a tudo e a todos, para encontrá-lo e amá-lo em todos, a começar pelos nossos próximos. Nosso amor encontrará, então, a sua verdade, impregnando-se de respeito, deste "temor de Deus" de que falam as Escrituras. Caminhar em seguimento ao Cristo nos obriga a deixar as seguranças do que "já está aí", do que é bem conhecido, que não nos reserva mais surpresas e que dominamos, este ambiente humano que acreditamos possuir, mas que pode nos aprisionar. Abrindo-nos ao futuro do Cristo, libertamos também os nossos próximos para que também eles possam acolher Aquele que vem.

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