O Pampa padece com a silvicultura. Entrevista especial com Maria Conceição Carrion

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12 Dezembro 2010

"Quase uma tese". Assim a professora Maria da Conceição Carrion define o processo de trabalho que tornou possível a organização do Dossiê sobre o Processo de Implantação da Silvicultura no RS (2004-2009). Em entrevista à IHU On-Line, realizada por telefone, a ambientalista falou sobre o documento e suas funcionalidades e refletiu sobre o processo de expansão da silvicultura no estado. "A silvicultura tem de ser controlada. Nas proporções em que ela está sendo feita, é um absurdo. Segundo pesquisadores de todas as universidades gaúchas, o Pampa nunca teve floresta. Os danos socioambientais da silvicultura são incontáveis, portanto", apontou.

Maria da Conceição de Araújo Carrion
é Assessora Técnica da ONG Núcleo Amigos da Terra. É professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a principal novidade que este dossiê traz sobre a realidade da silvicultura no RS?


Maria Conceição Carrion –
A ideia era, dentro do movimento ambiental, ter um arquivo grande e organizado com dados desde 2004, quando se teve notícia da introdução da silvicultura no Pampa. Primeiramente, abrangeria até 2009, mas aproveitei e complementei com material de 2010. Os números e percentuais de plantio não me surpreenderam. O que mais me chamou a atenção no material é a garra dos militantes ambientalistas do Rio Grande do Sul e toda a luta em torno da invasão do eucalipto e do pinos no bioma pampa e que não fica mais restrita só a ele. Hoje já está no litoral e subindo os campos de cima da Serra. Em todos os setores onde atuávamos, mesmo sendo minoria, como no Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente), tentávamos barrar o avanço da silvicultura.

IHU On-Line – Ao longo desses anos, você acompanhou a forma como a mídia tem tratado a questão da silvicultura no RS...

Maria Conceição Carrion –
O dossiê é composto por material da mídia local, tanto do interior como da capital, veículos com circulação nacional, revistas especializadas e de assuntos gerais, panfletos e material de agências alternativas de notícia. Outra fonte muito importante foi a documentação de instituições públicas oficias, como decretos do Ministério Público e portarias da Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental), documentos das ONGs ambientalistas e movimentos sociais. Além disso, nós do movimento ambientalista acompanhávamos o que acontecia através da mídia eletrônica, rádio e TV. Há trabalhos acadêmicos que já analisaram a posição da mídia nessas coberturas.

IHU On-Line – Como o dossiê será utilizado agora?

Maria Conceição Carrion –
Esse dossiê não foi montado para ficar guardado, tem de ficar à disposição do público em geral. De preferência, permanecer em uma biblioteca pública, onde alunos, professores e pesquisadores tenham acesso. Primeiramente, ele precisa ser digitalizado. Não é um trabalho acadêmico, é a organização de um material variado e enorme. Da forma como está organizado, o dossiê abre um leque muito grande para vários setores de pesquisa, como jornalismo, publicidade, economia, sociologia, antropologia e engenharia florestal.

IHU On-Line – O movimento ambientalista gaúcho está vivo? Como você avalia a atuação contra a silvicultura?

Maria Conceição Carrion –
Claro. Se não fosse o movimento, o avanço da silvicultura seria muito pior. Continuamos lutando, embora sejamos minoritários, como no Consema, onde temos direito a cinco vagas, mas somos apenas quatro. O Movidema (Movimento Gaúcho de Defesa do Meio Ambiente) é um exemplo disso, que fez parceria na apresentação do dossiê com os jornalistas. Não morremos, ao contrário, continuamos vivos e organizados.

IHU On-Line – No RS a silvicultura não deve existir ou deve mudar seu processo de expansão?

Maria Conceição Carrion –
A silvicultura tem de ser controlada. Nas proporções em que ela está sendo feita, é um absurdo. Segundo pesquisadores de todas as universidades gaúchas, o Pampa nunca teve floresta. Os danos socioambientais da silvicultura são incontáveis, portanto. Em muitas unidades de paisagens, de bacias hidrográficas, o percentual permitido de plantio já estourou. E no próximo ano haverá revisão do zoneamento e os ambientalistas estão atentos. Os impactos sociais, econômicos e culturais são imensos. Quando foi dito que a pecuária no pampa era uma forma de preservar os campos da região, muitos criticaram, dizendo que se estava defendendo o latifúndio. Agora percebe-se que não era essa a intenção.

Se analisarmos apenas a questão da mudança na paisagem, não será preciso falar mais nada. Em várias regiões do Rio Grande do Sul não encontramos mais aquele horizonte que havia, sobretudo o pampa. Essa história de “até onde a vista alcança” não existe mais. Depoimentos de pequenas propriedades contam sobre a invasão de animais procurando algo para comer, pois em baixo daqueles pés de pinos e eucaliptos não nasce nada.

Mas você não pode concentrar sua atenção somente silvicultura. Deve haver um zoneamento ecológico econômico, porque há várias outras monoculturas, como a soja, o arroz, e a cana-de-açúcar, que devem ser observadas, pois não são usadas para suprir de alimentos o povo brasileiro. O grande percentual, ligado à expansão do agronegócio, vai para exportação e para o biocombustível.

IHU On-Line – Como a senhora analisa a estrutura da Fepam no que diz respeito ao controle da silvicultura no RS?

Maria Conceição Carrion –
Existe a necessidade de a Fepam e os demais órgãos ambientais se reestruturarem. O que se viu nesse governo, uma denúncia que também fez parte da nossa luta, foi a desestruturação desses órgãos, inclusive com perseguições a funcionários que lidavam diretamente com as licenças. Técnicos importantes e qualificados “colocados na geladeira”. Essa desestruturação dos órgãos e a desmoralização da Fepam mobilizaram e uniram estudantes, sindicatos, trabalhadores rurais e outras lideranças ao movimento ambientalista. Esperamos que o novo governo dê mais atenção à área ambiental que é tão importante. Para se ter uma ideia, no auge da luta contra o avanço desenfreado da silvicultura, contamos, em três anos, seis secretários de Meio Ambiente.

IHU On-Line – O governo Yeda deu muitos incentivos para a silvicultura no estado. O novo governo pode ser diferente?

Maria Conceição Carrion – É o que esperamos. O movimento ambientalista espera fazer um contato em breve com o novo governo. Temos esperança que o dinheiro público não seja destinado, tanto quanto foi, para incentivos à silvicultura, às grandes empresas, grandes montadores. Aliás, não só a nível estadual, como também federal. O BNDES destina muito dinheiro para as grandes empresas, quando deveria dar prioridade, por se tratar do dinheiro do povo, às pequenas e médias empresas, habitações por populares, enfim, às necessidades da maioria dos brasileiros.

IHU On-Line – Quais são os principais impactos da silvicultura no bioma do Pampa que já podemos sentir neste momento?

Maria Conceição Carrion –
Posso apontar alguns problemas como, por exemplo, a mudança na paisagem. Você não vê a paisagem pampeana como era, isso tem impactos de toda ordem. O cenário, a beleza influencia até no turismo. No rastro disso, ocorrem mudanças inclusive nos hábitos culturais. A concentração de terra, pelo que sei, está tomando maiores proporções após a introdução da silvicultura e com isso a expulsão dos pequenos proprietários de suas terras. Outro impacto diz respeito aos recursos hídricos, com a contaminação pelos venenos agrícolas e o uso indiscriminado da água, como se não fosse um bem coletivo que precisa ser preservado.


 

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