Cristo, Rei do universo (Jo 18,33-37)

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23 Novembro 2012

O Cristo, rei do universo, não tem nenhum poder, se não for aquele do amor incondicional que o faz Testemunha da Verdade. Esse reinado não está totalmente estabelecido porque nós estamos associados, e acontece muito frequentemente como Igreja, que projetamos os nossos desejos de onipotência... e isso atrasa o evento do Reinado de Deus no mundo.

A reflexão é de Raymond Gravel (1952-2014), padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras da Festa de Cristo Rei. A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Dn 7,13-14
2ª leitura: Ap 1,5-8
Evangelho: Jo 18,33-37

Neste último domingo do ano litúrgico, o evangelho de Marcos cede o lugar ao evangelho de João. Jesus comparece diante do representante do imperador romano, mas ele não tem nada a ver com o título de rei que Pilatos quer vesti-lo. Ele é rei, mas não como os reis deste mundo: ele é o menor entre os homens. O Cristo dos evangelhos pregou o Reino e evitou se apresentar como rei para não ser confundido com os reis da terra. E se a Igreja o celebra como rei, trata-se de um rei único, estranho, sem pais nem coroa, sem cavalos nem soldados. Ele é um rei servidor, um rei pastor, um pastor, um rei... pobre. E para entrar nesse Reino que ele promete, é preciso lutar para que se tornem reis... os pobres, os pequenos, os não amados, os excluídos. Aí está a sua verdade! Uma verdade que o próprio Pilatos não quer compreender. Imediatamente após o evangelho de hoje, Pilatos diz a Jesus: “O que é a verdade?” (Jo 18,38). A partir das três leituras de hoje, que podemos dizer sobre o reinado de Cristo?


Um Filho de homem

O autor do livro de Daniel, no capítulo 3, narra um sonho (Dn 7,2-14) e a sua interpretação (Dn 7,15-25). Daniel, que vive durante a grande perseguição grega contra a religião judaica, sob o reinado de Antíoco IV Epifânio (175-164 AC), se transporta à corte de Babilônia no século antes da nossa era, e conta, em símbolos, o desenvolvimento da história até o presente da sua vida. Os quatro impérios que se sucederam – Babilônio, Medo, Persa e Grego – são simbolizados por bestas místicas cada vez mais ferozes, saídas do mar, lugar das potências hostis a Deus. Essas bestas são: um leão com asas de águia para Babilônia, um urso que representa os Medos, um leopardo com quatro cabeças e quatro asas de pássaro nas costas para o império persa, e uma quarta besta mais aterrorizante que as outras, com dentes de ferro e onze cornos: dez cornos para simbolizar o império grego, e a décima primeira representa o próprio Antíoco IV Epifânio; a medida está cheia, o máximo é atingido, o Deus mestre do mundo não pode deixar de intervir. O monstro deve ser destruído e, com ele, todo o poder do mal que é a sua emanação (Dn 7,11-12).

É então que, para tomar o lugar desses reinados bestiais, Daniel vê aparecer como um Filho de homem, alguém que tem forma humana. Esse Filho do homem não possui nem as presas do leão, nem as garras do urso ou do leopardo e tampouco os dentes de ferro da Besta. Esse Filho do homem, na cabeça do profeta, não é um indivíduo; ele é uma coletividade. Ele representa o pequeno grupo dos israelitas que ficaram fiéis ao Deus da Aliança, apesar das perseguições sangrentas de Antíoco IV Epifânio. Esses juízes não têm defesa diante das potências dos seus adversários, mas Deus lhes assegura seu triunfo definitivo. É a Boa Nova anunciada pelo profeta Daniel que podemos ler no trecho de hoje.

Após as ditaduras horríveis que se sucederam, Deus não pode fazer outra coisa senão fundar um Reino representado por outra figura humana a quem confiar-se, como na hora da primeira criação, quando Deus criou o homem (Adão), à sua imagem e semelhança, o poder sobre toda a criação: “Foi-lhe dado poder, glória e reino” (Dn 7,14). Muito depois, quando o império grego foi substituído pelo império romano, tão cruel como os precedentes, se desenvolve a esperança messiânica. Nesse momento, o Filho do homem tomará o rosto de um indivíduo, de um messias esperado, que os primeiros cristãos identificaram como Jesus ressuscitado.


