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02 Março 2012

Nesta segunda semana de Quaresma, precisamos saborear a experiência da Transfiguração, que é uma antecipação do céu, para melhor viver a prova do deserto.

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 2º Domingo de Quaresma (4 de março de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Gn 22,1-2.9-10.15-18
2ª leitura: Rm 8,31-34
Evangelho: Mc 9,2-10

Neste segundo domingo da Quaresma do ciclo B nós temos o sabor antecipado da Páscoa, da Ressurreição. Do deserto, que é o lugar da conversão e da transformação, passamos à montanha, o lugar de encontro com Deus. E sobre esta montanha, nós reencontramos o Cristo transfigurado com dois grandes personagens da história santa que tiveram um encontro com o Deus da Aliança: Moisés, a quem Deus se revelou no monte do Sinai e Elias, que foi visitado por Deus, no monte do Horebe, através de uma brisa suave. Hoje, na montanha da Transfiguração, essas duas personagens bíblicas veem confirmar que o Cristo da Páscoa realiza plenamente suas expectativas. A Esperança está no auge: a morte não é mais a última palavra sobre a vida... Cristo já ressuscitou e nós com ele.

1. Páscoa: a festa da Passagem: Mateus, Marcos e Lucas contam essa narrativa da Transfiguração. Os três evangelistas dizem que os três discípulos que assistem à cena são Pedro, Tiago e João: eles são chefes das comunidades cristãs do primeiro século e representam a todos os discípulos. Por outro lado, Marcos é o único que comenta a observação de Pedro: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Mc 9,5)... Ele salienta que Pedro não entende e que ele fala qualquer coisa: “Pedro não sabia o que dizer, pois eles estavam com muito medo” (Mc 9,6). Com efeito, podemos estar na Páscoa sem primeiro ter passado pela Sexta-Feira Santa. Mas que se trate da Sexta-Feira Santa ou da Páscoa, não são mais que passagens e não podemos nos instalar numa passagem. A passagem foi feita para passar. O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “A morte e a ressurreição de Jesus são uma passagem. Não devemos nos instalar numa passagem. Jesus permanece somente a caminho e o caminho é feito para passar. Pedro queria muito chegar à ressurreição sem passar pela morte. Mas a voz que vem do céu coloca as coisas no lugar. No momento em que Jesus encontra seu rosto de homem, a voz que vem do céu diz: Este é meu Filho bem amado”.

2. A Ressurreição! Por quê?: Mas por que esse encontro de Deus no monte? Por que essa experiência da Páscoa? Falar de Ressurreição, quando sabemos da fragilidade da vida humana, com as suas provas, doenças, dramas, sofrimentos e mortes, não é fácil para ninguém. Podemos esperar que nossa vida possa ser transformada, que o nosso corpo possa ser transfigurado e que todo o nosso ser possa ressuscitar? A resposta é: Sim! Mas, ao mesmo tempo, o evangelho situa a ressurreição como no fim de um longo processo, que começou com Jesus ressuscitado na manhã da Páscoa e que continua, através dos cristãos, na Igreja. São Paulo não diz: “Na pessoa de Jesus Cristo, Deus nos ressuscitou” (Ef 2,6; Col 2,12)? Isso não quer dizer que o sofrimento e a morte não existam mais e que tenham desaparecido completamente. Pelo contrário, São Paulo escreve: “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora” (Ro 8,2). Por outro lado, como Pedro, após ter saboreado uma experiência espiritual intensa com Cristo ressuscitado, gostaríamos de chegar à Páscoa, à ressurreição, sem passar pelo sofrimento e pela morte da Sexta-Feira Santa.

Na Igreja do primeiro século, tal como na Igreja de hoje, gostaríamos muito que a morte-ressurreição de Jesus nos transforme já, agora, sem que tenhamos que passar pelo sofrimento e pela morte. É o que Pedro recusa a Jesus: “E Jesus dizia isso abertamente. Então Pedro levou Jesus para um lado e começou a repreendê-lo” (Mc 8,32). A transfiguração de Jesus e a nossa não nos desencarnam: é na nossa humanidade que podemos já experimentá-la. Jean Debruynne acrescenta: “A transfiguração de Jesus não nos faz evadir. Não é uma fuga nem um sonho, nem mesmo uma aparição. É verdadeiramente Jesus, o homem da Galileia que se encontra com a morte para entrar na ressurreição. Aquele que Deus designa como Filho, no monte, é verdadeiramente um homem como nós”.

3. Sofrimento e morte: um mal a combater: O evangelho não nos diz que Jesus veio nos tirar da nossa condição humana por meio de um toque de mágica; pelo contrário, o evangelho nos diz que ele veio nos recolher nos caminhos às vezes caóticos, para que possamos esperar que as provas, os sofrimentos e a morte não tenham a última palavra sobre a vida. Mas atenção! Nós não temos que arrumar sofrimentos e sacrifícios, mais do que aqueles que nos são impostos. Durante toda a nossa vida livramos um combate contra o mal que se exprime através da doença, do sofrimento e da morte. Porém, o ser humano, sendo não somente espiritual mas também material, deve assumir a sua condição humana até o fim, isto é, até a morte, contudo na esperança de uma vida em plenitude com o Cristo da Páscoa.

Um elemento a precisar: às vezes há uma linguagem nos textos bíblicos que favoreceu um tipo de teologia do dolorismo que, infelizmente, circula até hoje. Na primeira leitura deste domingo, vemos Abraão que, por obediência a Deus, está prestes a sacrificar seu filho único Isaac. Uma narrativa assim é um escândalo se ficarmos com a mensagem de que, por obediência a Deus, devermos até matar um filho, como se Deus pudesse nos pedir algo semelhante. A mensagem desse texto é exatamente o contrário: os pagãos da Antioquia frequentemente ofereciam em sacrifício uma criança aos deuses para apaziguá-los. O Deus de Abraão não queria sacrifícios, porque a vida humana é um dom de Deus e reconhecê-lo nos convida a um maior respeito por todas as vidas humanas.

Na segunda leitura, uma interpretação duvidosa desse trecho da carta de São Paulo aos Romanos conduziu muitos cristãos a pensar que Deus Pai livrou seu Filho à morte para restabelecer seus direitos, por causa do pecado dos homens, e para acalmar sua cólera. Esta leitura da paixão e morte de Jesus, centrada no sofrimento por causa de nós, é cada vez mais insustentável e inaceitável. Seria dolorismo e até sadismo em estado puro. Se Deus aceita a morte de Jesus é por amor e é, sem dúvida, porque ele não tinha escolha. É por Amor também que ele ressuscitou. Pois Deus é Amor e seu único poder é amar; ele não pode impedir que a morte faça a sua obra.

Para concluir, do deserto nós subimos ao monte. Toda a nossa vida nós passamos de um lugar a outro, sem nos instalarmos nem no deserto nem no monte. Pois a vida nos coloca sempre em movimento, e o deserto e o monte exprimem, por sua vez, nossos limites, nossas pobrezas e nossas fragilidades, mas, ao mesmo tempo, a nossa sede de esperança, nossa necessidade de amor e o nosso desejo de eternidade. Passar pelo deserto nos faz apreciar mais o monte e o monte nos lembra que devemos voltar ao deserto, pois é lá que nós podemos trabalhar na transformação do mundo. Nesta segunda semana de Quaresma precisamos saborear a experiência da Transfiguração, que é uma antecipação do céu, para melhor viver a prova do deserto...

 

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