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09 Agosto 2018

O Pão da Vida, que às vezes é a Palavra de Deus e às vezes a Eucaristia, pode nos ajudar a detectar a presença discreta do nosso Deus na assembleia dominical para a qual somos convidados a cada semana. Comendo desse Pão da Vida, nós nos tornamos Pão da Vida para os outros.

A reflexão é de Raymond Gravel (+1922-2015), sacerdote da idiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 19° Domingo do Tempo Comum - ciclo B (12 de agosto de 2018). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura:
1 Re 19,4-8
2ª leitura:
Ef 4,30-5,2
Evangelho:
Jo 6,41-51

Hoje entramos de vez no discurso do evangelho de João sobre o Pão da Vida. Surgem várias questões: Quem fala? A quem ele fala? De que fala? Que mensagens tirar hoje?


Quem fala?

Muitos pregadores vão dizer hoje que foi Jesus de Nazaré quem fez esses comentários aos seus discípulos. Eles não se dão conta que fazendo isso eles desumanizam completamente o Jesus histórico, que foi um homem simples e comum, sem nenhuma pretensão e que não podia saber de antemão o que a Páscoa nos revelou. Esses mesmos pregadores vão dizer que Cristo pôde perdoar seus torturadores, mas, para nós, há perdões que são impossíveis de conceder. E ainda, se Cristo pode perdoar, só pode fazê-lo através de nós, seus discípulos, porque nós somos seu Corpo, a Igreja.

Neste discurso de São João sobre o Pão da Vida, é o Cristo da Páscoa que fala através do evangelista que exprime o fruto de uma longa reflexão teológica pós-pascal daquelas e daqueles que creram na novidade da Páscoa e que perceberam que elas/eles são a presença mesma do Ressuscitado, no seio das suas respectivas comunidades. É assim também em todos os discursos que há nos quatro evangelhos.

A quem ele fala?

O evangelista João se dirige aos leitores cristãos que fizeram a experiência da Eucaristia e que têm necessidade de lembrar o sentido profundo desse mistério. Seus leitores cristãos, que compõem a comunidade, vêm do mundo judaico e do mundo pagão, os quais estão influenciados por correntes gnósticas que, por sua vez, desenvolveram uma aversão às realidades materiais ou carnais e que ensinavam ser a matéria o que impede de alcançar a Deus, que é a fonte de luz e de vida e do qual nós só podemos obter a salvação mediante o conhecimento da verdade.

Neste trecho do discurso de hoje o evangelista João compara seus ouvintes aos hebreus do deserto que se revoltavam contra os enviados de Deus e, através deles, contra Deus mesmo (Ex 16,2). O protesto que João atribui aos judeus – não ao povo judaico, mas aos que rechaçam o Cristo – não é pelo fato de que Jesus propõe o pão verdadeiro que nos nutre espiritualmente. O protesto surge pela origem de Cristo, enquanto todo mundo conhece a origem humana de Jesus de Nazaré: “Esse Jesus não é o filho de José? Nós conhecemos o pai e a mãe dele. Como é que ele diz que desceu do céu?” (Jo 6,42). Essa é a problemática dos cristãos do século I e mesmo dos cristãos de hoje em dia.

De que fala?

“Eu sou o pão que desceu do céu" (Jo 6,41). O que isso quer dizer ao justo? É evidente que, no tempo do evangelista João, os primeiros cristãos criam que Jesus era Filho de Deus e que ele se tornou Cristo e Senhor na Páscoa. Por outro lado, não é negando a sua humanidade e a nossa que podemos alcançá-lo e assemelhar-nos a ele. Ao contrário, é pela sua humanidade que Jesus nos alcança e pela sua divindade que ele nos ressuscita, que ele nos dá a sua vida, que nos diviniza. No fundo, devemos guardar as duas dimensões de Cristo Jesus: a sua humanidade e a sua divindade. É pela primeira que ele nos une na sua humanidade e é pela segunda que ele nos transforma para tornarmos Ele, isto é, Cristo Ressuscitado.

É preciso então guardar o equilíbro entre os dois: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida“ (Jo 6,51). A carne de Cristo é a sua humanidade em toda a sua fragilidade. Comungar é, antes de tudo, participar na sua humanidade para assumir a nossa, compartilhando-a com os outros a fim de aceder a sua divindade. Eis o pão vivo que desce do céu e que nos transforma para nos mostrar o céu: “Os pais de vocês comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. Eis aqui o pão que desceu do céu: quem dele comer nunca morrerá" (Jo 6,49-50).

Mas, atenção! Comer o pão da vida não se reduz a comer uma hóstia na missa de domingo. É comer o Cristo, nos alimentar dele, nos deixar transformar por ele para nos tornarmos Cristo. E isso não se faz a sós, mas com os outros. O exegeta quebequense André Myre, num pequeno livro saboroso intitulado Ciel! Où allons-nous? (Éditions Paulines, 1991), nos mostra que a salvação, a ressurreição não é um ato individual, mas coletivo, comunitário. Ele escreve: “É por isso que é significativo que a ressurreição seja uma realidade coletiva. O corpo ressuscitado que esperamos não é primeiramente um corpo individual, na sua materialidade; é um corpo que comunica, o corpo em relação à natureza, o corpo que reza. O corpo resume a humanidade e o cosmos. É o corpo da humanidade que ressuscitará. É por isso que a ressurreição de um só, separada dos outros, é impensável”. Nós somos então responsáveis uns dos outros: “Eu contribuo para a salvação dos outros e eles para com a minha”.

É o que caracteriza o homem novo que encontramos no trecho da carta aos Efésios que temos hoje. Devemos nos despojar do homem velho: “Afastem de vocês qualquer aspereza, desdém, raiva, gritaria, insulto, e todo tipo de maldade“ (Ef 4,31). Precisamos nos revestir do homem novo: “Sejam bons e compreensivos uns com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus perdoou a vocês em Cristo“ (Ef 4,32). No Pai nosso não é o que nós dizemos quando expressamos essa relação mútua entre o perdão de Deus e o nosso? Nós somos os filhos bem amados de Deus, o mesmo título que Jesus Cristo... Nada menos!

Para terminar, a experiência do profeta Elias, na primeira leitura de hoje, é também a nossa. Em um mundo onde a violência é onipresente, o profeta se encontra no deserto, desanimado da vida; ele pede mesmo para morrer: “Chega, Javé! Tira a minha vida, porque eu não sou melhor que meus pais“ (1Re 19,4). Por outro lado, Deus, pelo seu anjo, alimenta o profeta Elias com seu Pão da Vida, isto é, da sua própria vida, para que Elias possa atravessar seu deserto, durante 40 dias e 40 noites, o tempo necessário para a conversão e a transformação para, finalmente, alcançar o Horeb, a montanha de Deus, onde Elias reencontrara Deus na brisa suave e não nas tormentas e nas grandes mudanças da vida.

Não é também a nossa experiência, neste mundo de violência onde Deus parece ausente de nossas vidas? Será que talvez nós também tenhamos os nossos desertos a atravessar? Alimentados do Pão da Vida, alimentados do Cristo Ressuscitado e vivo, sejamos atentos às brisas suaves; elas são muitas, mas discretas, de modo que podemos passar a vida toda sem nunca percebê-las. É somente aí que nós podemos reencontrar Deus. O Pão da Vida, que às vezes é a Palavra de Deus e às vezes a Eucaristia, pode nos ajudar a detectar a presença discreta do nosso Deus na assembleia dominical em que somos convidados a cada semana. Comendo esse Pão da Vida, nós nos tornamos Pão da Vida para os outros.

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