A "resistível" ascensão neoconservadora

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10 Março 2011

"Enquanto o conservadorismo europeu pode funcionar sem Deus, o neoconservadorismo norte-americano precisa de um fundamento religioso. Nisso está a diferença não só entre o conservadorismo dos dois continentes, mas entre os dois continentes em geral."

A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado na revista Europa, 09-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O pensamento neoconservador mudou a política norte-americana ao longo dos últimos 50 anos, infundindo sangue novo nas veias do Partido Republicano, especialmente a partir do governo Reagan. Um livro publicado recentemente nos EUA reúne 50 artigos editados e inéditos do fundador e pai intelectual do neoconservadorismo, Irving Kristol (foto): The Neoconservative Persuasion. Selected Essays, 1942-2009 (Ed. Basic Books, 2011, 390 páginas).

Organizado pela viúva de Kristol, a historiadora Gertrude Himmelfarb, e prefaciado pelo filho, William Kristol, o livro é muito mais do que um assunto de família, considerando a marca que deixou não só na política norte-americana, mas também na percepção dos EUA no mundo, a escola neocon (que se tornou, com o tempo, muito mais do que uma "persuasão", analgésica caracterização dada a ela por Kristol).

Uma das mais célebres definições de "neoconservador", que se deve ao próprio Irving Kristol, diz: "Um neoconservador é um liberal que foi assaltado pela realidade" (a liberal who has been mugged by reality). O livro ajuda a compreender melhor a "persuasão neoconservadora" para além desse mote e fornece alguns elementos importantes para compreender essa equação, especialmente com relação aos termos "liberal" e "realidade".

Acerca do termo "realidade", uma das acusações típicas dirigidas à mentalidade neocon é a de transformismo ideológico: jamais verdadeiramente liberta de uma atitude subversiva, é uma mentalidade que surge de uma visão da realidade social e política a ser revolucionada, e não reformada. O primeiro ensaio do livro é de 1942 e traz todos os sinais do trotskismo do jovem Kristol – tão trotskista a ponto de portar um nome de guerra, como era típico dos trotskistas da época.

Com o colapso do capitalismo depois de 1929, o jovem Kristol havia reagido com a rejeição do conservadorismo, em um país em que não havia muito a se conservar. Mas o jovem Kristol havia ido muito além, a ponto de condenar a guerra defensiva contra o Japão como "uma cruzada reacionária": potência da ideologia, da qual os neocons dariam prova (em direção contrária) nas décadas por vir.

Para compreender o segundo termo da equação, "liberal", deve-se chegar à verdadeira reviravolta cultural no final dos anos 60, quando a escola neoconservadora nasce em reação à "contracultura", tornando-se substancialmente uma "anticontracultura".

É nesse período que os dogmas neoconservadores nascem, do ponto de vista filosófico e cultural, cristalizados com o tempo e definidos por Kristol na conclusão de um artigo dos anos 80: Jane Austen é melhor do que Proust e Joyce, Rafael melhor do que Picasso, Aristóteles melhor do que Marx, Tocqueville melhor do que Max Weber, e assim por diante, classificando (p. 130).

Bem longe de ser um pensador sistemático, Kristol era mais conhecido como ativo organizador polemista e fundador de revistas (algumas das quais de vida brevíssima). Mas a sombra deixada pela sua eficácia polêmica não se deixa apagar facilmente pelos EUA contemporâneos, que, desde os tempos da teorização do neoconservadorismo até hoje, tornaram-se muito mais polarizados em torno da percepção dos dois fatores, "realidade" e "liberalismo".

Embora refratária à teorização política, uma interessante lista de dogmas políticos chega de Kristol em 2003, isto é, muito depois da infusão da linfa neocon nas nascentes do Partido Republicano de Reagan e Bush, em um ensaio intitulado The Neoconservative Persuasion: aspiração ao crescimento econômico, moderada aceitação do Estado moderno herdado de Franklin Delano Roosevelt, sadio terror do declínio moral e cultural dos EUA, nenhuma doutrina particular em política externa, exceto uma firme convicção da necessidade de que a potência norte-americana desempenhe um papel no tabuleiro mundial.

A julgar pela influência da escola neocon na política norte-americana e no Partido Republicano, essa definição parece ser muito modesta e autoabsolutória, se pescarmos algumas "pérolas" bem mais radicais do moderadismo de 2003. Em um artigo de 1986-1987 sobre a "agenda escondida dos direitos humanos", Kristol acusava os ativistas de criptocomunismo, agentes dedicados a enfraquecer os EUA. Em um ensaio de 1997, acusava a escola social-democrata de ter fundado uma ideia de Estado e de welfare state baseada em uma concepção ingenuamente otimista da pessoa humana, o que havia levado "à mais triste das tragédias políticas do nosso trágico século" (p.98).

Há algumas intuições que fazem de Kristol um fino intérprete da alma norte-americana. Em 1996, Kristol notava a diferença entre o conservadorismo europeu e o norte-americano, que se distingue por ser um patriotismo com base religiosa, típica de um país como os EUA, "uma nação baseada em um credo" (p. 182). Dois anos antes, em plena era Clinton, Kristol notava a potência do sentimento religioso nos EUA, para cujo renascimento "os conservadores e o Partido Republicano ainda não estão preparados, enquanto o Partido Democrata está quase totalmente desinteressado" (p. 295).

Esse é um dos motivos de interesse do livro para um leitor europeu, ou seja, a compreensão do sucesso cultural do movimento neocon nos EUA: enquanto o conservadorismo europeu pode funcionar sem Deus, o neoconservadorismo norte-americano precisa de um fundamento religioso.

Nisso está a diferença não só entre o conservadorismo dos dois continentes, mas entre os dois continentes em geral: uma lição boa para aqueles que querem compreender os EUA, mas também para aqueles que gostariam de importar facilmente dos EUA soluções políticas e matrizes ideológicas. A menos que se queira libertar daquele welfare state que, em 1997, Kristol havia julgado como fruto de uma profunda crise moral (antes que financeira), a ponto de acusá-lo de ter destruído "a instituição social mais fundamental, a família".

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