Os sacerdotes

Segundo o Apocalipse de São João, Jesus Cristo, pela sua fidelidade a Deus, pelo seu amor incondicional por todos os humanos, pelo dom de sua vida, pela sua ressurreição, tornou-se soberano dos reis da terra, não sozinho mas com todos aqueles e aquelas que o reconheceram como tal: “Ele que fez de nós um reino, sacerdotes para Deus, seu Pai” (Ap 1,6). Dito de outra forma, em Jesus Cristo se cumpriu a palavra do livro de Levítico segundo o qual o povo de Deus é depositário do reinado do próprio Deus e, com esse título, é encarregado da função sacerdotal em favor de todo o universo. O que quer dizer que todos os cristãos de todos os tempos partilham o reinado de Cristo e seu sacerdócio, isto é, a sua função de intercessor pelas nações. O Reino é, então, um reino de sacerdotes no qual Cristo, o primeiro nascido dentre os mortos, e nós, os cristãos de todos os tempos, exercemos o reinado pelo nosso sacerdócio batismal.

Então, nós somos sacerdotes não só pelo sacramento da ordem reservada aos homens, mas também pelo sacramento do batismo dado a todos: homens e mulheres. E é pelo batismo que somos cristos ressuscitados. Então, por que reservar o ministério sacerdotal somente aos homens? Coloca-se a pergunta e a resposta não é satisfatória, pois o sacerdote não representa Jesus de Nazaré, que era um homem, mas o Cristo ressuscitado que não tem sexo...


Um testemunho da verdade

No evangelho de João como nos sinóticos, a Paixão de Jesus é situada sob o sinal do seu reinado. Mas atenção! É um reinado bastante paradoxal: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18,36). Como bem fala o teólogo belga, Jacques Vermeylen: “O Reino de Jesus não é a imagem das organizações políticas, onde todo mundo é obrigado a servir a um só, onde o poder de um significa a humilhação ou a submissão dos outros. Nesse reinado é o servidor (o escravo, o último dos últimos na sociedade) que reina, e a sua lei é aquela de um serviço mútuo, para a construção de uma fraternidade”.

Por outro lado, como o título de rei fica ambíguo, o Jesus do evangelho de João toma distância. À pergunta afirmativa de Pilatos: “Então tu és rei?” (Jo 18,37), Jesus responde: “Você está dizendo que eu sou rei” (Jo 18,37). Jesus não rechaça o título, mas ele especifica o conteúdo: “Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (Jo 18,37). A verdade em São João não é uma realidade abstrata, intelectual, mas uma pessoa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A verdade bíblica é sinônimo de fidelidade: fidelidade ao Deus da Aliança, às suas promessas de libertação, a seu engajamento com os pobres, os pequenos, os feridos da vida, os esquecidos, os excluídos. Não podemos estar na verdade sem privilegiar os pobres... Em Mateus, a pobreza é mesmo um sacramento: aquele da presença do Ressuscitado: “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25,40).

O Cristo, rei do universo, não tem nenhum poder, se não for aquele do amor incondicional que o faz Testemunha da Verdade. Esse reinado não está totalmente estabelecido porque nós estamos associados, e acontece muito frequentemente como Igreja, que projetamos os nossos desejos de onipotência... e isso atrasa o evento do Reinado de Deus no mundo. A esse respeito o exegeta francês Jean Debruynne traduz com eloquência essa maravilhosa realidade: “Essa festa real, esse coroamento de Jesus, esse sagrado (sacre) é uma massacre (massacre). A coroa desse réu é de espinhos, o manto real é um pano vermelho... Mas o paradoxo quer que seja Pilatos, o representante do imperador de Roma, que concede por si só, sem se dar conta, o título de rei a Jesus. É Pilatos que mandará cravar na cruz de Jesus o sinal que o designa como o rei dos judeus... O único reinado de Jesus é aquele de um crucificado. Isso não impedirá os cristãos de sonhar com o dia em que possam disfarçar a Deus de rei ou de imperador”. E eu acrescentaria, é o que a Igreja infelizmente fez na história... e continua fazendo hoje...

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